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31 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 40

PATTI SMITH – HORSES (1975)


Jesus died for somebody’s sins, but not mine.
(Patti Smith, 1975)

Na primeira metade da década de 1970, Patricia Lee Smith era uma jovem de 20 e poucos anos que morava em Nova York e já tinha feito um pouco de tudo: posou nua para fotógrafos, atuou em uma peça de teatro, iniciou amizades e teve relacionamentos amorosos com o ator, roteirista e dramaturgo Sam Shepard e com Allen Lanier (tecladista do Blue Öyster Cult). Além disso, viveu e amou intensamente seu melhor amigo, o aspirante a artista plástico e (posteriormente) fotógrafo renomado Robert Mapplethorpe em lugares dos mais remotos da Big Apple – dentre estes, o lendário Chelsea Hotel, que já abrigou ilustres como Bob Dylan, Tom Waits, Janis Joplin, Leonard Cohen, Iggy Pop e Arthur C. Clarke. Enquanto não estava envolvida nas criações artísticas ao lado de Mapplethorpe, Patti escrevia poemas e críticas de música para as revistas Creem e Rolling Stone e ainda tinha acesso ao círculo restrito de “contatos” de Andy Warhol.

Patti ao lado de Robert Mapplethorpe

Patti Smith acreditava que seria revelada para o universo através da poesia ou via artes plásticas. No entanto, quando recebeu um convite para recitar seus poemas em público ao lado do guitarrista Lenny Kaye, viu que poderia escrever ser uma estrela do Rock sem deixar de fazer poesia. O duo Smith-Kaye logo se tornou um trio com a chegada do pianista e tecladista Richard Sohl, o que automaticamente trouxe uma delicadeza para a aspereza do som e fúria que Patti e Lenny geravam em cena. Pouco depois, vieram o baterista Jay Dee Daugherty e o baixista Ivan Kral para completar o grupo. Em pouco tempo, estes jovens eram tão requisitados pelas pessoas que iriam ao CBGB quanto os Ramones, os Talking Heads e o Blondie.

Patti ao lado de Sam Shepard

O sucesso de Patti Smith na cena novaiorquina fez com que o executivo Clive Davis prestasse mais atenção naquele som e contratasse aquela jovem de 28 anos petulante e repleta de cara de pau para gravar um disco em meados de 1975. Para a produção do disco, foi recrutado o cantor, compositor e ex-membro do Velvet Underground John Cale. Apesar de ter recebido críticas excelentes, a produção de Horses foi turbulenta, com desentendimentos constantes entre Patti e Cale. Era notável que o produtor e a artista eram representantes de duas forças completamente antagônicas, tais quais Vênus e Marte ou Apolo e Dionísio, o que não interferiu no fato do debut album de Patti Smith ser considerado sua obra-prima até hoje.

Patti ao lado de Bob Dylan

A imagem de capa do disco, clicada por Robert Mapplethorpe, merece um parágrafo à parte, por mostrar uma cantora que foge a todos os padrões de feminilidade e beleza: o cenário era o apartamento de cobertura de Sam Wagstaff, companheiro de Robert, no Greenwich Village, número 1 da Fifth Avenue, com Patti Smith vestindo uma camisa social branca com o paletó pendurado no ombro esquerdo, como uma versão punk e lésbica de Frank Sinatra. Por ser uma imagem tão autêntica e tão intensa no que diz respeito à integridade artística que Patti sempre ambicionou e o jogo de luz e sombras em preto e branco que Mapplethorpe sempre realizou enquanto fotógrafo, a capa de Horses tornou-se uma das mais emblemáticas de toda a história da música recente. A intelectual Camille Paglia declarou certa vez que aquela foto é uma das melhores imagens jamais feitas de uma mulher. No entanto, Patti escreveu em seu primeiro livro de memórias, Só Garotos, que a foto é fruto do amor dela e de Robert pela arte: “Até hoje quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois”.





