O mundo andava bastante conturbado em 1992. Vivíamos o auge da 1ª Era
Bush com direito a conflitos armados de toda espécie. O Brasil vivia a
deposição do primeiro presidente eleito pelo voto através de um impeachment. A
AIDS tinha tragado alguns nomes do entretenimento em todo o planeta: enquanto
chorávamos a morte de Cazuza, o resto do mundo amargava a partida precoce de
Freddie Mercury. Tempos conservadores aqueles. Falar de sexo se restringia
apenas à prevenção para que a tal síndrome (que nunca escolheu cor, sexo ou
sexualidade) não viesse bater à sua porta. Mencionar prazer sexual ainda era um
tabu e tanto no início da década de 1990.
Em outubro de 1992, uma das vozes mais controversas e revolucionárias do
mundo do entretenimento resolveu acender o pavio eterno de toda e qualquer
discussão em torno de sexo. Madonna já comprara uma quantidade sem tamanho de
brigas ao beijar um Cristo negro e tinha dançado freneticamente na frente de
cruzes em chamas. Já tinha simulado sexo oral e masturbação durante a turnê Blond Ambitionanos
antes. Em outras palavras, Madge não precisava de muito pretexto para arranjar
confusão, pois seu nome constava no topo da lista negra dos conservadores mais
ferrenhos e radicais. Mesmo assim, ela resolveu dobrar a sua artilharia contra
a caretice.
Em 20 de outubro de 1992, Madonna deu uma cartada e tanto contra os
conservadores e o medo de se falar sobre sexo: Erotica, seu quinto álbum de estúdio, foi lançado simultaneamente com Sex, um coffee table book com
fotos artísticas de Steven Meisel no qual o mundo conheceu todos os ângulos
possíveis e imagináveis da Rainha do Pop em colorido e em preto e branco. Foi o
primeiro empreendimento da artista através do selo multimídia Maverick, ligado à Warner Records. O
livro trata de vários tipos de fantasias sexuais com a Pop Star nua ao lado de
anônimos e famosos - sexo grupal, relações em locais públicos, ménage a trois,
sadomasoquismo e sexo oral são alguns dos temas abordados pela obra. O álbum,
por sua vez, trata dos mesmos temas do livro, de maneira bastante França e
explícita. Na pele do alter-ego “Dita”, Madonna apresenta uma síntese da
importância do prazer durante o sexo em “Erotica”, sua canção-manifesto, uma
anti-canção pregando a sacanagem com todas as letras. A missão de Dita era a de
ensinar as pessoas a terem uma vida com menos inibição e mais prazer,
desmistificando o sadomasoquismo e o sexo oral. E some a este caldeirão
fumegante canções sobre obsessão sexual, promiscuidade, confissões de amor e
ódio e duas odes contra o preconceito.
Quando a Rainha do Pop se vestiu de Dita, lançou este compêndio sobre o
sexo (CD e livro), eu tinha um pouco de mais de 11 anos de idade e estava descobrindo
os prazeres da música naquele momento de minha vida. Lembro com clareza do
linchamento público sofrido por Madonna e da excitação pública que os fãs
sentiam com cada clipe, cada escândalo e com a turnê The Girlie Show, que
passou pelo Brasil em novembro de 1993 – até hoje eu me lembro do choque de D.
Magaly, minha avó ao ver o número de abertura do espetáculo, no qual uma das bailarinas
descia seminua fazendo pole dancing.
Apesar do álbum e do show terem recebido críticas favoráveis, os conservadores
de plantão não perdoaram Madge por ter tocado em tabus sexuais tão controversos
de uma tacada só e a partir de uma perspectiva tão pessoal. Querendo ou não, os
anos 1992-1993 foram muito difíceis para a Pop Star por terem lhe imposto uma
imagem de degenerada e irresponsável, o que fez com que Erotica fosse o primeiro álbum de Madonna a
não atingir o topo das paradas da Billboard.
