Archive for the 'randômicos' Category

eu tenho o céu de abril pra desentristecer

Outro dia me dei conta que entre amor número 2 e amor número 3 se passaram dois anos – o mesmo tempo que se passou entre amor número 3 e agora. Mas este tempo entre esses dois amores parece que foi tão mais… foi um coração partido tão feio, que depois dele veio uma ânsia aguda de fechar a ferida a todo custo: e com ela veio um sem-número de amores líquidos, tombos e cabeçadas, que fizeram esses dois anos parecerem quase uma década errante, à deriva.

Já o amor 3 deixou no peito a sensação bem-resolvida de amor bem-vivido, e os dois anos que se passaram vieram como um sopro – de espera sem demora, paciente e serena, sabendo aguardar pelo que vale a pena. Foram dois anos tranquilos e sem sofreguidão, ajeitando os cômodos e móveis, buscando sentido e propósito, sem desespero ou aflição. Foi o amor que colocou tudo de volta no lugar e trouxe o que precisava, na hora certa, com mansidão e propriedade, imensidão e poesia.

***

Só hoje, após quatro anos, o amor número 2 fez sentido – e pode, de alguma forma, ser libertado. Amor número 3 seguirá para sempre sendo aquele sobre os quais os filmes são feitos, os livros são escritos, as músicas são cantadas – um tesouro preservado num canto da memória, nuns rabiscos guardados e num lugar precioso que ainda me move e me aconchega. Abril deste ano me trouxe nova surpresa e o desdobrar tem deixado o coração quentinho. Que venha maio. 

numa tarde abafada de verão eu reconheci que meu espírito se quebrou um pouco

“não vou me deixar embrutecer
eu acredito nos meus ideais
podem até maltratar meu coração
que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar”

Este trecho da música da legião urbana foi o que me fez chorar no fim de tarde de uma quinta morna de verão. Porque eu me lembrei que, por boa parte da adolescência, este mesmo trecho ficou dentro da minha carteira, escrito à mão, para me lembrar que podiam maltratar meu coração, não me amar de volta, devolver com indiferença ou descaso: meu espírito ninguém ia conseguir quebrar. Esse trecho era quase um manifesto de resistência rebelde e ingênua, adolescente.

Tantos anos se passaram. Tanto coração partido e machucado, surrado. Tanto desamor. Então me dei conta de que meu espírito se quebrou porque hoje eu quase nunca deixo ninguém entrar. Eu não abro a porta, eu não convido mais. Talvez eu pouco acredite, e isso é ruim. É triste demais um coração esvaziado de expectativa ou de vontade. A música seguinte é quase uma continuação, reconhecendo a importância do amor passado e um “lá vem de novo, acho que estou gostando de alguém”. Vamos ver o que os próximos capítulos nos reservam. 

futura eu de 2018

“dia 28 de dezembro com um calor de matar e eu sentada na sala de casa (com a porta da varanda fechada para ver se fica menos quente), com uma almofada e o computador no colo, escrevendo as próximas newsletters – inebriada com as mensagens de carinho em resposta à última. lendo muitos textos inspiracionais de ano-novo, me deu vontade de escrever para você, futura nathalia. com 33 anos (!).

eu espero que seus 32 tenham sido mágicos – essa idade da carrie na primeira temporada de sex and the city, da bridget no primeiro filme da bridget jones, da céline em ‘antes do pôr-do-sol’. essa idade tão importante.

eu espero que seus 33 e seu 2018 sejam repletos de mágica e sonhos e loucura boa. que você leia muito, e que ame e seja amada por alguém que te acha incrível – porque você é. espero que você se surpreenda, que você seja sua própria heroína, e sua máxima inspiração seja superar você mesma. que você sonhe de forma perigosa e desafiadora aqueles sonhos grandes que você tem vergonha de contar a pessoas pequenas. eu espero que você continue apostando na gentileza como moeda de troca suprema com o universo. que você seja generosa sempre que possível, e compreensiva sempre que necessário. que você continue moldando o (seu) mundo da forma que você acredita. seja corajosa mesmo quando não for genuíno, porque você vai acabar acreditando que é sim capaz de enfrentar tudo – e você é. ser covarde nunca é uma opção (embora desistir depois de insistir às vezes seja).

