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História de Vida 35 - História de Fernanda: "Minha voz"

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    No encontro entre dois rios, em terras baianas, um português deu as terras como sendo suas, nomeando-as de "Barra do Mendes", hoje uma cidade. Desde sua origem, quer dizer, desde o carimbo dos brancos, num papel inventado por brancos, numa lei de brancos, aconteceram muitas brigas de coronéis, pela posse dessas terras. Na zona rural de Barra do Mendes existe um povoado chamado Melancia. Neste lugar nasceu Fernanda. Sua tataravó materna tinha sido escravizada, numa fazenda de Salvador. Ela e o filho do dono fugiram para essa região, num tempo longínquo. Os ancestrais de seu pai e de sua mãe, também tiveram um tronco indígena, os verdadeiros donos de todas essas terras. Da mãe, ela sabe que descendem dos tapuias, embora esse termo, também não especifique corretamente, a nação do povo de sua mãe. Fernanda, também não sabe a nação dos povos indígenas, do qual descende seu pai. Ela tem amor pela História. Gosta de saber os começos, para compreender o desenrolar das coisas, no ...

História de Vida 34 - História de Cema: "Se o mar eles pudessem dar, eles dariam"

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  Essa é a história de Diracene, mais conhecida pelo apelido de Cema. A história de Cema é a de uma família, porque ela não anda sozinha. Anda com os seus. Um pai e uma mãe, mineiros de Pirapora, da roça, da nascente do Velho Chico, que se pudessem, dariam o mar para suas sete filhas. Dois filhos homens, eles tristemente perderam. Sempre perguntaram ao pai de Cema, se ele não sentia falta de braços de filho homem, para o trabalho pesado da roça. O pai dizia-se abençoado, nada lhe faltava, porque tinha suas filhas. As sete filhas construíram com seus braços de mulher, suas famílias, pariram filhos, ergueram casas, tudo com muito trabalho pesado, de triplas jornadas. Cema e seus irmãos moravam na roça e estudavam como podiam. Os pais mudaram-se para a cidade, quando não havia mais as séries para prosseguirem. Cema conseguiu estudar até à sétima série, porque de repente, a vida foi dando nós, daqueles bem doloridos. Um de seus irmãos ficou doente e todos achando que era amarelão e tra...

História de Vida 33 - História de Maria Cláudia: "De quem é feita de chão"

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  Para conhecer a história que agora começo a narrar, guarde bem esta paisagem. A personagem principal dessa história bebe, vive e é nutrida, como um retrato dessa terra. Mulheres atravessam uma capoeira de algodão. Mulheres colhem o algodão, entre elas, uma menina de nove anos, parida do ventre de Maria do Socorro, a segunda, de seis meninas. Nascida no Ceará, na Fazenda de Cajazeiras do Ivos, no Anel do Algodão, Maria Cláudia, nesse começo da nossa história, vive com sua família na Paraíba, numa vila de Uiraúna chamada Quixaba. Se fecharmos os olhos, poderemos ver as casas simples. Não existe cerca. As casas se comunicam com as outras casas, com as estradas, com a plantação. O trabalho, a vida familiar, a natureza, tudo corre, vive, seca, nasce, morre como um todo. Os rios enchem, secam e vazam. Nas secas, as crianças correm pelos leitos. Nas cheias, meninos e meninas fazem barcos de folha de bananeira, para soltarem nas correntezas. Os homens entram nos brejos e colhem feixes de...

História de Vida 32 - História de Marta: "De asas e afetos passarinheiros"

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  Diz que era uma vez, uma menina chamada Marta. O pai e a mãe tinham vindo do sul para tentar novas possibilidades. Compraram uma casa na periferia da zona leste e tiveram sete filhos. Seis mulheres e um homem. A sétima era uma mulher, a Marta, dessa nossa história. Ela queria brincar na rua e os pais não deixavam. Então, a rua toda vinha para dentro de sua casa. Marta é uma criadora de possibilidades. Ela aprendeu a ler sozinha. Com cinco anos queria muito ir à escola para escrever, já que lia tudo, desde os quatro anos, talvez por influência de sua irmã mais velha, que fazia magistério. Mas seu primeiro dia de aula foi uma grande decepção. Tentou fugir cinco vezes. Então, era aquilo, a escola? Ninguém ainda sabia ler e muito menos, iriam aprender a escrever, no tempo que Marta sonhava. No tempo de quem já lia tanto. No entanto, sua professora foi bastante paciente e a ajudou a compreender que a escola era aquilo, mas nem tudo ficava perdido, porque os nossos sonhos sempre podem ...