Apesar de ser um disco adorado pelos fãs, Erotica é, infelizmente, um dos trabalhos mais subestimados de Madonna – creio
que foi o primeiro disco com aquele selo “Parental Advisory Label” que eu me
lembro de ter visto. Foi um álbum bem menos vendido comparado a True Blue, Like a Prayer e Like a Virgin,
porém é o único disco em que a Rainha do Pop trata de sexo, vida, morte, agonia,
desejo, liberdade e prazer sexual com tamanha contundência. Para um menino
suburbano que estava entrando na adolescência, descobrindo os prazeres da
música (e os sexuais também!), as 14 gravações daquele CD se tornaram em um desejo
incontrolável de libertação, contestação e de pensar do lado de fora da
caixinha que nos impõem para que possamos viver harmoniosamente em sociedade.
Musicalmente falando, Erotica também é uma aula de diversidade musical: seduzida pela Dance Music do
início dos anos 1990, como também pela da década de 1970, Madonna se aliou aos
produtores Shep Pettibone (com quem fez “Vogue”) e André Betts para a
realização de um trabalho que reúne baladas e canções dançantes em ritmo de R
& B, Hip Hop, Soul, Jazz, House e uma guitarra flamenca sensacional em “Deeper
and Deeper”. Enquanto eu me encantava cada vez mais pela Rainha do Pop, seu som,
suas imagens e mutações mil através da extinta MTV Brasil, aprendi algumas
lições básicas de como se faz música popular, sem deixar a peteca da qualidade cair.
Além disto, Madonna me ensinou a importância de não temos que depender
de ninguém para termos a liberdade de pensar e existir da maneira que for mais
conveniente para cada um de nós, sem se prender a quaisquer espécies de amarras
morais ou ideológicas. E como ela mesma já nos disse, pobre é aquele que
depende do outro para encontrar o seu próprio prazer. Em uma época na qual não
podíamos falar de sexo tranquilamente por causa de uma epidemia que varria as
pessoas para o vale da morte indistintamente, a Rainha do Pop reinventou a
noção de erotismo na música. Graças a sua coragem e ao nosso desejo de
liberdade, Erotica não ficará no limbo do esquecimento que os conservadores criaram para
nos queimar vivos. Afinal de contas, as genuínas obras de arte não merecem e
não podem ser esquecidas...
1969
foi o ano que colocou Joni Micthell no mapa da música do planeta ao gravar seu
segundo disco solo, o minimalista Clouds. Dois anos depois, Blue dava
à autora de “Both Sides, Now!” o reconhecimento perante a crítica
especializada. Dois anos depois, a bela loura de cabelos longos era uma cantora
e compositora famosa, aclamada e reconhecida pela crítica e, apesar de cult,
não era absurdamente popular.
No
decorrer de 1973, Joni Mitchell estava em busca de novos rumos para a sua
música: cansada das amarras da Folk Music,
decidiu buscar no Rock, no Jazz e no próprio Folk a gênese para o seu sexto projeto fonográfico. Decidiu ouvir
músicos de Jazz de primeira linha – em uma noite foi ouvir o conjunto LA
Express ao vivo e se encantou com a sonoridade do baterista John Guerin e seus
companheiros de palco. Guerin, um purista do Jazz, chegou a torcer o nariz para
Joni em um primeiro momento para logo reconhecer o talento indiscutível da
mocinha, de quem se enamorou tempos depois.
John Guerin & Joni Mitchell
Em
Janeiro de 1974, Joni lançou o disco mais importante de toda a sua obra: Court and
Sparknão só agradou a
crítica, como também foi seu o disco mais vendido de toda a sua carreira e
considerado um dos melhores álbuns daquele ano. “Help Me” e “Free Man in Paris”
se tornaram em sucessos radiofônicos instantâneos. A mistura bem dosada de
estilos musicais foi o grande fator que fez com que a obra de Joni Mitchell
fosse de encontro com o grande público. Logo em seguida, a canadense saiu em
turnê com os músicos do LA Express, o que resultou em Miles of Aisles, um belo registro da passagem da tour por Los Angeles.
No
entanto, enganam-se aqueles que acreditaram que os versos de Joni se tornaram
açucarados para conquistar o apreço da crítica e do público. Na verdade, sua
poética de nunca estivera tão ácida e crítica como naqueles tempos. Na faixa-título, ao falar sobre o amor e à
impossibilidade de escapar das tentações do mundo material (Los Angeles), dizia
Joni: “His eyes were the color of the sand / And the sea / And the more he
talked to me / The more he reached me / But I couldn’t let go of L.A. / City of
the fallen angels”.
