Por já ter morado (e viajado) na Europa, bem sei o que é ser imigrante em país distinto. E também bem conheço a fama dos brasileiros de aproveitadores, malandros, quererem levar vantagem em tudo. Já tive que aguentar cara feia e torcida de sobrancelha em vários casos – que não se derreteram apesar de eu estar vestindo meu melhor sorriso e falando a língua local -, somente pelo fato de meu passaporte ser verdinho.
Sou neta de espanhóis, sendo três dos meus avós nascidos lá (o outro, materno, era filho de portugueses), e vindos para cá no pós-guerra. Meu pai tem a cidadania espanhola, e me partia o coração saber que, devido às leis do país, eu só poderia ter requerido a minha antes dos 18, quando nem sabia quão importante era viajar pelo mundo com passe livre. E agora, só morando lá por um tempo.
Mas, no começo do ano, mudaram algumas leis. E uma pontinha do sonho teve um respiro de esperança de se tornar realidade. Fui atrás de mil documentos, fiz pedidos e declarações, ainda descrente de que poderia dar mesmo certo. Mas minha estrelinha continuou a brilhar forte, e hoje, menos de cinco meses após o processo iniciado, fui buscar meu novo passaporte de cidadã européia, tinindo de novo e lindo.
Não renuncio ao meu país, de maneira alguma. Sou brasileira de nascença e de coração. Mas tenho sangue espanhol também, que corre pelas veias, que me deu cabelos e olhos castanhos, proporções curvilíneas, drama-exagerado-almodovariano de fatos e voz aguda para discussões em família. E esse sangue, tão meu e familiar, hoje me deu mais um sonho realizado, e passe livre para voar, voar. Feito as borboletas que vivem saracoteando no estômago, ou feito o poema que melhor amigo recitou para mim num momento de angústia: “vai tua vida, pássaro contente, vai tua vida que estaria contigo”. Tou indo, nêgo, tou indo.