Mago ou Bruxo ?

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Bem, muitos me perguntam se os termos tem diferença e se tem , qual seria, senão por quê uns se dizem Magos (ou Magistas) e outros se dizem Bruxos (Ou Feiticeiros)?
Primeiro é bom esclarecer que tanto o Mago quanto o Bruxo lidam com MAGIA e a primeira pergunta a se fazer então seria: Mas afinal, o que é magia ?
Uma definição simples seria dizer que a Magia consiste em se lidar com as energias da natureza de uma maneira “não convencional”, ou seja, Magia Natural seria até um contra-senso uma vez que a magia nunca irá além da NATUREZA ela pode sim, transformar a natureza ao nosso redor, mas nenhum fenômeno mágico irá além das leis da natureza.

Agora, dizer isso pode parecer afirmar então que a Magia estaria limitada ao que chamamos de fenômenos naturais e assim sendo, acabaria por cair no rótulo de pura imaginação, prestidigitação ou sugestão psicológica?

A resposta é: NÃO! O problema é que nós estamos LIMITADOS em relação aos fenômenos da natureza e o que é verdade hoje para a nossa ciência, amanhã pode não ser mais, o átomo era indivisível, deixou de ser faz tempo. Conceitos como o de um Universo Multidimensional, começam a clarear a noção de que teríamos diversos planos de existência e que alem desse plano TRIDIMENSIONAL, poderíamos considerar o TEMPO como a QUARTA dimensão, dentre outras.

Pois bem, uma vez Eliphas Levi Zahed disse que a Magia é tudo aquilo que está na fronteira entre a fé e a ciência e a Kaballah diz que tem a virtude de fazer a ligação entre o nosso Mundo (Malkut) e as esferas superiores.

Conhecemos a afirmação de Hermes, o Trismegisto de que “O que está em cima é como o que está embaixo e o que está em baixo é como o que está em cima”. Isso encerra o princípio Hermético da Correspondência e nos leva a pensar no Micro e no Macrocosmo, no Homem como um reflexo do Universo em si mesmo. Ai está a chave do SELO DE SALOMÃO, da Estrela de 6 pontas que se consagra como a Grande Figura Mística do Zohar (que é o Livro do Explendor). E quando buscamos então uma maneira de interagir entre esses planos que alguns chamam de humano e divino, ai é que entra a MAGIA.

Ou seja, a Magia seria a FERRAMENTA a ser utilizada quando queremos gerar algum efeito prático no mundo à nossa volta, e isso significa dizer que ela é PRÁTICA, não se pode pensar em Magia apenas em teoria, pois se a ciência vive da experimentação, com a Magia assim também o é.
Claro que a teoria é necessária, uma vez que não se pode utilizar uma ferramenta sem conhecê-la sob pena de arcar com conseqüências nada agradáveis e portanto, cabe o estudo, mas estudo sem experimentação não faz de ninguém um Mago, assim como ler sobre uma trepanação não torna ninguém apto a abrir a cabeça de outra pessoa. (Ta certo que muitas vezes dá vontade de fazê-lo!).

Agora, o que diferencia um Mago, de um Bruxo então, se ambos lidam com a Magia ?

O primeiro aspecto que eu vejo de diferença é o caráter DEVOCIONAL que existe na Bruxaria, já que no caso de um bruxo, estamos falando de alguém que tem uma RELIGIÃO e que possui uma relação com os Deuses tanto para ajudá-lo em suas práticas quanto para orientá-lo em seu caminho mágico.
Na Bruxaria, nos dizemos pagãos e como tal, cultuamos a mãe terra (Gaia) e dependendo da vertente pagã cultuamos panteões como o Celta, Nórdico, Grego, Romano e por ai vai. Um bruxo normalmente celebra a Deusa, sua união com o Deus Consorte e o ciclo de nascimento, crescimento, maturidade, colheita e morte do Deus, dentro do que chamamos Roda do Ano, relacionando ai, as mudanças da natureza ao nosso redor com a chegada das estações e a celebração de cada aspecto que as mudanças sucessivas entre Solstícios e Equinócios nos propiciam. Além disso, celebra sua conexão com a Lua (símbolo da Deusa) e sua face em cada ciclo Lunar.

