Arquivo para março \08\-03:00 2024

como assim o mundo não parou?

como assim o mundo não parou
no dia em que conversamos em silêncio
e nossas mãos se falavam por baixo da mesa
e voltei pra casa flutuando no teu sorriso
e ainda assim
minha amiga sofreu a pior violência que uma mulher pode sofrer
e meu abraço estava a uma estrada e meia de distância
e nem todo o meu choro lavou uma alma agora pra sempre marcada

como assim o mundo não parou
após meu mergulho no nosso primeiro beijo
naquela noite de céu limpo e lua clara
em que meu amigo pensou em desistir de tudo
e nem toda a vida que eu vi brilhar em seus olhos
era capaz de fazê-lo ficar

como assim o mundo não parou para eu sentir meu coração pulsando acelerado
e o seu cheiro persistente na minha boca
quando atendi minha amiga com a voz apagada
me contando da sua depressão aprofundada
e da vida tão difícil que destroça os muito sensíveis
e não consegui parar o compasso do tempo
para contar quantas horas haviam se passado desde que nos vimos pela última vez

como assim eu ainda tinha tanto amor para dar
tanto amor para viver
e as paredes ruindo ao meu redor
não foram capazes de suspender
seu desmoronamento
para eu apenas existir neste morar
para o mundo parar
para eu respirar
e amar
uma vez mais

o cheiro do céu

27/06/2003 “acordei empolgada. tinha sol, brisa morna e uma vida inteira pela frente”  eu não sei onde foi parar esta nathalia de dezoito anos que escrevia um diário com tanta sede de romantizar a própria vida, mas leio os escritos encantada com alguém que um dia já fui e não reconheço mais. me perco naquelas páginas onde pouco me encontro tentando reviver sentimentos ali tão novos e vívidos, buscando me resgatar onde eu nem lembrava estar. muitas vezes me sinto descobrindo a vida de uma outra pessoa, talvez porque seja assim mesmo – aquela vida, um dia tão minha, há muito não existe mais. nem aquela nathalia. o futuro está no passado. o quarto ao lado tem um aroma de ambiente recém-comprado, que alguém do marketing resolveu nomear de “céu e flor de sal”. eu nunca senti o cheiro do céu, e sal para mim é cheiro de pele pós-praia num dia quente de verão. lá no inverno de 2003, em que eu estava muito apaixonada e tão pronta assim pra vida, talvez o cheiro do céu fosse mais fresco do que é hoje – o que não quer dizer que fosse melhor, era apenas diferente. céu para mim era sempre azul, e agora não mais: vinte anos depois, aprendi a apreciar melhor os dias de céu nublado do que sabia naquela época, e talvez eu prefira o cheiro do céu em um dia “bonito pra chover” do que aqueles que parecem lavados à mão, e que agora estampam embalagens de spray para ambiente. estou voltando pra mim.

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