Horses possui apenas oito faixas e uma bonus track (uma releitura veloz e furiosa de “My Generation”, do The Who), que foi incorporada a uma reedição em CD a partir de 1996. No entanto, cada uma destas faixas revela não apenas a fúria, o lirismo e a imensa ousadia de Patti Smith, como também evidencia o talento indiscutível de Lenny Kaye, Richard Sohl, Jay Dee Daugherty e Ivan Kral como músicos. A faixa de abertura, o medley “Gloria” juntava trechos do poema “In Excelsis Deo”, de Patti com uma releitura frenética da canção de mesmo nome composta e gravada por Van Morrison e pelo The Doors anos antes. A faixa seria apenas mais uma canção de rock entoada por uma mulher se Smith não tivesse cantado literalmente que “Jesus died for somebody’s sins, but not mine” (Jesus morreu pelos pecados dos outros, mas não pelos meus). Na medida em que a voz deixa de sussurrar ao som do piano de Sohl para se tornar em gritos e berros do desejo uma vez escrito por Morrison, Patti retorna ao trecho mais controverso de seu poema e não deixava dúvidas de que veio para o mundo do Rock para fazer muito barulho e confusão.

Patti no colo de Clive Davis

O disco segue com “Redondo Beach”, um misto de Rock e Reggae baseado em um poema escrito por Patti Smith em 1971 e que foi musicado por Richard Sohl e Lenny Kaye anos depois. A canção narra uma briga de Patti com uma de suas irmãs mais novas, Linda, que, por sinal, jamais chegou a cumprir o destino trágico descrito pelos versos da older sister. Um fato interessante é que Morrissey chegou a gravar um cover inusitado deste clássico e que saiu no álbum Live at Earls Court (2005). Já “Kimberly” (Patti Smith, Allen Lanier & Ivan Kral), quinta faixa de Horses, é uma homenagem da cantora à sua irmã caçula e narra episódios ao som da batida sincopada de Jay Dee e da marcação do órgão Hammond B3 de Sohl.


Patti ao vivo em San Francisco - 1975

Uma das canções mais populares de Horses é a deliciosamente frenética “Free Money”, no qual Patti debocha descaradamente da importância do vil metal em meio aos delírios de uma sociedade pautada pelo consumo – e olha que ela já nos dizia isso desde os anos 1970. O que chega a ser mais surpreendente é que esta parceria de Smith e Lenny Kaye recebeu algumas releituras, inclusive uma feita por Sammy Hagar (segundo vocalista do Van Halen). O fato é que o espírito desta canção, por exemplo, fez de Patti Smith a madrinha do movimento Punk, amada por músicos das mais distintas tribos. Outro exemplo deste frenesi que era característico da música que se produzia em Nova York em meados dos anos 1970 é o insano medley “Land” (sétima faixa do disco), dividido em três partes: o poema “Horses” (Patti Smith), uma releitura de “Land of a Thousand Dances” (Chris Kenner & Fats Domino) e o poema “La Mer(de)” (Patti Smith). Os “puristas” do movimento debochavam dos versos smithianos, claramente influenciados por Jim Morrison, Bob Dylan e (principalmente!) Arthur Rimbaud; porém, o fato é que poucos tinham a competência de desconstruir uma artista de envergadura tão incomum – afinal de contas, Patti Smith conseguia ser mais agressiva do que Morrison, Hendrix e Dylan juntos




“Birdland”, a terceira faixa do disco, tem uma influência mais jazzística graças ao dedilhar do piano de Richard Sohl. Enquanto a improvisação corria solta pelos Electric Lady Studios, Patti tentava evocar o espírito de Jimi Hendrix e se inspirava nas memórias de Wilhelm Reich escritas por seu filho Peter para atingir o grau máximo da sensibilidade. Já “Break it Up”, um dos momentos mais emocionantes de Horses, é uma parceria de Patti Smith com o guitarrista Tom Verlaine (Television). A inspiração para esta canção surgiu de um sonho da autora de Só Garotos com Jim Morrison – neste episódio, o eterno vocalista do The Doors aparece com asas angelicais, mas preso em um umbral de mármore que o impedia de voar. O pedido de Jim era simplesmente de que a moça saísse de seu estado de letargia e quebrasse o mármore para que, enfim, o cantor de “Light My Fire” pudesse seguir sua jornada rumo à eternidade: “Snow started falling / I could hear the angel calling / We rolled on the ground, he stretched out his wings / The boy flew away and he started to sing / He sang, “Break it up, oh, I don’t understand / Break it up, I can’t comprehend / Break it up, oh, I want to feel you / Break it up, don’t look at me”.