Já um Mago ou Magista tem sua prática calcada em diversas bases, e sem esse caráter de devoção. Um Mago pode ser Judeu (Cabalista), Islâmico (Sufi), Hindu (Gmnosofista) e até mesmo cristão (Gnóstico), porém, em sua prática ele lida com as energias do Universo diretamente, podendo até através delas evocar/invocar algum “gênio” (Como fez pra azar de Mefistófoles, o Dr. Fausto de Goethe), ou como dizia fazer Abramelin com o chamado do S.A.G. (Santo Anjo Guardião). Mas apesar de lidarem com Magia nos dois casos, poderíamos dizer que um Mago se tornou alguém que buscou se apoiar em instrumentos, conhecer diversos aspectos tanto físicos, quanto cósmicos (Papus nos dá uma dose de informações sobre Fisiologia e também Astrologia em seu Tratado Elementar de Magia Prática), e que realiza uma operação inserido num Círculo Mágico na maioria das vezes num local apropriado, devidamente preparado para tal.
Um bruxo, já tem as mãos a chamada MAGIA NATURAL e assim sendo, recorre diretamente à natureza e às energias que a formam para ajudá-lo.

Para resumir e finalizar, digo o seguinte:
Ambos os caminhos são maravilhosos, ambos funcionam, e a escolha de um e de outro vai depender de qual deles te dá mais prazer.
Você quer um caminho rebuscado, cheio de indumentárias, altares, bastões, espadas, cálices, pentáculos, athames, caldeirões e tudo o mais ?
Hum, pode ficar com a chamada Alta Magia, ou no caso de toda a semelhança acima não ser mera coincidência, pode ficar com a Wicca por exemplo.
Já se você quiser um caminho mais SIMPLES e Natural, se sentir bem em dedicar sua energia a uma Deidade, pode ser apenas bruxo pois esse negócio de Magia Cerimonial, Alta Magia, dá trabalho demais, pois até pra fazer um feitiço de prosperidade eu vou ter que esperar a Lua Certa, o dia da semana certo, a hora do dia certo e tudo isso com a vela certa, pedra certa, incenso certo, erva certa e tudo o mais com precisão Suíça.
Ou eu posso pegar meu cachimbo, tambor, maracá e curtir uma pajelançazinha que não faz mal a ninguém, e não tem contra-indicação (Claro que estamos falando de boas intenções, se bem que de boas intenções um certo lugar dito inferior ta cheio, mas isso é papo pra outro artigo).

Agora, crianças, não tentem nada disso sem antes pesquisar, perguntar, se informar e muito, afinal, lidar com as energias da natureza ao nosso bel prazer pode trazer graves conseqüências, é como uma Usina Atômica na mão do Homer Simpson, se é que me entendem ?

Paz e Luz !

Tudo o Que Nos Cerca

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Malhado

Não existe história ou lenda celta que nos fale sobre o início do universo. Nenhum relato sobre como ou quais Deuses o moldaram, nem foi entoado pelos Bardos de outrora o porquê de o terem feito. Pelo menos é o que sabemos até agora, e é respeitando essa realidade que falarei. Para muitos, especialmente os criados no ocidente como o percebemos hoje, a ausência de uma gênese é estranha e chega a ser frustrante, mas em minha opinião aquela era uma época onde o presente se mostrava muito mais importante que saber o início de tudo. As diversas sagas relatando sua história de invasões e conquistas me fizeram entender que o foco daquela sociedade estava na compreensão dos ciclos, e não numa visão linear do tempo.

Acho bastante lógico e natural que um celta, vivendo numa sociedade acostumada lidar com guerras e expansões territoriais constantes e mesmo inundações que possivelmente inspiraram as histórias de ilhas que apareciam e desapareciam, buscasse meios de transmitir seus valores de modo simples e fácil de memorizar, fazendo com que perdurassem através do tempo e das mais avassaladoras e imprevisíveis mudanças, mantendo assim vivo o legado de seus antepassados e permitindo que gerações futuras tivessem acesso a sua cultura, suas crenças e sua forma de enxergar o mundo. Muitas sociedades da época tinham essa preocupação, mas o ponto que torna os celtas tão memoráveis e fascinantes foi o extremo cuidado em não deixar essa herança engessar e tornar-se inadequada aos tempos futuros. E se a recusa em escrever suas histórias e lendas foi prejudicial para que pudéssemos lê-las diretamente no original hoje em dia foi também uma ferramenta fundamental para que essa adaptação pudesse existir, comprometendo o mínimo possível o cerne do que quiseram transmitir pois elas não eram apenas contos e fábulas, mas a história de seu povo, dos nossos Deuses e heróis e de tudo o que havia então de importante e sagrado em suas vidas.

