Tem um outro CEP em que eu me encontrei e te encontrei, com um sorriso tímido e um abraço acolhedor, fins de tarde em tons de rosa pincelado e uma brisa que soprava sem pressa. Casas coloridas que pareciam de um conto-de-fadas vieram pintar um romance que chegou sem ser convidado mas veio ocupando todos os recôncavos. Sem a sofreguidão de uma paixão que ainda habita os cantos de um coração maltratado; seu amor generoso, aberto e curioso me pegou pelas mãos e não queria me deixar ir embora. Me apresentou aos amigos, familiares e a todos os lugares. Das minhas caminhadas matutinas solitária eu guardo o olhar fascinado com tudo que me cerca e do pouco que se preserva sem que haja suas iniciais, como se houvesse escapatória das suas mãos tão presentes, do seu toque tão latente, da sua voz. Pouco a pouco, tudo o que torna uma cidade um lugar único é impregnado com você – quase nada existe daquele destino que não tenha seus olhos me encarando de volta, seus dedos frios buscando os meus.
Não era você que era para estar ali, comigo. Mas a vida tem dessas surpresas e, se não estivermos abertos e despertos, perdemos o mistério que é deixar “que seja”. Dispostos e expostos, para que a gente mergulhe sem medo ou constrangimento, para que a gente se machuque e aprenda que sabe levantar sempre que possível e se curar sempre que necessário. “Nem sempre temos o que queremos, mas às vezes temos o que precisamos”, canta Mick Jagger nos meus ouvidos enquanto aguardo, entre uma ou outra lágrima, a chamada no portão de embarque. Seu “amor tranquilo” não era a paixão que eu queria, mas com certeza era o caminho possível que eu precisava. Pela segunda vez em alguns meses, viajo buscando fugir de mim mesma e reconheço que “aonde quer que eu vá, eu vou junto”. Nem sempre aprendemos a lição que pregamos.
Duas vezes em que um amor me levou ao aeroporto para o embarque e eu me derreti em lágrimas e me abandonei em agradecimentos; como se fosse raridade encontrar tanta gratidão e encantamento (e não é?). Na outra costa eu havia deixado os pulmões que me trouxeram novos ares mas que também levaram consigo meu suspiro apaixonado. Neste novo exílio, deixo outras promessas de amor interrompido e mais uma vida contada nos sorrisos compartilhados, nos idiomas aprendidos e surpreendidos, numa tarde jogada na grama e nos medos superados. Não foi só a bicicleta enfrentando os carros no horário de pico com a luz dourada derramada do fim de tarde – foi também um coração que sangrava em silêncio todos os amores já rejeitados, aqui assoprados com cuidado para serem cicatrizados, “vai ficar tudo bem”. Todos os encontros são uma faísca de milagre.