A faixa que encerra Horses, “Elegie”, é uma singela homenagem feita por Patti Smith e Allen Lanier para aqueles que já partiram desta vida. O mais interessante é que a canção se tornou um número cada vez mais emocionante na medida em que ele é tocado ao vivo e mostra Patti em meio a lamentos de dor e saudade para que, ao final, ela recite os nomes daqueles que nos deixam saudades. Em uma edição especial comemorativa de 30 anos de seu disco de estreia, que contém uma gravação de um show gravado em Londres, os nomes de Jimi Hendrix, Jim Morrison, Robert Mapplethorpe, Todd Smith (irmão da cantora) e Fred “Sonic” Smith (líder do MC-5 e marido da madrinha do Punk) e Richard Sohl (falecido aos 37 anos por um ataque do coração, em 1990) foram lembrados. Já na última noite de apresentações do lendário clube CBGB, Patti Smith fez questão de relembrar de todos os mitos do Punk Rock que já não estavam mais entre nós naquela fatídica noite de 2006 – os acordes de “Elegie” foram exatamente os últimos que ecoaram pelas paredes imundas do templo do Punk nova-iorquino antes de Hilly Kristal fechar as portas. Torna-se impossível não se emocionar com as perdas de Smith, visto que elas são perdas musicais que repercutem em cada um de nós…



Horses chegou aos 40 anos de idade no dia 13 de dezembro de 2015, com direito a uma turnê comemorativa de aniversário. Queria ter sido uma mosquinha para ter assistido e ver que Patti Smith poderia até ter envelhecido um pouquinho, mas sua música continua ousada e agressiva como sempre foi no decorrer destas últimas quatro décadas. Enquanto vou juntando dinheiro ou me conformando com frustração de ficar por estas bandas mesmo, o jeito é celebrar o legado atemporal deste disco maravilhoso…

27 de julho de 2017

DISCOS DE VINIL # 35

DAVID BOWIE – YOUNG AMERICANS (1975)


Entre 1973 e 1975, David Bowie fez jus ao seu apelido: CAMALEÃO DO ROCK. Em um espaço de um ano e meio, Ziggy Stardust foi morto na frente de milhares de pessoas no Hammersmith Odeon, um álbum de covers (Pin-Ups) foi lançado para que o mundo se refizesse da morte do roqueiro alienígena e Halloween Jack foi a persona que anunciou a era dos Diamond Dogs em meio à catastrófica Hunger City. Em poucas palavras, podemos dizer que o universo de som e imagem de Bowie vivia sob o signo constante da renovação na década de 1970. Quando tínhamos uma imagem icônica do autor de “Changes” em mente, lá vinha ele com uma mudança de visual e concepção musical para confundir as cabeças de todo mundo…




Em meados de 1974, ao estrear a Diamond Dogs Tour, veio a primeira surpresa: enquanto o mundo esperava um artista andrógino e que traria uma persona semelhante à de Ziggy Stardust (visto que nem Aladdin Sane, tampouco Halloween Jack eram tão distintos da figura do alienígena), surge a figura de um astro do Rock com um corte de cabelo levemente mais discreto (as madeixas cor de fogo de Ziggy, mais curtas, passaram a dar espaço a mechas loiras), magérrimo, esguio e elegantemente vestido em um terno azul bebê da Pierre Cardin com direito a suspensórios – Bowie, que na época, devia pesar pouco mais de 40 kg, seguia uma “dieta” a base de leite integral, café, pimentões, pastilhas de menta, cigarros e… cocaína (Basta observar a capa do álbum David Live, lançado pelo astro em 1974, para constatar o estado de degradação física pelo qual ele atravessava naquele tempo)…