Em oposição ao modo celta de compreender a natureza e seus ciclos, distanciamo-nos dela e hoje temos uma vida voltada (e extremamente focada) no consumo. Tornamo-nos hipócritas, e dizemos buscar valores nobres enquanto os ignoramos. A maioria de nós é capaz de postar em suas páginas pessoais algo sobre sustentabilidade ou cidadania enquanto joga lixo pela janela do automóvel com uma mão e continua a navegar pela Internet num “smartphone” com a outra, ao mesmo tempo em que fura o sinal vermelho e quase atropela alguém sem se dar conta ou importar-se com que poderia ter ocorrido. Nosso bom senso se perdeu, e hoje em dia o único valor que importa é o que digo mais do que muitos gostam de ler ou escutar: o da conta bancária, do crédito ou ainda da pilhagem proveniente dos roubos que se comete contra uma pessoa ou todo um país. Nossa sociedade é formada por indivíduos no sentido mais cruel e perverso da palavra, e cada um não enxerga além do próprio umbigo.

Não interagimos mais nem mesmo com quem chamamos de amigos, e em plena explosão das mídias eletrônicas não conseguimos enxergar o outro à nossa frente, pois a tela hipnótica dos aparelhos eletrônicos cada vez mais portáveis torna as relações sociais cada vez mais impessoais, e o senso de respeito à vida diminui a cada clique, pois o que é cibernético não respira, não sangra, não sai sujo da caixa e, se estragar, basta-nos comprar (ou furtar) outro. Em tempos que o mundo digital poderia ser uma ferramenta de revolução de pensamento, nossa forma ensimesmada de viver o transformou no cabresto perfeito para o “admirável gado novo” que sempre nos tornamos.

E o rebanho se renova a cada ciclo, desta vez postando fotos do próprio umbigo em redes sociais enquanto curte ou repassa alguma coisa séria que uma pessoa ou entidade poste só para parecer engajado em alguma causa ou para ajudar em algo que não nos demos ao trabalho de ler porque aquela piada ou “meme” é muito mais legal de ver do que discutir assuntos chatos que não interessam de verdade.

Agora, antes de culpar a tecnologia que, quando a sabemos utilizar é uma ferramenta capaz de nos ajudar a realizar coisas fantásticas, pondere acerca da sua parcela não de culpa, mas de responsabilidade, essa sim uma palavra muito mais séria e eficiente, pois não lhe dá a saída fácil do arrependimento nem do perdão, cobrando comprometimento em assumir a sua parte em tudo o que as pessoas normalmente negligenciam.

A chave para entendermos o mundo como os celtas o enxergavam está na compreensão do que a palavra indivíduo pode significar, e à medida em que cada pessoa passe a se ver não como um fim para onde convergem todas as informações e oportunidades que as novas tecnologias, com os mesmos velhos truques e discursos, nos permitem receber e comece a se encarar como possibilidade de início para um processo capaz de catalisar mudanças e fomentá-las, aí começaremos a nos transformar.

Toda informação será filtrada e analisada de acordo com o próprio senso crítico e então partilhada com o mundo conforme conclusões conscientes, e não como resposta a um impulso qualquer. Cada um de nós será como uma semente que se aprofunda no solo e cresce para abraçar a copa de outras árvores, fazendo sombra não para escurecer o caminho, mas para confortar os viajantes que pode ali passem e saibam escutar os sussurros que chegarão aos seus ouvidos pelo vento, pelas vozes, pela convivência diária ou pela tela brilhante de aparelhos que não mais nos hipnotizarão, mas servirão de janelas para dentro de nossas almas.

