Sobre o que aprendemos com as crianças

A paternidade exige afeto, tempo e paciência. Dá trabalho e vira a vida ao avesso.

A paternidade atípica, então, pode levar sua capacidade física e emocional ao limite.

Mas quer saber? Nada se compara a honra de ver uma vida nova, sem mágoas e marcas, confiando em você para aprender a lidar com o mundo.

Um dos melhores – senão o melhor – legados que podemos deixar nessa vida tão curta são filhos amados.

E olha que a gente recebe tanto quanto dá, pois eles nos ensinam muito.

Não guardam mágoa, são espontâneos, leves, valorizam coisas simples e pequenas, sorriem sem cerimônias, se entregam sem medo.

Na vida adulta utilitarista, em que títulos e números definem quem você é, ter a companhia de uma criança te leva a uma inversão de prioridades, a uma viagem pra dentro de si, dos seus valores e das suas intenções.

Te leva a olhar pra quem ainda não aprendeu as artimanhas desse mundo e reaprender a viver sem vaidades e pudores bobos.

Te leva a abrir espaço para o sorriso espontâneo, a imaginação e a sensibilidade. Te leva a perceber que é possível viver sem medo do não, sem medo de cair, sem medo de ser.

Em uma semana onde a tal história do assento no avião reforçou minha visão sobre crianças serem a minoria que pode ser tratada abertamente como estorvo e empecilho para os interesses adultos, te convido a deixar a companhia de um pequenino mudar o seu entendimento sobre o que realmente importa.

Caminho para o Lar

Não é possível saciar a nossa fome por um lar. O desejo por esse lugar de pertencimento, acolhimento e descanso é inevitável.

Como nunca nos sentimos em casa, transformamos a busca em um fim, como justificativa para nos consolarmos. “O sentido está na jornada”, “o caminho é o destino” são mantras que repetimos para amenizar o fato de que não nos encaixamos perfeitamente onde estamos.

“Estrangeiros” e “peregrinos” são termos que o texto bíblico usa para definir nossa condição. Não poderiam ser mais precisos.

A fé surge como um mapa desenhado na alma, uma bússola que aponta para nossa verdadeira pátria.

No caminho existem inúmeros desvios e atalhos para lares alternativos, que até podem ser hospedarias confortáveis, mas nunca uma morada definitiva.

Sigamos pela Estrada estreita e sinuosa que leva até nossas casas. O caminho é duro, cheio de desafios, mas é o único que chega ao destino que tanto aguardamos.

Sua identidade não está no que você faz

Talvez a grande tentação de qualquer vivência religiosa seja nos acharmos justos pela quantidade de atividades que desempenhamos em função da nossa fé.

E como essa mentalidade está enraizada em muitos de nós, o oposto também é real: muitos se sentem inferiorizados por não terem maior envolvimento em suas comunidades.

Já estive nos dois lados. Já me considerei muito piedoso pelo que fazia, seja dentro da igreja ou socialmente. Aquele orgulho pessoal que não compartilhamos, mas alimentamos a cada semana por investirmos parte das nossas vidas em uma causa maior.

Também carreguei um fardo pesado, colocado por mim mesmo, quando não consegui mais ser ativo como no passado. Com isso ainda preciso lidar constantemente.

Embora em algumas religiões suas atividades definam sua identidade, no Evangelho isso pode ser o extremo oposto do que Cristo nos chama a viver.

E isso aqui não é um tratado em apoio a falta de compromisso com sua igreja ou grupo religioso. Longe disso. Mas precisamos falar mais sobre uma cultura que valida nossa fé por aquilo que fazemos.

Aparência e essência

É comum mergulharmos numa religião essencialmente baseada por essa lógica, que lida mais com aparência do que com essência.

Na parábola do fariseu e do publicano temos um exemplo de alguém que orava cheio de orgulho por sua bondade e ações. Já nas bem-aventuranças, Jesus chama de feliz o “pobre de espírito”, ou seja, o incapaz de ser espiritualmente rico por conta própria.

Olha só como o evangelho é lindo: felizes os que não conseguem chegar “lá” nesse lugar de justiça e piedade pelas próprias forças. Feliz é quem reconhece a necessidade de ajuda, de uma ajuda do alto.

É o oposto da religião do fariseu, que alcança essa bondade por sua capacidade e ativismo. Falamos em essência, pois em Cristo já não importa o apenas que eu faço, mas o porquê do que eu faço.

É uma maneira de viver que começa nas intenções, anterior a qualquer ação. Um padrão muito mais elevado, impossível de ser alcançado por nossas próprias forças.

