Cadê o estilo que estava aqui? Entenda como o repertório de vida é a melhor forma para looks autênticos
Na Glamour de setembro, a colunista Carla Lemos resgata como hábitos culturais e sociais nos ajudam a fugir de tendências massificadas
Dia desses, fui almoçar com uma amiga em Botafogo, bairro que virou re- ferência do que é cool no Rio de Janeiro. O restaurante tinha no máximo dez pessoas, mas três delas usavam a mesma camisa azul de listras finas brancas. Minha amiga, que não é ligada ao universo fashion, perguntou: "Essa camisa tá na moda, é?". Eu respondi que sim, estava bombando no Pinterest e TikTok. Nesse momento, a frase da trend forecaster Alexandra Hildreth caiu co- mo uma luva: "Você pode dizer o tempo de tela de alguém pela roupa que veste". Se todo mundo está vestido igual ao que aparece no feed, será que ainda existe gosto pessoal?
No início dos anos 2000, quando eu e tantas outras garotas criamos nos- sos blogs de moda, a motivação era exatamente oposta: queríamos expres- sar nosso estilo próprio, já que não nos víamos representadas nas mídias tradicionais. As revistas de moda eram quase todas voltadas ao mercado de luxo. As consultoras mais populares, que tinham quadros na TV aberta, ensinavam como se vestir "bem" com calça de alfaiataria, camisa branca e escarpim preto. Aquele look "adulto, sério, rico" simplesmente não dialo- gava com o nosso dia a dia.
O blog virou espaço para criar uma estética própria: errando, testan- do, misturando. O estilo vinha do desejo de expressão e da curiosidade em entender como nasciam as tendências e quais histórias nos inspiravam.
O sociólogo Pierre Bourdieu pondera: estilo nunca é apenas individual, mas um código social que expressa os valores que um grupo compartilha. O problema é que, hoje, muita gente nem se pergunta por que está usando determinada peça. Um estudo da London College of Fashion (2023) mostrou que 68% da geração Z admite adotar tendências do TikTok e do Pinterest sem pesquisar a origem. Quando falta contexto, sobra tropeço. Há alguns anos, viralizou um conjunto listrado de fast-fashion que lembrava os uniformes de campos de concentração nazistas. Sem memória, a moda reproduz o que não quer — opressões, dores e momentos que não deveriam ser repetidos
Se antes as revistas ditavam o que era tendência, como na icônica ce- na de Miranda Priestley em O Diabo Veste Prada, agora quem manda é o algoritmo. Ele define o que aparece no feed, o que chega ao e-commerce, o que vai ser produzido em massa. O resultado? Um mar de roupas seguras, previsíveis e usadas no modo copiar e colar.
Segundo a plataforma de consultoria de imagem Style Yourself Confi- dent, 90% das mulheres desejam se sentir mais confiantes com suas roupas, enquanto, no TikTok, a hashtag #PersonalStyle soma 35 bilhões de visualiza- ções. Esses números provam a importância que o vestir ganhou hoje, mas re- velam uma inversão de valores. Na vida real, você bate o olho e reconhece a nova fashion victim: não é mais a "espalhafatosa" dos anos 2000, é quem tem medo de errar e resolve se vestir igual a todo mundo. Online, parece im- pecável; offline, deslocada do próprio ambiente. A mesma desconexão que criticávamos 20 anos atrás, só que em tons neutros.
Por que tanta gente recorre a conteúdos que prometem fórmulas de es- tilo? Segurança. Querer se vestir "certo" é, no fundo, uma tentativa de ser aceita. Só que roupa certa é a que cabe na sua vida e não a que promete te fazer parecer rica em 30 segundos.
Então, ainda existe espaço para a originalidade? Sim. Estilo pessoal é exercício de repertório: música, artes, natureza, editoriais feitos por equi- pes criativas, cinema, ruas e, sim, até o TikTok, quando usado como refe- rência, não como régua. Quanto mais diversas forem as referências, maior a vontade de experimentar, de ousar, de se permitir errar e chamar a aten- ção. É sobre se descobrir e seguir suas próprias regras, não as que alguém determinou sem conhecer você, sua rotina, realidade, gostos e sonhos. Apegue-se a elas e expresse-se mais longe.