Uma pessoa que alcança essa visão de si mesma deixa de ser um indivíduo no sentido de ser algo isolado do todo para entender-se como parte consciente de uma coletividade e parte desse tudo, que é muito maior do que hoje compreendemos. É então que conseguimos compreender o universo como algo que não está distante ou separado de nós,mas como um organismo vivo do qual fazemos parte, e embora nossa consciência seja individual, começamos a perceber um novo nível de consciência na qual estamos inseridos e que aos poucos aprenderemos a acessar.

Encontrando um Grupo Confiável

“Abençoadas, abençoados os que dançam juntos;
Abençoadas, abençoados os que dançam sós (…).”

Em dezembro de 2006 escrevi um artigo para o Bruxaria.Org, iniciando com essas mesmas frases retiradas de uma típica canção wiccaniana, bastante utilizada no Brasil. O artigo é “A Wicca e o Praticante Solitário” e surgiu da ânsia de compartilhar com o bruxo “avulso” as possibilidades que esse pode ter ao trilhar sozinho o caminho wiccaniano numa relação única e predominantemente pessoal com os Deuses.

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Duas Rodas se passaram então e desde que me tornei um dos responsáveis pela minha congregação, passei a receber freqüentemente e-mails e mensagens, as vezes telefonemas, pedindo orientações a respeito de como se fazer para ingressar no grupo. Sempre procuro retornar com a explicação de que um coven ou círculo wiccaniano funciona como um sistema familiar (semelhante a clãs), e que, mesmo com seus possíveis estatutos e regras internas a serem aceitas e cumpridas, a relação essencial entre membros, sacerdotes e neófitos pede pela primazia do perfeito amor e da perfeita confiança, um tipo de vínculo único que exige uma fina ligação espiritual ou pelo menos, senso e objetivos comuns a respeito da prática da religião Wicca aliados a bons sentimentos mútuos – ao contrário das ordens religiosas patrifocais e de orientação solar-patriarcal, onde esses vínculos na maioria das vezes não são exigidos por sua natureza excessivamente institucional desprovida de laços afetivos.

É claro que para se obter esse tipo ideal de relacionamento, leva um determinado tempo ou pelo menos algum tipo de experiência anterior que seja válida para tal. E creio que aqui cabe e vale a pena citar um dos mais antigos ditos populares – “a pressa é inimiga da perfeição” – ressaltando para aqueles que buscam desesperadamente um grupo que não é necessário cair ou pedir ingresso no primeiro círculo ou coven que surgir, muito menos, confiar cegamente no primeiro sacerdote que encontrar e acreditar piamente que encontrou o seu “mestre”. Aliás, é importante ressaltar que pouco ou praticamente nunca a relação “mestre – discípulo” é encontrada na Wicca. Uma suma-sacerdotisa, um sacerdote ou um líder de um grupo não é, e jamais será realmente “mestre” de seus pupilos. O sacerdote wiccaniano estimulará de maneira máxima seu dedicado ou iniciado a cumprir uma de suas principais tarefas: aprender a ser mestre de si mesmo. O vínculo é como de uma mãe e de um filho, ou de um irmão mais velho com um irmão mais novo: preparar sua criança/pupilo para o mundo, e no caso em questão, para trilhar a senda mágica escolhida.

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Compreender como funciona um núcleo de prática wiccaniana formado por pessoas ligadas por sintonia comum é importantíssimo antes de se dar o passo de pedir ingresso em um grupo, ou mesmo antes de reunir membros e dar fundamentos a uma congregação em sua comunidade. E isso deve ser observado especialmente quando este já é (ou pretende vir a ser) uma gestalt¹, isto é, um círculo, coven ou eventualmente um grove² que, através da profunda ligação e comunhão espiritual de todos os seus membros, é considerado um único corpo diante dos Deuses, seja em atos e momentos públicos, simbólicos, ritualísticos ou mágicos. Isso implica em ter a noção de que, ao se ligar a demais pessoas, sob esses vínculos o postulante estará sujeito a não mais ser responsável somente por si próprio como por todo o grupo. Mais do que isso: que do grupo, ao receber um dedicado, brotará mais um novo membro, emergindo em força e poder para realizar e desempenhar funções compatíveis com a atual conjuntura de valores e crenças dessa reunião de indivíduos.