Em “Free Man in Paris”, ao criar um
personagem-narrador baseado no executivo da indústria fonográfica David Geffen,
Joni Mitchell filosofava, sarcasticamente: “The
way I see it he said / You just can’t win it / Everybody’s in it for their own
gain / You can’t please ’em all / There’s always somebody calling you down / I
do my best / And I do good business / There’s a lot of people asking for my
time / They’re trying to get ahead / They’re trying to be a good friend of mine”.
Por fim, em “Trouble Child”, Mitchell dispara, sem a
menor dó: “Well some are going to knock
you / And some’ll try to clock you / You know it’s really hard / To talk sense
to you / Trouble child /Breaking like the waves at Malibu”. O
universo que se desvela através de cada uma das 11 canções do disco (10 de
autoria de Joni, 1 cover) é composto de um certo pessimismo, de certeira
desilusão perante as pessoas e o mundo e de a única solução restante é rir
diante dos problemas e das adversidades – o cover de “Twisted” e a
interpretação esquizofrênica de Joni para a composição de Annie Ross, Dave
Lambert e Jon Hendricks dá a impressão de que a única coisa que nos resta é dar
uma boa risada diante do caos iminente. Afinal, é melhor optar pelo riso
sarcástico e crítico do que pelo choro desesperado que não acrescentaria nada
ao nosso sofrer…
O lendário grupo L.A. Express, que acompanhou Joni em sua turnê de 1974
Vale
um parágrafo com uma menção honrosa para o time de músicos primorosos reunidos
por Joni Mitchell neste disco: além do talento indiscutível de John Guerin à
frente da bateria e da percussão, Tom Scott ficou responsável por todos os
sopros, Wilton Felder tocou baixo, Larry Carlton ficou com a guitarra elétrica,
Joe Sample tocou o piano elétrico em “Raised on Robbery”, David Crosby fez
backing vocais em “Free Man in Paris” e “Down to You”, Graham Nash também fez
os seus backing vocais em “Free Man in Paris”, os guitarristas Wayne Perkins e
Robbie Robertson fizeram participações especiais em “Car on a Hill” e “Raised
on Robbery” e a própria Joni Mitchell fez boa parte das vozes, tocou violão,
piano e o clavinet da faixa “Down to You”, além de outros músicos. Além disto,
Mitchell dividiu a produção do disco com o engenheiro de som Henry Lewy, seu
parceiro em vários de seus projetos no decorrer da década de 1970.
Graças
a Court
andSpark, Joni Mitchell finalmente se tornou uma
unanimidade de toda a crítica especializada e da maioria do público. Dentre os
famosos que se tornaram fãs incondicionais de seu trabalho está o guitarrista
Jimmy Page, que disse, certa vez, que se emocionava ao ouvir o trabalho de
Joni. No entanto, a própria artista contou um fato interessantíssimo que
resolvemos compartilhar por aqui: quando resolveu tocar o disco
recém-finalizado para ninguém menos que Bob Dylan, o autor de “Like a Rolling
Stone” literalmente caiu no sono durante a audição do álbum, o que deve ter deixado
David Geffen enfurecido.
O
velho ranheta Dylan não deve ter achado o álbum uma obra-prima, mas o apreço do
público e da crítica pelo disco fizeram de Court and Spark um
dos discos essenciais em qualquer coleção de discos em língua inglesa…
JONI MITCHELL – THE HISSING OF SUMMER LAWNS (1975)
Joni Mitchellproduzia intensamente durante a década de 1970 – oito
álbuns em um espaço de 10 anos e que apresentam o que houve de melhor em toda a
sua obra musical. Entre o reconhecimento pleno do público e a aclamação da
crítica com o irretocável Court and
Spark(1974) e o conceitual-existencial Hejira(1976),
está um dos trabalhos mais belos, enigmáticos e profundos de Mitchell, o denso
e ousado The Hissing of Summer Lawns. Lançado em novembro de 1975, este álbum completou quatro
décadas de surgimento em 2015 sem muito alarde e ainda oferecendo um grande
desafio para todos os que decidem ouvir e desvendar este verdadeiro clássico de
Ms. Mitchell, pouquíssimo comentado por aí.