A turnê de divulgação de Diamond Dogs foi um marco não apenas para a carreira de David Bowie ou do Rock: ela foi precursora de muitos espetáculos de música que passaram a ser realizados a partir de então. Ao misturar música, teatro e cenários típicos de qualquer show da Broadway, Bowie tornou-se referência para artistas como arautos de outras tribos e gerações como Madonna, Kanye West, Lady Gaga e Morrissey e inspirou colegas de profissão como Elton John, Kiss e até (quem diria?) os Rolling Stones (leia-se: Mick Jagger e a sua eterna obsessão em parecer jovem através de sua música!). No entanto, quando a tour estreou em julho de 1974, o camaleão inglês andava fascinado pela música negra americana como nunca esteve, o que já indicava uma mudança de direção musical para caminhos paralelos aos do Rock durante aqueles shows.


No mês de agosto de 1974, durante o primeiro intervalo das excursões de Diamond Dogs, o autor de “Space Oddity” decidiu ir para o estúdio gravar as novas composições que já tinha dentro da gaveta. O local escolhido para as gravações do álbum que viria a ser conhecido como Young Americans foi o Sigma Sound Studios, no estado da Philadelphia, berço do Soul norte-americano. A produção do disco ficou dividida entre Tony Visconti, Harry Maslin e o próprio Bowie e estabeleceu-se o acordo de que todas as faixas seriam gravadas ao vivo, com todos os músicos compartilhando o mesmo espaço – o próprio Visconti, ao falar sobre este trabalho, relatou que o disco é nada mais, nada menos que “85% Live David Bowie”. Durante as gravações do disco, a turnê Diamond Dogs voltou para a estrada, mas já rebatizada como Philly Dogs, em alusão descarada ao som que se produzia no lendário estúdio da Philadelphia.

Bowie no estúdio junto de Robin Clark, Ava Cherry e o jovem Luther Vandross

O termo que define o som que o camaleão inglês queria produzir naquele momento era “Plastic Soul”, uma espécie de música Soul feita por um branco! Se David Bowie quisesse realmente alcançar tamanho nível de excelência, teria que ir em busca de músicos que estivessem em sintonia com o Soul, o Funk e o Jazz. Para tal, o jovem astro não mediu esforços: verdadeiras autoridades no assunto foram convocadas para as gravações do novo projeto – Andy Newmark (baterista do Sly & The Family Stone), o guitarrista Carlos Alomar (que se tornou parceiro e colaborador fixo por alguns anos), o saxofonista de jazz David Sanborn, o já experiente pianista e tecladista Mike Garson (que já acompanhava Bowie em turnês desde 1973) e um jovem fã de Diana Ross que fez os arranjos vocais e se tornaria famoso como cantor no final daquela mesma década de 1970 – Luther Vandross.


Em 1974/75 era incomum vermos artistas brancos flertarem descaradamente com a música negra a ponto de cantar e tocar como um Bluesman do Delta do Mississipi, por exemplo. Elvis Presley aprendeu tudo com os negros. O canto de Janis Joplin sofreu influências de Bessie Smith e Tina Turner. Os Beatles e os Rolling Stones não teriam feito os sons que mudaram os rumos do planeta se não conhecessem as bandas de Blues dos Estados Unidos. E David Bowie estava mais alucinado do que nunca pelo Soul americano. No entanto, fazer com que sua música cruzasse a fronteira das rádios negras não era tarefa para qualquer um: a partir de Young Americans, Bowie foi um dos primeiros a transcender tais limites com “Fame” (parceria do astro com John Lennon e o guitarrista Carlos Alomar), que foi catapultada para o primeiro lugar das paradas de sucesso americanas, fato inédito para o próprio homem que estava por detrás da máscara de Ziggy Stardust.

Bowie entre Warren Peace e Ava Cherry, sua namorada na época

Seis faixas que constam em Young Americans foram gravadas na Philadelphia entre agosto e novembro de 1974. A faixa-título, que narra a rapsódia de um casal nativo da terra de Uncle Sam, conta com a participação brilhante dos backing vocais de Ava Cherry, Robin Clark, Diane Sumler, Anthony Hilton, Warren Peace e Luther Vandross. Estes cantores emprestaram seu talento para outras faixas do disco como as baladas “Win” e “Can You Hear Me?”, faixas que contam o sax alto de David Sanborn e belíssimos arranjos de cordas. Em faixas mais rápidas do disco como “Somebody Up There Likes Me” e “Fascination” (parceria de Bowie com Vandross), as vozes destes artistas também brilham intensamente. E a interação destes cantores com Bowie é impressionante em “Right”: as frases e palavras que lead singer e backup singers trocam dão a impressão de golpes de boxe na medida em que um completa as falas do outro em um jogo vocal alucinante.