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Sei que algumas pessoas que estão começando a trilhar a senda podem se sentir confusas a lerem esse emaranhado de termos e explicações e devem estar se perguntando: “afinal, o que tudo isso significa?”. Por isso, de uma maneira sucinta, tentarei elucidar de uma maneira clara e objetiva a situação: tenha cautela e tome muito cuidado antes de se envolver com pessoas ou grupos que a curto, ou ainda pior, a médio ou longo prazo, poderá se arrepender por diferentes razões. Dedicar-se na Wicca, é postular-se ao sacerdócio dos Deuses Antigos. Passar pela Iniciação é morrer e renascer, entregando sua vida ao sacerdócio Deles. Passar por tudo isso em conjunto, é necessariamente compactuar e vivenciar uma experiência mágica importante e irreversível com pessoas que na maioria das vezes estarão mais presentes em nossas vidas do que nossa própria família de sangue ou criação. Por isso ressalvo mais uma vez: É IMPORTANTÍSSIMO conhecer muito bem o grupo na qual pretende ingressar ou nas pessoas que pretende reunir para formar o seu próprio círculo.

Iniciei esse artigo com o objetivo de enumerar e apontar características para se reconhecer um grupo sério e com práticas saudáveis. Entretanto, durante o tecer dessas palavras, percebi que fazer isso não seria tão fácil e talvez até um tanto perigoso, pelo fato da Wicca ser uma religiosidade extremamente ampla, com diferentes aspectos de culto, mesmo centrados em alguns axiomas básicos comuns. Por isso, me atrevo a deixar alguns questionamentos, que gostaria que fossem bem utilizados para ponderar a decisão do novato sobre encontrar seu próprio grupo. São sete perguntas simples, que cada um deve fazer para si próprio, num profundo estado de consciência de si mesmo:

Por que quero ingressar nesse ou naquele grupo?

O que esse grupo tem que me faz sentir interesse em participar dele de uma forma mais ativa e até quem sabe, definitiva?

Quantos membros tem esse grupo? Quem são e qual minha relação com cada um e como acho ou acredito que sou visto por cada um deles?

Quem e como é o líder do grupo? Qual e como é a relação dele(a) com os demais membros?

A qual Tradição pertence o grupo? Ou que tipo de crença esse grupo ostenta e tem apresentado? São conceitos compatíveis com minhas crenças pessoais? Caso não sejam, estou disposto a aprender e talvez agregar conhecimentos e visões diferentes aos meus ou até mesmo eu ao grupo em questão?

Como esse grupo é visto na comunidade pagã da minha região? Ele é um grupo “secreto” ou costuma envolver-se em atividades públicas? Estou disposto a compactuar com sua visão a respeito do trabalho público ou da omissão do mesmo com relação a isso?

Tenho plena consciência do que significa estabelecer um vínculo iniciático com um(a) sacerdote(isa) e praticar a religião Wicca com outros irmãos de uma maneira harmônica, e que isso nem sempre isso será fácil (bem pelo contrário), apesar de provavelmente recompensador?

Tenha plena certeza de que sua ânsia por um grupo confiável um dia encontrará uma saída: seja não mais necessitando dessa forma de prática, sendo seguindo outro caminho ou talvez nesses termos, sendo a mais feliz de todas: encontrando ou formando um grupo na qual você possa reconhecer como sua própria Casa, sua família mágica. Apesar disso, saiba que seu vínculo primeiro com os Deuses é pessoal e que não é pela falta de outras pessoas que pensem igual a você que obrigatoriamente precisará desistir da senda. Viva o hoje, idealizando um amanhã melhor e busque sua comunhão com Eles, da maneira que melhor lhe fizer bem.

Abençoado(a) seja!

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¹ – Geralmente um grupo de praticantes de Wicca que através de sua forte ligação dão origem a um coven, acabam por estreitar ainda mais sua relação, pois em vários níveis esse é considerado mais que uma pequena célula no meio de diversos praticantes solitários ou outros grupos sem vínculos iniciáticos – é vista e percebida pelo Universo e pelos Deuses, como um único corpo, onde cada um de seus membros é responsável por uma função, onde cada um é uma importante célula consciente desse sistema. Esse grau nem sempre é atingido por um círculo, mas sempre se espera ser da natureza de um coven, e é a essa “entidade”, a esse corpo, a essa “egrégora” que alguns de nós conhecemos com o nome de gestalt, uma alma que transcende o espírito individual de cada sacerdote(isa) envolvido(a), formando entre eles um elo perpétuo e praticamente irreversível, mesmo que algum dia, não mais pratiquem junto a Arte nessa Existência.

