Aulas remotas, entendemos tudo errado?
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Aulas remotas, entendemos tudo errado?

Nos últimos três meses, a vida mudou. As compras, o entretenimento, os encontros e o trabalho romperam as barreiras físicas e passaram a habitar em nosso sinal de wifi. O que antes parecia comodidade, tornou-se a única forma de nos divertimos, de nos encontramos e de trabalharmos.

Neste ambiente virtual, tão pouco explorado, entrou a educação remota. Parece mais um item na enumeração acima, porém na prática sua existência é confusa e gera expectativas, dúvidas e frustrações.

A aprendizagem, como bem sabemos, ocorre por meio de diversos fatores, incluindo o ambiente. Ao investigar a ação fisiológica do córtex cerebral, Pavlov¹ aborda, em seu estudo, a questão da influência do contexto e do ambiente no processo de aprendizagem. O ambiente escolar é formado de diferentes espaços que existem com a finalidade de desenvolver nos alunos diferentes habilidades cognitivas e motoras e neles trabalhar, continuamente, a evolução do pensamento crítico.

Levando apenas esse fator em consideração, a educação remota já apresenta-se excessivamente desafiadora, tanto para professores -aos quais foram dadas as incumbências da entrega de qualidade dos conteúdos propostos, a adaptação de todo um planejamento estruturado para aulas presenciais e a conferência da aprendizagem em um contexto nunca antes vivido-, como para pais que acompanharam, indefesos, a transformação de seus lares em escritórios e salas de aula, sentindo-se involuntariamente pressionados a exercer um papel de co-atuantes no processo de educação de seus filhos.

Pensando nos professores, por muitos anos os critérios utilizados na avaliação de suas atuações pedagógicas permaneceram iguais: a observação de aulas concomitantemente aos resultados acadêmico dos estudantes, fundamentavam uma linha de qualidade de seu trabalho.

Embora muitos gestores sigam praticando a observação de aulas remotas, falham ao não observar, ou mesmo admitir, que critérios inéditos foram adicionados na planilha de sua observação; explico: um critério, muito comumente elencado em observação de aulas, por exemplo, é o nível de interação promovido pelo professor em sua aula, porém, em um cenário remoto o professor apenas conseguirá uma interação significativa ao saber conduzir o uso de ferramentas tecnológicas, que promovam uma interação real e, aqui, precisamos parar e refletir brevemente sobre o que significa interagir em uma aula remota. 

A interação não pode se resumir em pedir para que um aluno ative seu microfone - que deve permanecer desligado no restante do tempo -  e leia um texto do livro, responda a chamada, ou acompanhe o professor cantando uma música no acolhimento. Sob essa afirmação é natural concluir que o professor precisa ter acesso a uma sequência formativa que não lhe é, verdadeira e estruturalmente, oferecida.

Pedro Reis em sua obra Observação de aulas e avaliação do desempenho docente², afirma que o processo de avaliação, trata-se de “observação, reflexão e ação sobre a prática, centrada na resolução de problemas concretos, que implica uma colaboração estreita entre observador e observado”.  A questão levantada aqui é: como observar aulas remotas a fim de colaborar com a prática docente se o observador também desconhece (seguindo o exemplo) a maioria das ferramentas tecnológicas capazes de conduzir os alunos à uma real interação e ao tão aclamado protagonismo? Como ser ou formar um professor que atue objetivamente, de forma remota, na construção de uma aprendizagem significativa, uma vez que a formação acadêmica nunca considerou esse cenário?

A solução paira sobre uso não matraqueado do tempo e iniciativa. Em linhas gerais significa pesquisar, de forma pontual, ferramentas e métodos, cases de sucessos, pesquisas e cursos. No massivo mundo virtual temos à nossa disposição tudo o que precisamos e também o que não precisamos -claro-, e justamente por isso a necessidade de aprender a pesquisar e, principalmente, filtrar a enxurrada, composta por mais de 34 milhões de resultados que uma simples busca por ‘educação remota’ apresenta no Google, é tão importante. Essa prática é em si a aparência mais ampla da educação remota e ao compreendê-la, não apenas melhoramos a relevância de uma aula e garantimos resultados acadêmicos, como nos tornamos capazes de orientar os alunos a como fazer o mesmo, como se encontrar e desenvolver conhecimentos no ambiente digital.

Na contramão desse caminho estão a distração e a displicência e lutar contra elas nos exige coragem, superação e vontade, por sorte essas características são inatas em todos os profissionais de educação, que escolheram esse ofício por acreditar que poderiam, apesar de tudo, representar uma mudança real que começa micro, na sala de aula, e torna-se infinita, progredindo geograficamente em sua recriação para solucionar problemas que nunca levaram em consideração.

Mais uma vez estamos nos desconstruindo e que bom, que para isso, podemos contar com a internet que democraticamente, personaliza buscas de forma que caibam dentro de nossa ambição e de nossos sonhos!

Cinthia Cristina Soares Luidvinavicius




Referências

1 - Pavlov, I. P., & Anrep, G. V. (2003). Conditioned reflexes. New York: Courier Corporation.

2 - REIS, Pedro. Observação de aulas e avaliação do desempenho docente. 2011.


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