As duas faixas que completam Young Americans surgiram de um encontro importantíssimo entre David Bowie e John Lennon. Os dois se conheceram em meados de 1974, enquanto a Diamond Dogs Tour passava pelos EUA e o “final de semana perdido” do ex-Beatle chegava ao fim. Bowie chegou a apresentar faixas do disco que estava gravando para Lennon, o que rendeu alguns conselhos valiosíssimos para o autor de “Life on Mars?” (o mais importante deles era a dispensa do empresário Tony Defries, que se consumou pouco tempo depois) e rendeu algumas parcerias que acabaram entrando no álbum que Bowie lançara em 1975: a já citada “Fame” – uma mistura de Rock e Funk capitaneada por um riff arrasador de Carlos Alomar – e uma releitura de “Across The Universe” – canção lançada pelos Fab Four em Let It Be (1970). Um detalhe interessante é que esta segunda faixa contou com a participação especial de John, já reintegrado a New York e reconciliado com Yoko.


Bowie ao lado de John e Yoko

Apesar das duas faixas gravadas nos estúdios Electric Ladyland, em NYC, serem particularmente interessantes, não acho que elas necessariamente dialogam com a proposta do disco pelo fato que elas não são um retrato do som da Philadelphia que Bowie tanto quis produzir em seu ambicioso projeto. Ironicamente, “Fame” já prenuncia a proposta a ser desenvolvida por David Bowie em seu próximo projeto pós – Young Americans: o antológico e aclamadíssimo Station to Station, lançado em 23 de janeiro de 1976.



Bowie ao lado de Liz Taylor

As faixas de Young Americans que foram descartadas do álbum vieram a público anos depois. A segunda versão para “John I’m Only Dancing” deixou de lado a sonoridade Rock dos tempos de Ziggy Stardust para abrir as portas para as batidas da Disco Music que surgia no final de 1974 e chegou a ser tocada em algumas apresentações de Philly Dogs. Já as baladas “Who Can I Be Now?” e “It’s Gonna Be Me” – lançadas em uma edição especial de 2007 de Young Americans (que você ouve acima) – são duas interpretações marcantes de David Bowie que atestam a sua evolução enquanto cantor. Já a releitura de “It’s Hard To Be A Saint In Te City” (de Bruce Springsteen) e a inédita “After Today” saíram na caixa Sound + Vision (1990).



Young Americans fez com que David Bowie deixasse de ser o homem das estrelas deliciosamente bizarro para se transformar em um elegante homem do Soul, com ternos impecáveis e com um som indefectível. Ao analisarmos o legado que este álbum ofertou para a música do planeta, quatro décadas após o seu surgimento, concluímos que foi um dos primeiros trabalhos de um artista branco que fazem música negra sem oportunismos, modismos e cacoetes. Um disco que deve ser ouvido bem alto, com muito carinho e com muita atenção…


18 de julho de 2017

DISCOS DE VINIL # 33

ROXY MUSIC – SIREN (1975)


Em meados de 1975, o Roxy Music tinha se tornado em uma das bandas mais cultuadas do Reino Unido: quatro discos gravados graças à elegância e à liderança do vocalista e tecladista Bryan Ferry e de seus comparsas. A partir do terceiro disco, a força criativa do Roxy deixava de ser alvo de disputas entre Ferry e Brian Eno, quando o segundo resolveu sair da banda e investir em seu projeto solo.

Brian Eno (esq.) ao lado de Bryan Ferry (dir.)