nunca esqueça que a gente encontra mágica se estivermos procurando mágica. assim é com o amor, o cuidado, a alegria, a conexão – a gente vê o mundo não como ele é, mas como a gente é, lembra?

seja gentil com os outros, mas principalmente com você. se perdoe, se cuide, se ame, se proteja. se jogue. às vocês você vai cair, às vezes você vai voar. e erre. erre muito. se permita dar passos maiores que a perna e leve tombos. se force, se empurre, aprenda e se levante. ame sempre de coração pleno, e sofra apenas o necessário. continue fazendo dias valerem a pena nem que seja por apenas alguns minutos. esteja perto de quem você ama sempre que possível. respire profundamente. endireite a coluna. olhe para o céu.

você é muito pequena nessa imensidão toda, mas é você que dá sentido a essa existência assim tão sua. faça valer.

que 2018 te traga bons ventos para soprar, e novas razões para amar.

feliz ano novo!

com carinho,
sua velha eu”

 

(cartinha escrita no dia 28 de dezembro de 2016 via futureme, recebida e lida hoje e que me arrancou sorrisos – e são esses os meus desejos para o seu ano-novo também :) 

e vem chegando a primavera

Um dia antes do início da primavera, me dei conta de que esse seria nosso 5o aniversário de casamento, se de fato a gente tivesse se casado conforme havia programado. A gente tinha escolhido essa data porque era nosso aniversário de namoro e o início da primavera – naquela analogia trivial porém sempre bonita de algo que ‘floresce’. Porém, não houve casamento nem nada e, neste ano, que seria o tal quinto-aniversário-de-casamento; na verdade era aniversário do meu atual romance, e ele vinha para jantar. Enquanto eu amarrava o avental e confabulava no cardápio e preparava a sobremesa com velinha para assoprar; pensei nas voltas que o mundo dá. Dois bolos completamente diferentes e ainda assim mil motivos para comemorar. Um sopro.

Nosso futuro recomeça.

histórias que só existem quando lembradas

Amor número 1 que me aparece nos sonhos mais pertinentes em noites abafadas de um inverno que não invernou; e nas histórias contadas aleatoriamente em que puxa um assunto e outro em que ele sempre está presente de alguma forma, num pedaço de vida que já foi pouco mais de um terço de anos vividos e hoje já é quase um quinto quanto mais me afasto desta lembrança. Eu cantando a plenos pulmões uma música cafona que diz que “não posso viver se viver for sem você” enquanto lavo a louça. Amor número 3 numa região geográfica atingida por um furacão e que me manda um vídeo sobre como seria o planeta Terra se a gente não existisse. O som do seu sorriso ao despertar. Seus olhos de verde-mar. Philip Glass tocando de fundo num outro cômodo enquanto acendo um incenso. Amor número 2 nunca me volta em lembrança alguma e é quase como se nunca tivesse existido, tirando o fato de que existiu sim e foi minha última dor de amor bem doída, de ficar indo ao banheiro no meio do expediente para poder chorar em paz no escuro. Não existe amor atual, apenas um ou outro relance de romance para deixar o coração batendo mais rápido vez ou outra. Se não houvesse vestígios de amores já vividos ainda permeando alguns cantos solitários do passado, como contaríamos nossa história?

o limbo dos souvenirs de amores partidos

E dentre as muitas coisas que perdemos com o fim de um relacionamento, tem as músicas e os lugares e os poemas e os romances todos que podiam até ser muito meus antes de te conhecer; mas eu emprestei pra gente usar na primeira pessoa do plural e eles se metamorfosearam em qualquer outra coisa que não é mais só minha nem só sua; e depois que a gente termina também não é mais nossa, e cai no limbo de todos os souvenirs de relacionamentos já fin(d)ados.