Daqui poderíamos refletir sobre o que de fato são essas atividades religiosas. Será que alguém que se sacrifica por outra pessoa no dia a dia, no oculto, tem menos valor do que quem exerce uma função de visibilidade em seu ambiente comunitário? Mas isso levaria esse já longo texto para um caminho que não me parece tão importante no momento.

Fato é que a caminhada no evangelho vai influenciar em comprometimento e serviço, sem dúvidas. Mas isso é a última instância, a consequência natural para quem foi transformado por essa mensagem.

Inverter a ordem do processo resulta em mera adesão religiosa e altera totalmente a maneira como nos relacionamos com Deus, como enxergamos a nós mesmos e como julgamos os outros.

É libertador tirar essa responsabilidade dos nossos ombros. É animador entender que minha vida deve ser uma resposta a essa ação de Jesus em mim, e não mais um infinito esforço para ser aprovado por Deus a partir da minha própria justiça.

Bem-aventurados seremos quando entendermos e vivermos a partir dessa realidade!

Natureza e gratidão

Recentemente fui acampar com Rúben, o meu filho mais velho. Antes de dormir, ele pediu para agradecermos a Papai do Céu por esse dia.

Os mais próximos – e quem conhece o TEA – sabem o quanto isso significa diante das dificuldades dele com aquilo que não é concreto. Gratidão (e gratidão a Deus) é algo que não fazia o mínimo sentido alguns meses atrás.

Uma viagem de 45 minutos, contato com a natureza e um acampamento destravaram nele um sentimento de alegria extrema e posterior gratidão ao Senhor pela grama, pelos bichos, pelo ar puro e pelo céu estrelado.

Engraçado que as memórias mais nítidas de quando eu tinha a idade de Rúben são de viagens à praia, de ficar procurando desenhos nas nuvens por horas e de quando faltava energia no bairro e todo mundo saia pra conversar na calçada. Tudo orgânico!

Não tenho como não pensar em como somos marcados por esses momentos de contato com a natureza, de solitude e de partilha com pessoas queridas sem distrações artificiais. Há algo de sobrenatural nisso.

Mas em algum ponto recente da história decidimos que Deus está apenas na música alta, nas aglomerações, nos jogos de luzes e nas grandes estruturas eclesiásticas.

Ainda assim, Ele é tão bom que se permite alcançar também nesses meios artificiais.

Quanto a Rúben, sigo aprendendo sobre Deus por meio da pureza, do coração e da sinceridade dele.

Vida real x vida espiritual

O excesso de preocupações com a “vida real” faz com que nossas rotinas sejam direcionadas às necessidades imediatas de sobrevivência.

Basicamente, a maior porção dos nossos dias é investida no trabalho e outras atividades que de alguma forma vão melhorar nossa condição financeira.

Em um país subdesenvolvido como o nosso, onde as oportunidades para uma vida digna são escassas e exigem dedicação quase integral de tempo, intelecto e disposição física, é comum estarmos ocupados demais para nos importarmos verdadeiramente com questões espirituais.

Ainda assim, o ser humano intrinsecamente busca por transcendência, por algo maior do que a si próprio. É natural que a criatura busque conexão com o Criador.

E para atender a esse anseio de forma rápida, como é tão comum na nossa geração, buscamos atalhos, conforto e praticidade. Só assim é possível encaixar algo a mais na nossa rotina.

No final das contas, a espiritualidade se torna mais um elemento utilitarista nessa corrida pela sobrevivência.

Aliás, sobreviver no século 21 vai além de alimentação, moradia e um mínimo de conforto. Ganha outros significados que envolvem status, relevância, networking e aparência, com ainda mais camadas se pensarmos mundo digital. Mas isso é um outro assunto…

Seres espirituais

Mas deixa esse jovem senhor de 33 anos compartilhar uma notícia importante: você é um ser espiritual vivendo uma vida material breve e passageira. Todas as nossas conquistas visíveis não passam de pó, que se espalha e some com um sopro.

Essa fé que você cultiva como um apoio, um mero combustível para sua correria diária não passa de uma muleta para a alma. E muletas têm sua importância, mas são paliativas. Não resolvem o problema que nos faz cambalear.

Uma espiritualidade real nos faz entender que essa dimensão física é só uma ínfima parte do todo. Por isso a mensagem do verdadeiro evangelho me encanta.