As sessões de gravação do quinto álbum do Roxy Music foram realizadas entre junho e setembro de 1975 e contaram com a produção de Chris Thomas (Queen, Pink Floyd, Elton John, Pulp, Paul McCartney, The Pretenders, INXS, Sex Pistols). A imagem a ilustrar a capa do disco, para manter mais uma vez a tradição de belas mulheres que embelezam as capas dos trabalhos da banda (uma das taras e manias preferidas de Bryan Ferry que mais gostamos), é a da modelo texana bombshell Jerry Hall – naquele período, namorada de Ferry e futura Sra. Mick Jagger – caracterizada como uma bela e estonteante sereia. Nenhum título para este trabalho poderia ser mais apropriado: Siren (sereia, em português).

Ferry ao lado da estonteante Hall, a maior beleza que o Texas relegou ao mundo depois de Janis Joplin


As nove canções do álbum são uma espécie de ode coletiva à bela sereia presente em cada mulher. A canção que resume a proposta do disco é a sexy “Love is The Drug” (Bryan Ferry & Andy MacKay), faixa que abre o disco e foi um dos singles de maior sucesso da história do Roxy Music. A linha de baixo de John Gustafson ao se aliar a batida de Paul Thompson, aos sopros de Andy MacKay, às guitarras de Phil Manzanera, aos teclados de Eddie Jobson e à sensualidade indefectível de Bryan Ferry resultam em um dos hits mais provocantes de toda a história do Rock: o sentimento amoroso era mais do que uma mera obsessão, ele se transforma em um narcótico ou uma arma letal nas mãos do inimigo. A faixa fizera tanto sucesso que chegou a receber uma releitura de Grace Jones, anos depois.




As duas faixas seguintes de Siren foram justapostas sem intervalos entre as mesmas de forma que elas soassem como uma única canção: “End of The Line” (Bryan Ferry) destaca o violino de Eddie Jobson (substituto de Brian Eno) e “Sentimental Fool” (Bryan Ferry & Andy MacKay) aponta a fraqueza do elemento masculino diante da supremacia do poder feminino através de acordes que se assemelham ao explorado pelas bandas de rock progressivo. A quarta composição do disco, “Whirlwind” (Bryan Ferry & Phil Manzanera) é o número mais rápido do disco e coloca o talento vocal indiscutível de Ferry em evidência. “She Sells” (Bryan Ferry & Eddie Jobson) possui um acorde hipnótico de piano e uma letra que descreve uma relação amorosa pautada por imagens jornalísticas, eróticas e de altíssima voltagem. Já a faixa do álbum, a romântica “Could It Happen to Me?” (Bryan Ferry) evidencia o sax de MacKay em pouco mais de três minutos e meio.




O segundo hit single de Siren foi a sétima faixa do álbum, “Both Ends Burning” (Bryan Ferry). O épico de pouco mais de cinco minutos descreve o fogo incessante das paixões avassaladoras e tornou-se um dos maiores sucessos do Roxy Music. “Nightingale” (Bryan Ferry & Phil Manzanera) dá prosseguimento ao disco retratando uma relação singela entre um cantor e um rouxinol que o acompanha em meio à solidão. E, por fim, “Just Another High” encerra o quinto trabalho da banda ao descrever os descaminhos insanos do sentimento amoroso.


Além de um dos maiores álbuns do Roxy Music, Siren é considerado uma das obras fundamentais do Rock ‘n’ Roll. Após a turnê deste clássico, os membros da banda decidiram investir em um hiato que durou pouco mais de três anos. Bryan Ferry investiu em sua carreira solo e lançou três álbuns antológicos – Let’s Stick Together (1976), In Your Mind (1977) e The Bride Stripped Bare (1978). Ao ouvirmos e reouvirmos este trabalho conjunto de Ferry, Andy MacKay, John Gustafson, Eddie Jobson, Phil Manzanera e Paul Thompson, constatamos que qualquer banda que queira se aventurar a fazer música de qualidade deveria se espelhar em cada pequeno clássico perdido do Roxy Music antes de empinar seus instrumentos musicais e montar uma aura de artista cool.