² – É denominado geralmente grove o conjunto de círculos, covens e/ou indivíduos que permanecem ligados a um coven-mãe e ao seu(sua) sacerdote(isa)-líder, hierarquicamente ou não, mas quase sempre, compactuando de uma história e visão específica comuns. Algumas vertentes e Tradições não utilizam esse termo; outras que utilizam, possuem um, dois ou até mesmo mais groves.

O CULTO AOS ANTIGOS DEUSES

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Lua Serena

Como pagãos, dizemos que cultuamos Deuses.

Cada um de nós tem um jeito de encarar isso, seja politeísmo, panteísmo, duoteísmo, dentre outras tantas formas de “teísmos”. Mas o fato é que todos nós temos alguma deidade – ou algumas – de coração. A essa relação de coração chamamos de culto.

Mas…O que realmente significa cultuar uma deidade?

Será que cultuamos mesmo ou fazemos dos Deuses um monte de potes de desejos, aos quais recorremos quando queremos algo?

“Vou cultuar Afrodite, amo Afrodite… Iupi! Sou super ligada em coisas do amor e desejo arrumar um namorado urgente.”

Será que os cultuamos ou os encaramos como signos para encontrar desculpas para certas condutas?

“Sou filha de tal Deus, por isso sou assim.”

Será que esses são exemplos de quem realmente cultua alguma deidade?

Em primeiro lugar é muito importante que nós pensemos na palavra “culto”.

Essa palavra vem do latim e significa cuidado, trabalho; cultivo, reverência. Acho bem interessante que ela guarde relação com cultivo, que lembra o trabalho com a terra… Será que isso não deveria fazer mais sentido ainda para pessoas como nós? Pessoas pagãs… pessoas do campo? Pois é.

Obviamente os tempos mudaram e poucos de nós são do campo… Somos os neopagãos, aqueles moderninhos que buscam informações sobre os queridos e antigos Deuses na internet. Ok, mas em nossa essência ainda somos aquele antigo povo da terra, que olhava as estrelas e sentia os ciclos da vida na natureza em nossas próprias vidas. Ser pagão, um neopagão, é resgatar isso e trazer para o cotidiano, muitas vezes cosmopolita, o cuidado, o cultivo, o trabalho com os Deuses Antigos… honrando e cultuando o antigo no moderno.

Esse é nosso papel.

E como atores de tal papel, temos o culto, o cultivo, o trabalho com os Deuses pagãos, os Antigos. Isso significa muito mais do que acender uma vela rosa para Afrodite ou vermelha para Osíris. Muito mais.

Primeiro, significa que devemos estudar determinada deidade. Esse é o primeiro passo. Busque informações em fontes confiáveis. Na dúvida, opte sempre pelos livros. E, dentre esses, busque informações sobre quem os escreveu. Verifique o que se comenta sobre determinado autor. Mas busque nadar contra a corrente, ouça os argumentos também de quem não gostou da obra daquele autor. Aprendemos mais ouvindo os muitos lados das histórias. Seja crítico.

Segundo, dê preferência a obras que vão além do óbvio e superficial. As obras superficiais são sempre iguais a outras tantas e pouco – ou nada – se aprofundam na cultura do povo ao qual determinada deidade está relacionada. E estudar a cultura, o pensamento, a forma de vida de um povo que cultuava aquela deidade é extremamente importante. É, na verdade, imprescindível para compreender uma deidade, pois todas as informações que temos dos Deuses vêm por intermédio de seres humanos. E seres humanos possuem limitações e contornos que são baseados em um contexto histórico, em uma forma de pensar própria que

vai diferir um muito da forma como hoje encaramos um culto a qualquer coisa, no Brasil, do ano de 2013, por exemplo.

Uma boa dica é ir atrás de obras “chatas”. Entre aspas por que a maioria das pessoas vai achar chato o que é bom, o que vai te fazer raciocinar, o que precisa pensar, o que nos leva a colocar a cabeça para fazer relações e correlações. A maioria das pessoas prefere as receitas prontas e as tabelas de classificação dos Deuses, uma coisa mais ou menos assim:

AFRODITE: deusa do amor e da beleza. Gosta de rosas, a pomba é seu símbolo e seu dia é a sexta-feira.