Falo em verdadeiro porque existem várias versões de Jesus por aí. Do gênio da lâmpada ao hippie good vibes, passando pelo vingador malvado que ama alguns poucos e odeia quase todo mundo.

A mensagem de Jesus não me desconecta da necessidade de sobreviver e dos meus desafios diários. Ao mesmo tempo, ela não é uma muleta que aciono como um apoio para as dificuldades.

Jesus me apresenta a uma poderosa verdade espiritual, refletida na vida terrena Dele: somos seres eternos de passagem por essa realidade material. E essa é a razão pela qual nos sentirmos tão inadequados aqui.

Nosso corpo envelhece e perde forças, as pessoas que amamos se vão, vemos a injustiça como um padrão na sociedade. Só mesmo um redentor bom, justo e santo é capaz de remover esse peso da inadequação que carregamos.

Ele nos aponta para uma forma de vida que inverte a ordem dos fatores: agora que sei que sou um ser eterno, como vou caminhar nessa “vida real”?

Confesso que ainda falta muito para tudo isso se tornar uma prática totalmente arraigada na minha própria caminhada. Estou sempre oscilando entre propósito e necessidade, carne e espírito, sobrevivência e transcendência. Uma guerra interna entre o que sou e o que posso ser.

Mas essa é uma verdade poderosa demais para não ser compartilhada, mesmo por um ser falho como eu. Uma Boa Nova que faz valer a pena começar, recomeçar, insistir e seguir lutando. Uma Mensagem de Amor que transforma a maneira como enxergamos tudo.

O “que diremos, pois, diante dessas coisas”? Prefiro me calar e entrar em posição de resposta a esse Deus que muda o nosso entendimento sobre o que, de fato, é a vida.

Deixo Jesus terminar esse breve pensamento: 

“Eu vim para que tenham vida, e vida em abundância”.

Evangelho de João, 10:10

A benção de ter filhos

Eu entendo totalmente quem não quer ter filhos e não posso negar que quem toma essa decisão tem mais tempo para estudar, investir na carreira e curtir a vida.

São motivos compreensíveis. Eu mesmo gostaria de ler mais, sair sozinho com Sheslla ou poder dormir até tarde. Sim, crianças tornam projetos pessoais muitos mais desafiadores.

Ainda assim, não faria nada diferente por aqui. Desde que me tornei pai, reflito sobre o que é esse estilo de vida que não tem mais lugar para crianças. E honestamente, nunca me encaixei nele.

Daqui eu poderia seguir para vários pontos, pois enxergo algumas explicações para essa tendência. Mas analisar decisões individuais de forma generalista costuma nos tornar insensíveis com o outro. Por isso, prefiro respeitar a todos e focar na minha experiência.

“Os filhos são herança do Senhor, uma recompensa que ele dá”.

Salmos 127:3

Rúben e Nathan me tiraram do conforto de uma vida voltada para mim mesmo.

E eu, que sempre achei que muitas verdades do evangelho só fariam sentido se fosse um missionário, descobri como doar minha vida em função de outras vidas quando educo, brinco, alimento ou limpo cocô.

Eu, que sempre tive dificuldades com a paternidade de Deus, comecei a ter um vislumbre disso, porque existe um tipo de manifestação do amor que só experimentamos quando geramos um outro ser.

Eu, que carregava uma angústia que imaginei só ser preenchida em um outro mundo, como diria C.S. Lewis, encontrei na família o reflexo de uma alegria que aponta para esse outro mundo e seu Criador.

E eu, que achava que dar a vida por alguém era se jogar na frente de um carro numa situação extrema, descobri que damos a vida pelos outros na soma de renúncias e entregas do cotidiano, algo muito mais desafiador do que qualquer ato de heroísmo.

E é assim, abrindo mão da nossa própria vida, que encontramos a Vida e novos significados para palavras como alegria, sucesso e prazer, usadas como justificativa para não se ter filhos.

Não existe amor maior do que dar sua vida por alguém. E nada melhor poderia ter acontecido comigo do que viver em família e ter recebido essa herança do Senhor, tão mais valiosa do que qualquer conquista pessoal.

A benção de ser pai de uma criança com autismo

Em 2021 recebemos o diagnóstico que nosso filho estava dentro do espectro autista. A descoberta veio um pouco antes dele completar três anos, no período mais turbulento das nossas vidas.

O resumo do período era o seguinte: não sabíamos em que estado moraríamos, nossa mudança estava guardada em um galpão, vivendo entre a casa dos meus pais e sogros, com diversas incertezas sobre o futuro em um mundo pandêmico e, principalmente, lidando com as dificuldades de educar uma criança que já dava sinais de não ser neurotípica.