História de Vida 31 - História de Anita : "Licença para voar"

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Diz que era uma vez, uma menina que chegou ao mundo, mas logo perdeu-se de sua mãe-ventre. Mas Anita, esse é o seu nome, compreendeu a história de sua mãe e sua difícil trajetória e deu-lhe em troca do ventre, todo o seu coração. Ela ainda espera que um dia, haja um encontro entre mãe e filha. Ao menos, um encontro da filha para com a história da mãe-ventre. Quisera poder saber mais sobre ela. A mãe de Anita, antes dela nascer foi trabalhar como doméstica, na casa de uma família, que hoje é a sua, que morava em Higienópolis. Perceberam que a mãe de Anita estava grávida e quando foram lhe perguntar, souberam que colocaria seu bebê para adoção. Essa família então, para qual sua mãe trabalhava, resolveu adotar Anita. Depois disso, nunca mais souberam de sua mãe-ventre. Anita ganhou uma mãe e uma família. Ganhou uma irmã e um irmão. Quando Anita era criança, sendo uma menina negra e estudando em tantos colégios, onde só estudavam brancos, vendo seu irmão e irmã brancos, ela achava que era ...

História 30 - História de Rosemary: "De uma cartilha do ABC, um caminho para a vida"

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  Diz que era uma vez, uma mulher chamada Rosemary, que vivendo em São Paulo desde sempre, achou que fosse paulistana. Mas que nada, tinha nascido em Goiás, onde seus pais também haviam nascido. Os pais se conheceram em São Paulo, trabalhando e muito, o pai em uma padaria e a mãe como faxineira e manicure. Quando o pai conseguiu alugar uma kitinete, Rosemary veio com um mês de vida, morar em São Paulo. Durante a gravidez, a mãe de Rosemary foi para Góias ter o bebê e só depois veio encontrar o marido. Rosemary adoraria saber mais, dessa parte da história de sua vida, lá para as bandas de Goiás e saber de seus avós e de todos. Mas pouco ela sabe, pois ninguém quer contar mais. Os que sabiam contar se calaram, talvez porque ninguém mais tivesse perguntado ou deixado o coração aberto para escutar. Toda família tem seu contador de histórias, aquela pessoa que ouvindo bem, o que diziam os mais velhos e guardando bem os acontecimentos, sabe contar os feitos da família. Mas é triste quand...

História 29 - História de Lucimeire: "Nas linhas-surpresas do caminho, uma mãe e um menino"

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      Diz que era uma vez, uma mulher chamada Lucimeire, que quando menina, viu passar o cometa Halley. O pai a levou em outra cidade, para observarem esse grande acontecimento. Ela e suas amigas combinaram de ficarem vivas, até os seus 89 anos, para olharem mais uma vez, o cometa passar pela órbita da terra. Lucimeire só por causa do cometa, até sonhou em ser astronauta. Isso não aconteceu porque seu sonhar no mundo, não seguiu as estrelas, mas as linhas e sinuosidades, que o ser humano constrói, até mesmo inspirando-se na geometria do universo. Formou-se em arquitetura. Ela nem se preocupa se de fato, ainda estará viva para ver o cometa passar. Ela já considera que o cometa passou duas vezes em sua vida, pois recebeu um presente, com o qual ela não contava: seu filho, Dante. Foi quase uma carona na cauda do cometa, quando seu menino nasceu e ele tem mesmo, um brilho diferente nos olhos e a faz olhar para o "além" das coisas. Ele não estava nos planos da vida de Luc...

História 28 - História de Agostinho: "Mãe, o Brasil chegou atrasado, mas nós, chegamos juntos!"

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  Diz que era uma vez, um menino das Minas Gerais, da roça, lá das beiradas do Rio Preto, que um dia chegou a São Paulo, na década de 1970. Vinha junto da mãe, dos irmãos e avós. Vinha com sua mala. Uma mala de brinquedos. Na época, a rodoviária de São Paulo ficava na Duque de Caxias. O menino nunca tinha visto luz elétrica. A rodoviária tinha um teto colorido, que iluminado pelas luzes fez o menino andar de olhos para cima e no encantamento dos vitrais, de uma beleza nunca vista antes, esquecer do tesouro seu. E aquele encantamento do menino, logo virou uma tristeza, com sua mala de criança esquecida pelo caminho. Esse menino, um dia cresceu e nunca deixou de olhar para os lados e ver se por um acaso, sua mala de brinquedos, estaria ainda, pelo caminho. Caminhar para fazer caminho. Num Brasil tão desigual, a caminhada pode nem começar, por tanta falta. Mas quem sabe, se na sorte do destino, tu encontrares um professor, que lhe mostre a injustiça da mala vazia, talvez o caminho com...