Então, pega-se uma rosa e uma foto de uma pomba e acende-se uma vela para essa Deusa na sexta-feira, pedindo um novo amor.

Isso culto?

Afrodite ouvirá?

Bem, aí entramos em outras tantas questões… Mas o fato é:

Essa pessoa se ama a tal ponto de atrair um amor para sua vida? Essa pessoa busca um amor ou busca uma fuga para a imensa falta de amor e para o enorme sentido de desvalor de si mesma?

Ainda bem que os Deuses não são saquinhos de desejos, se não estaríamos perdidos!

E outra coisa: culto aos Deuses não é isso.

Cultuar uma Deidade envolve estudos, como já falei, mas envolve também o trabalho em si. Ou seja, depois de estudar uma deidade, é hora de se conectar com ela.

Estudar antes é importante por que do contrário, corremos o risco de “viajar na maionese” na hora de nos conectarmos com uma deidade. Se bem que os perigos da viagem na maionese sempre existirão… Mas o estudo, o tempo de prática, a auto-observação, a conversa com outros praticantes, a autocrítica e outros artifícios ajudam a minimizar essas “jornadas hellmísticas”.

Estude e vá se conectar. Medite com os Deuses, mas não faça disso uma coisa chata, maçante e massacrante. Existem muitas formas diferentes de meditar, uma delas é dançando. Se você ao invés de praticar o meditar, vc pratica o “me deitar”, experimente movimentar seu corpo enquanto visualiza uma jornada ao templo de determinado deus ou deusa. Feche os olhos e

dance, balance seu corpo… isso pode ser muito útil aos que não conseguem ficar parados, relaxados, mas com a mente atilada para uma jornada.

Nessas meditações, jornadas, encontros, não importa o nome, é que estabelecemos uma aproximação real com a deidade que queremos cultuar. Esses momentos são muito bonitos e repletos de experiências inesquecíveis que, aos olhos de quem nunca vivenciou, são bobagens, coisas diminutas que alguns superestimam… mas para quem vivenciou, ao menos uma vez, essas experiências, sabe do que estou falando.

Pois bem. Depois de estabelecida a conexão entre nós e a deidade – e isso não se faz apenas em um cinco minutos em que você imagina o Deus lá na sua frente – é hora de trabalhar aqui no físico, aqui no tridimensional. É hora de ritualizar.

Aí vêm as oferendas, as festas, a dança, o riso, as invocações, as celebrações, a comunhão. E talvez, TALVEZ, venham os pedidos. Digo talvez por que, ao contrário do que se vê por aí, cultuar não é barganhar com o invisível… Tipo, “Te faço uma oferenda e você me dá riqueza”.

Conforme vamos praticando a Arte, percebemos que o buraco é muito mais embaixo, e que somos responsáveis, somos moldadores de nossa realidade não só por meio de feitiços ou de oferendas aos Deuses, mas em nossas ações. E quando essa noção toma conta de nossas vidas, o que mais fazemos é agradecer, é festejar junto aos Antigos pela nossa capacidade de vivenciar os ciclos da vida como moldadores da nossa própria realidade. Eis o mais incrível desejo que os Antigos podem realizar, eis o maior poder que podemos receber dos Deuses que cultuamos, que cuidamos… pois com eles trabalhamos. Juntos. Sempre.

A consciência do Sagrado Feminino

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Resgatando o passado, construindo o futuro

Mirella Faur

Durante os milênios da supremacia patriarcal, refletida nos valores espirituais, culturais, sociais, comportamentais e amparada pela hierarquia divina masculina, foi negada e reprimida qualquer manifestação da energia feminina, divina e humana. Resultou assim em uma cultura exclusiva e destrutiva, centrada na violência, conquista e dominação, com o conseqüente desequilíbrio global atual. Os homens – como gênero – não foram os únicos responsáveis pelas agressões e atitudes extremistas a eles atribuídas; a causa pode ser atribuída à maneira pela qual a identidade masculina foi criada e reforçada pelos modelos e comportamentos de “heróis” e “super-homens”. Fundamentados em seus direitos “divinos”, outorgados inicialmente por deuses guerreiros e depois reiterados pela interpretação tendenciosa dos preceitos bíblicos, os homens foram inspirados, instigados e recompensados para desconsiderar e deturpar as milenares tradições matrifocais e os cultos geocêntricos. Em lugar de valores de paz, prosperidade e parceria igualitária, foram instaurados princípios e sistemas de conquista, exploração e dominação da Terra, das mulheres, crianças e de outros homens.

