Reunião pelo Skype com meu chefe na Inglaterra, um colega na Alemanha e eu aqui no Brasil, todos remotamente sorridentes de seus respectivos cantos do mundo em três fuso-horários diferentes – de todas as invencionices dos Jetsons, aquele “telefone” que na verdade era uma tela em que dava pra ver a outra pessoa sempre foi minha favorita. Como foi que chegamos até aqui?, pensei. Nós já somos o futuro.
Terapia pra discutir o fato de sofrer sexismo de potenciais clientes e um assédio grave na época em que eu ainda era estagiária. Almoço sozinha no meu restaurante japonês favorito. Discutir fundos de investimento com meu novo gerente do banco e ter à mão comprovante de residência no meu nome, declaração de imposto de renda e patrimônio (um fusca 1975). Como foi que chegamos até aqui?
Quando tanto já aconteceu, mas de alguma forma parece que fui pinçada dos meus 25 para os 32 e me reconheci adulta numa quinta-feira morna de março. Com a idade das minhas heroínas de outrora (os 32 de Carrie na primeira temporada de ‘sex and the city’, os 32 da Céline em ‘Antes do pôr-do-sol’, os 32 de Bridget Jones no primeiro filme). Com a vida que sempre sonhei para mim, e ainda assim me sentindo vazia às vezes. Como foi que chegamos até aqui?
Há dois anos meu horóscopo está me alertando sobre um tal ‘amor do passado’ que pode voltar a qualquer momento, e eu sempre ansiosa pensando se ele vai me trombar na esquina quando vou pra padaria descabelada e de óculos, com o pijama escondido debaixo do casaco – mas torcendo para que ele me veja num dia em que eu me sinta bonita, e esteja de vestido rodado e blazer num encontro com um moço de olhos verdes e sorriso gentil. Mas nós nunca mais nos trombamos. E na maioria das vezes eu estou descabelada correndo pela calçada atrasada. Como foi que chegamos até aqui?