História 27 - História de Cláudia Rosa - "Às mulheres, que muito me amaram"

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  Essa é uma história que narra, algumas das linhas da vida de uma mulher. Conquanto, essas linhas vêm entrecortadas, como veios de rio, de tantas outras linhas da vida, de outras mulheres. São as mulheres de Cláudia Rosa. Brota no coração de Cláudia Rosa, como uma nascente, uma grande vontade de honrar, cada uma delas. A personagem central dessa história, como já foi dito, chama-se Cláudia Rosa. Nascida em São Paulo, mas filha de uma mãe carioca, de Natividade e de um pai nordestino, de Atalaia, sertão de Alagoas. Dessa união, nasceram três filhas. Cláudia Rosa é a caçula. Nascida, quando suas irmãs já eram maiores, numa outra fase de vida, de sua mãe. Sua mãe era uma mulher que sustentava sua família, a mãe e os irmãos. Trabalhou na indústria da Colgate, como chefe de uma seção. Compreendia o inglês, mesmo tendo frequentado bem pouco a escola e amava o conhecimento. Gostava de cinema e de ler. Era uma mulher considerada muito bonita, vaidosa e inteligente. O pai de Cláudia Rosa f...

História 26 - História de Lilian: "Do ofício de professora, lapidar a sua joia"

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  Diz que era uma vez, uma mulher chamada Lilian, que desde menina, sabia o que gostaria de ser nessa vida. Lilian tornou-se mulher e professora e realizou na sua vida, o sonho da menina que ela foi. Quando pequena foi sabendo aos pouquinhos, desse seu sonho. Tudo, porque observava sua mãe, uma grande professora. Sua mãe não era apenas uma grande professora, ela era uma mulher sábia. Resolvia conflitos, tinha escuta amorosa. Era uma pérola e todos reconheciam isso. Muitas pessoas a procuravam, desde às crianças até aos pais e mães, colegas de trabalho, somente para escutar suas sábias palavras. Lilian nasceu no Rio de Janeiro. Morava em frente à praia. De manhã, brincava na praia e à tarde, ia para a escola. Nas férias, continuava indo para a escola, acompanhando a mãe em seus trabalhos. Ela se lembra com carinho, que em frente à escola, havia uma padaria grande e sempre que acompanhava a mãe, nos recessos, elas comiam pão quentinho com mortadela. Lilian vivia de olhos na mãe, nos ...

História 25 - História de Aline: "Para quem teve asas, sem tirar os pés do chão"

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Diz que era uma vez, uma mulher chamada Aline, que desde menina, sabia bem o que gostaria de ser: uma professora. Assim aconteceu e não poderia ser diferente. Afinal de contas, Aline tinha uma mãe, que pedalava contra o tempo, para estudar. Há algumas décadas passadas, já no mundo contemporâneo, ainda assim, as mulheres só estudavam mesmo, muitas delas, até o quarto ano. A mãe de Aline, com três filhos e um marido que trabalhava como caminhoneiro, o que a deixava muito sobrecarregada, pelo tanto que ele viajava, mesmo assim, queria terminar os estudos. Era isso o que a Aline via quando era menina: uma mãe que deixava os filhos na escola e de bicicleta, também ia estudar. Essa mãe fazia de tudo para os filhos estudarem. Os irmãos de Aline não puderam frequentar a educação infantil, antigamente chamada de "prezinho", porque eles moravam muito longe. Porém, quando chegou a vez de Aline, a caçula, sua mãe encontrou uma maneira, até porque ela também queria estudar. Na ida, a mãe ...

História 24 - História de Regina : "Uma professora anunciada"

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  Diz que era uma vez e ainda é, uma professora chamada Regina, que passou a sua vida lecionando em escolas municipais. Em 2018, chegou à EMEI Monteiro Lobato, após ter se aposentado na rede municipal de Taboão da Serra. Chegar à EMEI foi para Regina, como aportar no paraíso. Para ela, uma das escolas mais bonitas em que já trabalhou. Quando ela olha para essa escola, só consegue pensar na menina serelepe, que ela já foi e ainda é. Em como ela teria gostado de brincar e balançar, num parquinho tão cheio de árvores e vida. Essa menininha que ela já foi, brincava e muito, numa rua de terra, na zona leste de São Paulo. Sempre junto de sua irmã, com quem ela aprontava. A mãe sempre comprava dois yakults, para cada uma das filhas. Disfarçadamente, Regina, furava os dois yakults da irmã e colocava leite no lugar. A irmã sempre dizia que tinha gosto de leite. A mãe dizia que era assim mesmo, uai, o que mais ela queria. Até o dia em que a mãe experimentou, após tanta reclamação, da filha m...