“A gente finge que arruma o guarda-roupa, arruma o quarto, arruma a bagunça. Tira aquele tanto de coisa que não serve, porque ocupar espaço com coisas velhas não dá. As coisas novas querem entrar, tanta coisa bonita nas lojas por aí. Mas a gente nunca tira tudo. Sempre as esconde aqui, esconde ali, finge para si mesmo que ainda serve. A gente sabe. Que tá curta, pequeno, apertado. É que a gente queria tanto. Tanto. Acredito que arrumar a bagunça da vida é como arrumar a bagunça do quarto. Tirar tudo, rever roupas e sapatos, experimentar e ver o que ainda serve, jogar fora algumas coisas, outras separar para doação. Isso pode servir melhor para outra pessoa. Hora de deixar ir. Alguém precisa mais do que você. Se livrar. Deixar pra trás. Algumas coisas não servem mais. Você sabe. Chega. Porque guardar roupa velha dentro da gaveta é como ocupar o coração com alguém que não lhe serve. Perda de espaço, tempo, paciência e sentimento. Tem tanta gente interessante por aí querendo entrar. Deixa. Deixa entrar: na vida, no coração, na cabeça.”
(Caio Fernando Abreu, vi aqui)
Ouvi esse conselho de outra fonte próxima há menos de um mês, e é que o venho tentando aplicar com afinco no meu cotidiano. E por me permitir deixar as pessoas entrarem, aos 45 do segundo tempo tive uma das surpresas mais bacanas de 2010. Um sopro de esperança, de vida nova. De fé de que há muitas coisas boas por aí, prontinhas para entrarem na nossa vida, se a gente abrir espaço.
Meu grande projeto para os próximos dias não é nada napoleônico como mudar o mundo ou descobrir a América. É fazer como Caio e deixar de fingir que se arruma tudo ao redor, quando a gente sabe que, lá no fundo, tem aquela camiseta velha que a gente tem dó de jogar, aquele presente carregado de apego e lembranças, mas lembranças que ocupam um espaço que hoje em dia não faz mais sentido.
Minha meta para esta semana é arrumar o quarto e o armário, simples assim. Mas arrumar de verdade, sem engano ou auto-sabotagem. Porque, no fundo, eu bem sei que tudo que mais quero é abrir espaço para esse 2011 que, apesar de ainda nem ter chegado, já me trouxe um respiro de novas paixões e novos planos. Pode vir, ano-novo. Pode vir.