Um acontecimento que gostaria de
compartilhar antes de começar a trazer algumas análises sobre o disco foi de
que este foi o título de Joni que me deu mais trabalho para encontrar e
adquirir. Minha coleção ficou incompleta por um bom tempo graças a este
raro The Hissing of Summer Lawns, que deixou de ser uma raridade inalcançável para mim há cerca de uns
dois anos graças a um santo vendedor de uma loja de discos da Galeria do Rock
que conhecia a obra de Mitchell e me ajudou a ir em busca do clássico perdido.
Se não fosse por aquele santo (e raro!) vendedor de discos – profissão que deve
estar prestes a inexistir nos dias de hoje –, minha discografia de Joni
Mitchell jamais estaria completa!
O álbum que Mitchell lançou em 1975
era, definitivamente, estranho e perde disparado em matéria de estranheza
para Don Juan’s Reckless Daughter(1977) – a tradução livre do
título The Hissing of Summer Lawnspara o
português seria algo como “O Sussurrar das Gramas Verdejantes do Verão”. Porém,
as escolhas incomuns da artista não repercutem na falta de beleza das suas
obras: é um disco belíssimo e que tem o poder de encantar o ouvinte já na primeira
audição. Joni manteve a parceria com o baterista de Jazz John Guerin (seu namorado, na época), que já tinha dado
certo não apenas em Court
and Spark, como também no ótimo disco ao
vivo Miles
of Aisles, retrato sonoro da turnê que a
autora de “Both Sides, Now!” fez com o grupo L.A. Express (grupo do qual Guerin
fazia parte) no decorrer de 1974.
Além disto, Joni Mitchell contou com
as valiosas colaborações de James Taylor (violão e backing vocais), da dupla
Graham Nash – David Crosby (backing vocais), Robben Ford, Jeff Baxter e Larry
Carlton (guitarras e violões), Victor Feldman e Joe Sample (teclados, piano
Rhodes e piano acústico), dos baixistas Max Bennett e Wilton Felder, dos sopros
de Chuck Findley e Bud Shank e da especialíssima aparição dos Drummers of
Burundi. A produção, mais uma vez, foi fruto de mais uma colaboração entre a
artista canadense e o engenheiro de som Henry Lewy, parceiro de trabalhos
anteriores.
Sonoramente, Hissing manteve a equilibrada e ousadíssima fusão entre Folk, Jazz, World Music e Rock que rendeu popularidade e
respeito a uma das artistas femininas mais importantes da história da música.
As 10 canções do disco não apenas revelam uma artista que estava no auge da
forma enquanto cantora, compositora e instrumentista, mas também apontam o
olhar sagaz e atento de Mitchell em relação ao mundo que ela via em 1975: o
tom mais confessional e várias referências pessoais, ostensivamente
marcantes em álbuns como Clouds (1969), Blue (1971) e For
the Roses(1972)
saía de cena paulatinamente para dar espaço a uma poética marcada pelo que se
convencionou como “filosofia social” e o sarcasmo explícito, já presente em
algumas canções de Court
and Spark(1974).
No entanto, as mudanças musicais e líricas surgidas na obra de Joni Mitchell em
meados dos anos 1970 não deixaram de lado a sensibilidade e a complexidade de
seus versos, característica que sempre encantou e intrigou os críticos de
música dos mais progressistas aos mais conservadores.
A penúltima faixa do disco, “Sweet
Bird” ainda possui alguns traços de confissão e algumas referências
extramusicais (no caso, a peça Sweet Bird
of Youth, do dramaturgo norte-americano Tennesse Williams), porém os versos
que Joni escrevia a partir de meados dos anos 1970 foram contagiados pelo seu
olhar de uma cronista a fim de fazer uma filosofia dos costumes através do
prisma da pintura:
“Sweet Bird
you are
Briefer than a falling star
All these vain promises on beauty jars
Somewhere with your wings on time
You must be laughing
Behind our eyes”
A quarta faixa do álbum, “Don’t
Interrupt the Sorrow”, também aponta a visão cáustica de uma habitante de Bel-Air através das rimas arquitetadas por Joni Mitchell com extremo apuro e
riqueza:
“Truth goes
up in vapors
The steeples lean
Winds of change patriarchs
Snug in your bible belt dreams
God goes up the chimney
Like childhood Santa Claus
The good slaves love the good book
A rebel loves a cause”
Entretanto, é em “Shades Of Scarlett
Conquering” que observamos com mais atenção a influência das artes plásticas e
do cinema na música de Joni Mitchell. Ao descrever a personagem Scarlett (uma
referência direta a Gone with the Wind?)