Por isso e tudo o mais, aperte o play, pois não há amor mais intenso do que a paixão musical por esta belíssima sereia…



16 de março de 2017

DISCOS DE VINIL # 23

TIM MAIA – RACIONAL (1975)


“Quero que tudo saia / como o som de Tim Maia”
(Caetano Veloso, 1983)


Muitos músicos brasileiros disputaram a alcunha de “o músico mais louco do Brasil”. Raul Seixas bem que tentou; Marcos Valle e Erasmo Carlos passaram longe; Sérgio Sampaio e Jards Macalé fizeram alguns esforços dignos; Arnaldo Baptista (se não fosse um caso clínico tão grave) foi o que chegou mais perto. No entanto, nenhum deles conseguiu bater a meta de loucuras artísticas de Tim Maia, o detentor do título: o Síndico redefiniu todos os limites de sensatez e independência artística com este álbum.


Em 1974, Tim Maia era um dos músicos mais consagrados da MPB: seus quatro primeiros discos – lançados pela Philips entre 1970 e 1973 – são registros do que se fez de melhor em termos de música Soul no Brasil. A fina flor do cancioneiro do Síndico se tornou a trilha sonora de muitos casais apaixonados e que gostavam de dançar por aí e fez do gordinho Sebastião Rodrigues Maia, ex-presidiário, ex-suburbano carioca, ex-companheiro de banda de Roberto e Erasmo um astro da canção brasileira. Em suma: Tim era um músico de sucesso, amado pelo público e sentindo os prazeres e armadilhas do sucesso.
No início de 1974, Tim saiu da Philips e foi contratado pela RCA a peso de ouro para que gravasse um álbum duplo (o Brasil queria abocanhar aquela tendência de mercado, pegando carona no sucesso dos vinis rechonchudos que Elton John e os Rolling Stones – para não citar outros – tinham lançado há pouco tempo). Porém, a relação conflituosa do astro brasileiro com as drogas e a bebida, somando-se às desilusões amorosas constantes, fez com que ele fosse em busca da paz e do conforto que nenhum narcótico conseguiria lhe oferecer. Ao ler um dos livros da seita Universo em Desencanto, Tim Maia decidiu que o caminho para se livrar de todos os conflitos que lhe desesperavam era se convertendo à seita de Manoel Jacintho Coelho, grão mestre daquele rebanho localizado em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.


De acordo com aqueles preceitos religiosos, o mundo estava magnetizado por forças maléficas. Para que encontrássemos a salvação (via imunização racional), era preciso acreditar na existência e no poder de um Racional Superior, abolir todas as cores do vestuário em prol do branco e se livrar de todos os excessos de uma vida materialista. Com isso, Tim abandonou as drogas e a bebida, emagreceu consideravelmente e cortou suas longas madeixas ao estilo Black Power, que eram a sua marca registrada. O resultado deste processo foi Racional, um álbum espetacular, com um artista no auge da sua forma vocal (graças ao fato de ter dado uma pausa na bebida e nas drogas), mas no apogeu de sua criatividade em relação ao discurso. “Bom Senso”, a terceira faixa do disco, é o melhor exemplo deste fato:



Já virei calçada maltratada
E na virada quase nada
Me restou a curtição

Já rodei o mundo quase mudo
No entanto num segundo
Este livro veio à mão

Já senti saudade
Já fiz muita coisa errada
Já pedi ajuda
Já dormi na rua

Mas lendo atingi o bom senso
Mas lendo atingi o bom senso
A imunização
Racional

Racional é um trabalho fenomenal no que diz respeito à qualidade musical: os músicos da banda (proibidos por Tim de consumir qualquer tipo de droga) produziram acordes memoráveis e repletos de groove ao lado de um band leader instintivo e de uma inteligência musical ímpar. Funk e Soul se irmanam intensamente com o canto do Síndico em uma simbiose jamais ouvida em seus discos da fase Philips. Por outro lado, o disco é repleto de letras panfletárias, de gosto explicitamente duvidoso e que revelam um esoterismo barato, beirando o tosco (4 das 9 faixas do álbum possuem o termo “racional” no título das canções e quase todas elas pedem para que os ouvintes leiam o livro da seita liderada por Manoel Jacintho Coelho).