Meu restaurante francês que era favorito até meu melhor amigo trombar com meu amor passado acompanhado de sua nova namorada. Uma música que eu amava e hoje lembra saudade porque quando eu era metade de um casal ela fazia sorrir e fazia sentido, o-mundo-anda-tão-complicado-que-hoje-eu-quero-fazer-tudo-por-você. Uma sobremesa que hoje já não é mais tão especial porque não tem alguém do outro lado para pedir “uma só mas com duas colheres para dividir”. Um perfume que nunca mais será apenas um perfume qualquer de um estranho que me cruzou na rua – ele será sempre um cheiro de memória de um amor muito amado que vestia apressado a camiseta após o banho pela manhã, inebriando o quarto inteiro. As músicas agora sem dono, o perfume contaminado com o som de um sorriso, uma sobremesa nunca mais provada. Para onde devem ir todos os objetos inanimados quando o amor não é mais amado?

cheiro de novo

A gente namorou num mundo pré-netflix smartphone whatsapp facebook tinder, no que hoje parece ter sido a era paleolítica – e eu aqui me perguntando, o que teria sido diferente? Se ao invés de ter me apaixonado platonicamente cruzando o corredor da faculdade a gente tivesse se visto numa foto para apertar coração ou não, a gente teria se amado então? 

Assombrada por fantasmas dentro da minha própria casa, da roupa seca estendida no varal há dez dias porque ainda não encontrei cinco minutos de vontade para recolher. Ou do lixo para retirar, acumulando ali num canto descuidado da cozinha. Ou da bagunça na mesa de jantar, com caixas e livros e recibos e pedidos de exame médico – aqui dentro as coisas não estão muito diferentes disso.

Bem no dia em que eu me esqueci de passar perfume, reencontrei alguém que não via há tantos anos. E fiquei chateada quando me dei conta disso, porque de alguma forma eu queria que ele tivesse sentido que até meu cheiro mudou desde aquela época. Até meu cheiro. Haja desencontro.

amores bem passados e um coração ainda cru

Vênus retrógrado não trouxe amor do passado, mas trouxe muitas lembranças de amores já ultrapassados (há mais de vinte anos), e acho curioso relembrar de como eu era uma romântica incorrigível antes mesmo de ter chegado à puberdade. Tocou uma música na rádio e eu fiquei cantarolando o resto da semana seguinte, que ‘quem sabe o príncipe virou um chato que vive dando no meu saco, quem sabe a vida é não sonhar‘. Aos dez anos eu era essa garotinha que assistia “Malhação”, em que havia uma personagem com essa música de tema, e eu era sim essa menina que pedia a deus um pouco de malandragem (acho que fui até pouco tempo atrás, aliás). Na sexta série eu dava aulas particulares de história para o garoto mais popular da turma, que era bagunceiro e valentão, mas comigo era doce e gentil e eu enxergava lá naqueles olhos qualquer coisa de frágil, qualquer coisa de vulnerável, qualquer coisa de triste – no melhor estilo comédia romântica americana em que o príncipe do baile se apaixona pela garota nerd e desajeitada. Acontece que ele não se apaixonou, nada nunca aconteceu entre a gente, e ainda assim ele foi uma das lembranças do passado que me voltou num sonho vívido que pareceu ter durado a noite toda (porém, como inception já nos ensinou, deve ter sido coisa de minutos). E no sonho a gente se reencontrava já adultos ali perto do colégio e a gente finalmente vivia um romance divertido e leve, como todos os romances devem ser. Acordei mexida e fiquei pensando nisso o dia todo, mesmo tendo quase certeza de que ele se tornou apenas uma versão hipertrofiada do garoto meio truculento que ele já era naquela época, e de que nada nunca jamais aconteceria hoje, como já não aconteceu em 1997. A vida tem dessas.

