‘Sometimes there are sheets in a sketchbook which, although they are more or less scribbles, nevertheless have something to say.’
(Van Gogh)
A primeira vez que ganhei um desses estava em Londres ainda. Eu havia passado uma semana fora, cuidando de Gabriela, e quando voltei havia duas correspondências para mim em cima da cama: um postal de Nuria, de NY, e um pacotinho embrulhado, de Fortaleza. Queria abrir correndo, feito criança rasgando embrulho em véspera de natal, mas não podia acordar minha companheira de quarto, era madrugada já. Contive minha ansiedade e abri cuidadosa: era um caderninho, tipo moleskine, com capa estilo antiguinha. Um mimo da Cláudia, que eu conhecia como Melissa e hoje também é, como ela mesma diz, “monstro dos presentes”. Eu adoro rascunhar sobre viagens nele – as que fiz e as muitas que ainda quero fazer. Foi ele que me acompanhou firme e forte pela Europa, e que tem uma frase que rascunhei logo no começo, de Robert Louis Stevenson: ‘I travel not to go anywhere, but to go. I travel for travel’s sake. The great affair is to move.’
Nesse um ano e meio que se passou, ela me deu outro, com uma reprodução de um dragão, pintado nas paredes do monastério Lamayuru, no norte da Índia. Segundo a explicação, serve para nos encorajar a alcançar as realizações pessoais. Ela disse que, quando viu, pensou que eu iria amar ou odiar. E eu amei. Esse vai na bolsa, comigo pra cima e pra baixo. Tem de um tudo lá: anotações de cotidiano, listas de compras, telefones e pendências, quereres, inspirações, lembretes… Tem até rascunhos de looks que vou pensando com meus botões e idéias para melhorar o dia-a-dia, de tão pêra-uva-maçã-salada-mista que ele é. Mas, com certeza, a minha parte favorita dele é um diarinho que chamo de ‘motivos para sorrir – não um sorriso qualquer, mas daqueles de encher a alma por dentro, feito espuma de algodão-doce’. Juro que o nome é esse mesmo, bem comprido, e desde julho ele guarda meus sorrisos mais sinceros. Tem dias em que há muitas anotações, tipo muitos motivos para sorrir. E tem outros bem vazios também. Mas, no geral, ele é bem recheado. E, quando pinta uma nuvenzinha aqui em cima, é a ele que recorro.
Há duas semanas chegou mais um pacotinho, presente de aniversário atrasado. Nele, mais um moleskine especial: de Van Gogh, com a capa roxa (linda-linda), e acompanhado de uma ‘irmã’: uma agenda de telefones com uma ilustração dele na capa, direto do museu de Amsterdam. Não pude conter o sorriso e as lagriminhas de emoção que foram parar no canto dos olhos. Incrível como alguém que nem conheço pessoalmente é capaz de transformar não só meu dia, como vários momentos, me incentivando a escrever cada vez mais e a ter comigo não apenas um, como muito motivos-para-sorrir-feito-algodão-doce. E, no dia 3 de fevereiro, o diarinho rascunhado no dragão ganhou mais uma anotação: ‘moleskine e agendinha de van gogh pelo correio, presente de melissa, diretamente do ceará :))) ‘.