Estávamos exaustos e nem tivemos tempo para lamentações. Nossa reação imediata foi buscar ajuda e aprender o máximo possível sobre o tema, embora todos os dias a gente enfrente desafios que escancaram nossa necessidade de mais conhecimento e inteligência emocional.

Nesses meses após o diagnóstico, compartilhamos com algumas pessoas próximas sobre a condição do nosso filho. E as reações são as mais diversas: uns sentem pena, outros agem com naturalidade, alguns nem tanto… Já cheguei a ouvir que “hoje em dia todo mundo é autista”.

E também teve quem sugerisse levarmos ele para visitar uma irmã de oração. Não que eu ignore os benefícios da intercessão ou que Rúben precise de menos oração do que qualquer outra pessoa, mas o convite vinha com uma sugestão subliminar: o transtorno pode ser alguma maldição ou problema espiritual.

Com quase 15 anos de cristão, esse tipo de ignorância já não me deixa com raiva. Pelo contrário: olho para essas pessoas com a amor e disposição para entender seus pontos de vista, buscando também compartilhar a maneira como enxergo a caminhada com Jesus. Afinal de contas, sei que estão oferecendo ajuda com aquilo que tem de mais precioso: sua fé.

Assim que possível, pretendo mesmo levá-lo para visitar a irmã. Não porque ele necessite de libertação, mas seria ótimo poder compartilhar do pouco que tenho aprendido sobre TEA. Podemos orar, conversar e crescer um pouco uns com os outros.

Nessa semana, uma outra pessoa próxima me chamou para conversar sobre Rúben e trouxe uma outra visão: a de que a condição dele seria uma lição divina, pois algum de nós (ou os dois) precisaria aprender na marra o que Deus queria nos ensinar. E pelo jeito seria pela dor, afinal de contas “quem não queria ter um filho normal?”

Mais uma vez, essa foi uma situação na qual eu poderia ter me revoltado. Com a maneira como a pessoa se referiu ao meu filho, pela forma como ela enxerga Deus ou pela insinuação de que o autismo de Rúben é consequência de alguma falha nossa.

Mas pacientemente tentei conversar sobre o fato de autismo não fazer dele uma pessoa anormal. Aliás, o que é ser normal? Na maior parte da vida eu me considero estrangeiro, incompatível com ideias e ambientes que frequento.

De qualquer forma, essa segunda conversa me trouxe clareza para um quebra-cabeça mental que ainda tem muitas peças em falta: todos os ensinamentos que ser pai de Rúben tem me trazido.

Não que os dias sejam fáceis e nossa vida seja um conto de fadas. Há muito choro, estresse e cansaço envolvido. Muito mesmo. Tenho alguns aprendizados já visíveis, enquanto em outras áreas tenho falhado constantemente.

Mas o compromisso com ele tem mudado diversas perspectivas que tenho sobre a vida: a forma como entendo Deus, a relação com o tempo e o trabalho, o cuidado com a minha própria saúde e a maneira como enxergo outras crianças são algumas delas.

E além do que eu aprendo no nosso relacionamento, tem o que ele me ensina pelo exemplo: espontaneidade, sensibilidade, criatividade, carinho, lealdade e muito mais.

O que alguém pode enxergar como castigo eu enxergo como um presente que me faz mais humilde, mais humano, mais paciente e um pouquinho mais parecido com Jesus.

E não, meu amigo. Se tivesse escolha, não trocaria Rúben por nenhuma outra criança “normal”. Afinal de contas, quem não gostaria de ser pai de um menino como ele?

Cheguei aos 31

Há pouco mais de um mês, minha esposa tirou uma foto no dia do meu aniversário de 31 anos. Fiquei espantado com o clique, pois achei minha aparência extremamente envelhecida. 

Sei que quase não tiro fotos sozinho, com meu rosco em foto, além de não costumar investir muito tempo em frente ao espelho. Mas caramba, quanto tempo passou e eu não vi?

2021 foi de longe o ano mais difícil da minha vida. E justamente naquela segunda quinzena de novembro eu começara um processo de reflexão sobre a maneira como vinha vivendo. 

Eu estava iniciando uma faxina interior, mas sem considerar uma das peças mais importantes desse quebra-cabeça mental: o tempo. Mas aquela foto boba me vez perceber minha ingenuidade.