 

vênus retrógrado traz amor do passado

Reunião pelo Skype com meu chefe na Inglaterra, um colega na Alemanha e eu aqui no Brasil, todos remotamente sorridentes de seus respectivos cantos do mundo em três fuso-horários diferentes – de todas as invencionices dos Jetsons, aquele “telefone” que na verdade era uma tela em que dava pra ver a outra pessoa sempre foi minha favorita. Como foi que chegamos até aqui?, pensei. Nós já somos o futuro.

Terapia pra discutir o fato de sofrer sexismo de potenciais clientes e um assédio grave na época em que eu ainda era estagiária. Almoço sozinha no meu restaurante japonês favorito. Discutir fundos de investimento com meu novo gerente do banco e ter à mão comprovante de residência no meu nome, declaração de imposto de renda e patrimônio (um fusca 1975). Como foi que chegamos até aqui?

Quando tanto já aconteceu, mas de alguma forma parece que fui pinçada dos meus 25 para os 32 e me reconheci adulta numa quinta-feira morna de março. Com a idade das minhas heroínas de outrora (os 32 de Carrie na primeira temporada de ‘sex and the city’, os 32 da Céline em ‘Antes do pôr-do-sol’, os 32 de Bridget Jones no primeiro filme). Com a vida que sempre sonhei para mim, e ainda assim me sentindo vazia às vezes. Como foi que chegamos até aqui?

Há dois anos meu horóscopo está me alertando sobre um tal ‘amor do passado’ que pode voltar a qualquer momento, e eu sempre ansiosa pensando se ele vai me trombar na esquina quando vou pra padaria descabelada e de óculos, com o pijama escondido debaixo do casaco – mas torcendo para que ele me veja num dia em que eu me sinta bonita, e esteja de vestido rodado e blazer num encontro com um moço de olhos verdes e sorriso gentil. Mas nós nunca mais nos trombamos. E na maioria das vezes eu estou descabelada correndo pela calçada atrasada. Como foi que chegamos até aqui?

um amor sempre partindo

Uma segunda-feira fria e garoenta em São Paulo. Aniversário do meu amigo mais antigo que, após uma temporada de férias na cidade, está voltando para Chicago. A festa é a três quarteirões de casa e eu saio duas horas atrasada porque fiquei trabalhando até tarde. Nem deu tempo de lavar o cabelo ou colocar as lentes de contato; vesti qualquer coisa e saí apressada de óculos, só queria estar lá para um abraço. Mas aí… você apareceu. Você, com seu sorriso acolhedor, me cedendo seu lugar ao lado do aniversariante. Você, o único outro avulso daquela festa. Você, que mora na Europa há cinco anos e também está só de passagem. Que acha São Paulo muito feia, mas sente falta dos amigos e da família. Você, que compartilha das minhas visões políticas e também se sente velho aos 31. Você, que teve banda de rock que tocava na mtv. Que coloca as mãos na frente do rosto quando fica com vergonha. Que tem muitas opiniões ranzinzas, mas o jeito mais doce de ser rabugento. Você, que apareceu quando eu estava indo viajar, e ia partir quando eu voltasse. Que chega em Lisboa bem no dia em que eu vou embora da cidade. Que foi um encontro feito para desencontrar.

Você, que acha que os romances estão muito líquidos e está difícil achar alguém que merece la pena – eu concordo. Que foi o não-beijo que mais mexeu comigo nos últimos tempos. E que, com sua delicadeza e olhos com qualquer coisa de triste, fez com que essa história se tornasse apenas uma lembrança carinhosa e não mais um coração partido. Porque eu sempre me apaixono por quem está de partida.

Se Vinícius já falou certa vez que a vida é feita dessa tal arte do encontro, embora haja tanto desencontro; eu aceito resignada que um só existe porque o outro aconteceu. E enquanto houver tanta gente se desencontrando em romances rápidos e rasteiros, é esse tipo de (des)encontro inesperado que mantém meu brilho no olho – alguma vez, quem sabe, alguém terá vindo para ficar. E será quando a gente menos esperar – talvez numa segunda fria e com garoa, desleixada e desprovida de expectativas, numa esquina a três quarteirões de casa. 


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