Pela sistemática inferiorização e perseguição da mulher, o patriarcado procurava apagar e denegrir os cultos da Grande Mãe, interditando os seus rituais, “demonizando” e distorcendo seus símbolos e valores. A relação igualitária homem-mulher foi renegada, a mulher declarada um ser inferior, desprovido de alma, amaldiçoado por Deus, responsável pelos males do mundo e por isso destinada a sofrer e a ser dominada pelo homem. Os princípios masculino e feminino – antes pólos complementares da mesma unidade – foram separados e colocados em ângulos opostos e antagônicos. Enalteceu-se o Pai, negou-se a Mãe e usou-se o nome de Deus para justificar e promover o código patriarcal, a subjugação e exploração da Terra e das mulheres. A tradição, os cultos e a simbologia da Deusa foram relegados ao ostracismo e paulatinamente caíram no esquecimento. Patriarcado e cristianismo se uniram na construção de uma sociedade hierárquica e desigual, baseada em princípios, valores, normas, dogmas religiosos, estruturas sociais e culturais masculinas.

As últimas décadas do século passado proporcionaram uma gradativa mudança de paradigmas nas relações e nos conceitos relativos ao masculino e feminino. No entanto, para que este avanço teórico se concretize em ações e modificações comportamentais e espirituais, é imprescindível reconhecer a união harmoniosa e complementar das polaridades e procurar novos símbolos e rituais para o seu fortalecimento e equilíbrio. Com o surgimento progressivo de uma dimensão feminina da Divindade na atual consciência coletiva, está sendo fortalecido o retorno à Deusa e a revalorização do Sagrado Feminino.

Somos nós que estamos voltando à Deusa, pois Ela sempre esteve ao nosso lado, apenas oculta na bruma do esquecimento e velada pela nossa falta de compreensão e conexão com seu eterno amor e poder.

A principal diferença entre o Pai patriarcal, celeste e a Mãe cósmica e telúrica universal é a condição transcendente e longínqua do Criador e a essência imanente e eternamente presente da Criadora, em todas as manifestações da Natureza.

A redenção do Sagrado Feminino diz respeito tanto à mulher quanto ao homem. Ao esperar respostas e soluções vindas do Céu, esquecemos de olhar para baixo e ao redor, ignorando as necessidades da nossa Mãe Terra e de todos os nossos irmãos de criação. Para que os valores femininos possam ser compreendidos e vividos, são necessárias profundas mudanças em todas as áreas: social, política, cultural, econômica, familiar e espiritual. Uma nova consciência do Sagrado Feminino surgirá tão somente quando for resgatada a conexão espiritual com a Mãe Terra, percebida e honrada a Teia Cósmica à qual todos nós pertencemos e assumida a responsabilidade de zelar pelo seu equilíbrio e preservação.

O reconhecimento do Sagrado Feminino deve ser uma busca de todos, porém cabe às mulheres uma responsabilidade maior, devido à sua ancestral e profunda conexão com os arquétipos, atributos, faces, ciclos e energias da Grande Mãe.

Uma grande contribuição na transformação da mentalidade do passado e na expansão atual da consciência coletiva são os encontros de homens e mulheres em círculos e vivências comunitárias, para despertar e alinhar mentes, corações e espíritos em ações que visem a cura e a transmutação das feridas da psique, infligidas pelo patriarcado. Apaziguar a si mesmo, harmonizar seus relacionamentos, vencer o separatismo, reconhecer e honrar a interdependência de todos os seres, evitar qualquer forma de violência, dominação, competição ou discriminação são desafios do ser humano contemporâneo, no nível pessoal, coletivo e global. Incentivando a parceria entre os gêneros e a interação dos planos energéticos (celeste, telúrico, ctônico) criam-se condições que favorecem a expansão da consciência individual e contribuem para a evolução planetária.