Basicamente, a música era incrível, porém o discurso era (infelizmente) de baixa qualidade: apesar de Tim Maia ter largado o vício em comida, álcool e narcóticos, a religião revelara-se como mais uma de suas compulsões – a ferocidade de sua obsessão tinha um outro viés, tão devastador quanto o de alguém que necessitava largar o crack ou a heroína…
Um exemplo da fúria santa de Tim Maia: no auge de seu fervor esotérico, o autor de “Azul da Cor do Mar” e “Réu Confesso” decidiu assinar suas criações como “Tim Maia Racional” e exigiu que todos os músicos que trabalhavam com ele se convertessem ao Universo em Desencanto. A banda foi rebatizada de Seroma Racional e todos os instrumentos musicais deveriam ser pintados de branco. Ingestão de carne vermelha e praticar sexo sem o intuito de procriar estava completamente fora de cogitação. Tim finalmente atingira o ápice de sua maluquice enquanto membro da seita de Belford Roxo: as consequências de sua doideira não tardariam a aparecer…
Quando os executivos da RCA tomaram conhecimento das loucuras religiosas de Tim Maia, decidiram remover o contrato com o artista. Tim aceitou o rompimento com a condição de que levasse consigo todas as bases do disco duplo que já estavam gravadas e que se encontravam em poder da gravadora. Com o sinal verde dos homens de terno e gravata, o Síndico lançou seu quinto álbum de maneira independente através do selo SEROMA (cujo nome veio das primeiras sílabas de Sebastião Rodrigues Maia, nome de batismo do cantor) e fez história na música brasileira como um dos primeiros artistas do mainstream musical brasileiro a lançar um disco de forma autônoma em relação às grandes gravadoras. Racional chegou a ter duas sequências: Racional, Vol. 2 veio a público apenas em 1976, provavelmente porque havia uma enorme dificuldade de Tim para prensar e distribuir o disco. No final da década de 1990, depois que o Síndico já havia morrido, as master tapes de Racional, Vol. 3 foram encontradas e só chegaram aos ouvidos dos fãs em 2011, graças a uma iniciativa conjunta de Carmelo Maia (filho de Tim), Kassin e o falecido maestro/arranjador Lincoln Olivetti em uma parceria entre a Sony Music, a Vitória Régia (da família Maia) e a editora Abril.


Tim Maia pagou um preço altíssimo por sua vontade intensa de autonomia em relação ao mercado: Racional foi sumariamente ignorado pela crítica e pelo grande público na época – ironicamente, esta fase é uma das mais admiradas e veneradas pelos fãs do Síndico. Os shows começaram a ficar vazios e a minguar dramaticamente. A grana e o sucesso desapareceram em um estalar de dedos. No momento enquete o fracasso finalmente encontrara as portas de Tim, descobriu-se que Manoel Jacintho Coelho era um charlatão descompromissado com a fé alheia e interessado apenas em dividendos financeiros. Como consequências, o Síndico decidiu se “magnetizar” novamente e a obra religiosa de Sebastião Rodrigues Maia tornou-se eternamente amaldiçoada pelos olhos de seu criador e foi eternamente renegada enquanto ele esteve vivo.



Racional é o momento mais criativo e polêmico da discografia de Tim Maia. A viagem místico-musical do Síndico merece nossa audição, mas não deve ser levada a sério por se tratar da maior maluquice musical que um artista brasileiro realizara em vida. Tim não deve em nada a um pastor negro norte-americano em termos vocais, porém as letras paupérrimas que pregava a nossa leitura dos mais de 1000 livros da seita Universo em Desencanto. O disco traz um conceito confuso, mas a sobriedade vocal do maior artista negro da música brasileira o coloca também como a maior voz gospel surgida neste país: se os cantores evangélicos ou os padres que se arriscam como cantores que adoram pregar a chamada “palavra de Deus” buscassem inspiração no som produzido por Sebastião Rodrigues Maia, a qualidade do que se ouve por aí seria muito melhor – principalmente porque uma canção como “Imunização Racional (Que Beleza)” nós dá a impressão de que foi gravada anteontem. Este trabalho é a prova mais cabal que a loucura também consegue produzir coisas belas de se ver e também de se ouvir…