A verdade é não percebi a chegada de um novo ano. 2020 e 2021 foram como um ano só. E nem foi exclusivamente por causa da pandemia. 2019 também poderia ser incluído nessa conta. E como se tivéssemos vivido um ano gigante, com mais de 1000 dias. A vida simplesmente foi indo… Como se tivesse pulado dos 28 para os 31.

Onde estive todo esse tempo? Correndo. Correndo com todas as obrigações disso que chamam de vida adulta. Só trabalho e transporte me tomavam 14 horas por dia. Nas 10 horas restantes eu precisava dormir, ser pai, marido, me alimentar, nutrir minimamente a minha fé… 

É claro que essa conta não fechava. Mas isso é assunto pra outro momento.

A soma de tudo que ocorreu entre 2019 e 2021 desencadeou em vários problemas de saúde que fui colocando para baixo do tapete. Somente agora, nos últimos dois meses, tenho começado a lidar com esse acúmulo físico e emocional. 

Somente agora consigo olhar para trás e tirar um importante aprendizado existencial desse triênio: em 2018 me achava muito maduro. Como a ingenuidade pode ser pretensiosa!

Eu trabalhava ao lado de casa, tinha uma vida devocional razoavelmente regrada, pregava, dava conselhos, fazia caridade, tinha longas e aparentemente profundas conversas com amigos, era muito bem casado (condição que se manteve firme durante todo esse período) e acabara de ser pai. O combo completo de um crente maduro.

Mas 2019 veio como um furacão. Precisamos mudar de casa, de igreja e eu de emprego. E aí vida virou ao avesso. O que parecia sólido começou a derreter. A fé que eu considerava musculosa precisou atravessar tempestades e desertos em forma de perdas, diagnósticos médicos e exaustão.

Ressurgiram fraquezas, medos e inseguranças da adolescência, que aparentemente haviam sido superados na vida adulta. 

A fé se tornou raquítica. “Somente uma fé que se abalou, inabalável é”, disseram Os Arrais, trilha dos meus melhores e piores momentos. Se essa poesia estiver mesmo certa, espero ansioso pelo seu cumprimento.

Lembro que Jesus fala sobre o poder de uma fé do tamanho de um grão de mostarda. Ele ainda chama de bem-aventurados os pobres de espírito e os que choram.

Que boas notícias! Também há lugar na mesa pra essas pessoas. Ainda há lugar na mesa pra mim. Não é por performance, constância ou mérito. É por Ele.

Com uma fagulha insistente de esperança, me apego nas promessas do Seu Reino: refrigério, descanso, paz, justiça, alegria… Vai se cumprir logo? Não sei. Mas sei que um dia, na outra margem do rio da vida, isso será realidade.

É mais mais do que convicção: é fé. Pequena, do tamanho do menor dos grãos. Mas certa de Quem permanece aqui, apesar de mim.

São Paulo, janeiro de 2020

Onde o sol nasce primeiro é o meu lugar 
Ah, que saudades de lá 
Terra de areia e de coqueiros 
De amor e do mar

Há muito tempo estou distante 
Num lugar onde tudo é gigante

Aqui arranha-céus sufocam a alma 
De quem prefere viver com calma

Um rascunho bobinho, feito às 19h58 de 14 de janeiro de 2020, no Metrô de São Paulo. Nunca finalizado ou melhorado por ter chegado a hora de descer na Estação Brás e integrar com a CPTM, onde pegaria o trem para São Caetano.

Com sorte, em 50 minutos ou 1 hora estaria em casa, a depender do tempo de espera, o terceiro e último transporte nessa odisseia diária. O trajeto todo costumava durar cerca de 2 horas.

Dois meses depois viria a pandemia, que levou um velho mundo embora.
Um ano depois estou morando na minha Paraíba de novo.

A vida gira rápido. 
O que ontem era um anseio, hoje é realidade.

Deus é bom!

Bíblia, beleza e moral

Deixamos de encontrar a beleza contida no texto bíblico porque o reduzimos a um conjunto de regras que habilitam ou desabilitam alguém a merecer o favor de Deus.

Enquanto limitarmos nossa leitura ao nível da moralidade, seguiremos abrindo mão dos presentes que estão ali: princípios, verdade, graça e um projeto de vida que nos coloca em harmonia com o próprio Criador, com a terra e com o próximo.

A vida que Deus nos propõe vai resultar em aspectos morais, sem dúvidas. Mas isso é uma consequência natural para quem foi transformado pelo evangelho. A inversão do processo costuma resultar em mera adesão religiosa.

O melhor de tudo é que a graça segue disponível a todos, inclusive para quem foi apresentado apenas à lei.