entre cores e alusões à sétima arte em meio a um arranjo de cordas melancólico,
a artista tenta traçar um retrato detalhado da alma feminina dos tempos de
outrora, com suas ambições e desejos em um mundo dominado por homens:
“Out of the
fire like Catholic saints
Comes Scarlett and her deep complaint
Mimicking tenderness she sees
In sentimental movies
A celluloid rider comes to town
Cinematic lovers sway
Plantations and sweeping ballroom gowns
Take her breath away”
Sempre engajada em relação a cada
detalhe relativo às suas obras, Joni Mitchell se responsabilizou também pela
capa deste disco, baseada em mais uma de suas notáveis ilustrações e pinturas.
Suas canções deste período sempre refletiram o olhar criativo de uma pintora
que traça um retrato paisagístico, não necessariamente de uma poetisa que
descreve estados de sentido. A faixa de abertura do disco, o rock-jazz matador “In France They Kiss
on Main Street”, traça um olhar sobre os amores, paixões e os clichês da
juventude dos anos 1950 de maneira muito afetiva e bem-humorada:
“Downtown
In the pinball arcade
With his head full of pool hall pitches
And songs from the hit parade
He’d be singing “Bye, Bye, Love”
While he’s snacking up the free play
Let those Rock ‘n’ Roll choir boys
Come and carry us away”
“In France
They Kiss on Main Street” foi o único hit single de The Hissing of Summer Lawns. A canção chegou a desfrutar um relativo sucesso entre o final de 1975 e
o início de 1976, teve um vídeo exibido no programa inglês Old Grey Whistle
Test (com direito a uma apresentação elogiosa do host, Bob Harris) que deixa
bem claro para o fã de Mitchell que sua música havia mudado para melhor:
Em meados da década de 1970, Joni se
mudou para uma bela casa em Bel-Air, bairro chique de Los Angeles no qual já
viviam várias celebridades do momento. A sagacidade de Mitchell se alimentava
justamente dos clichês e da superficialidade das relações humanas que permeavam
o high society de Beverly Hills. Os
versos de “The Boho Dance”, por exemplo, salientam o não-lugar de uma artista
sensível em meio ao universo frívolo dos ricos e famosos:
“Like a
priest with a pornographic watch
Looking and longing on the sly
Sure it is stricken from your uniform
But you can’t get it out of your eyes
Nothing is capsulized in me
On either side of town
The streets were never really mine
Not mine these glamour gowns”
Já a segunda faixa do disco, “The
Jungle Line”, é uma homenagem ao pintor Henri Rousseau, um dos ícones do
pós-impressionismo. Mitchell descreve o work
in progress de um artista com inquietações tão genuínas quanto as dela e
conta com a participação dos percussionistas Drummers of Burundi. A presença
das batidas tão marcantes, semelhantes a um ritual tribal, deve ser fruto da
influência sofrida por Joni e John Guerin ao Brasil durante o Carnaval de 1975
– o casal passou pelo Rio de Janeiro e pela Bahia e ficaram encantados com a
cultura local. Os versos da canção refletem a agressividade do tribalismo de
povos remotos, não muito diferente das selvas urbanas com as quais a artista
também mantinha contato:
“In a low-cut
blouse she brings the beer
Rousseau paints a jungle flower behind her ear
Those cannibals – of shock and jive
They’ll eat a working girl like her alive”
As canções de Hissing falam bastante de opressão feminina, de casos amorosos insólitos e
malfadados, geralmente escondidos para debaixo do tapete ou passíveis de serem
desvelados em meio à beleza verdejante da grama em pleno verão. “Edith and the
Kingpin”, terceira faixa do álbum, tornou-se uma das canções mais conhecidas do
repertório de Joni Mitchell, descreve a relação improvável de uma jovem, bela e
inocente com um mafioso perigoso. Os opostos se atraem com tanta volatilidade
que chega até a surpreender a descrição da própria Joni, cujos versos dizem,
com precisão cinematográfica:
“Edith and
the Kingpin
Each with charm to sway
Are staring eye to eye
They dare not look away”
A oitava faixa do disco, o medley que une “Harry’s House” (de Joni)
a “Centerpiece”, canção de Jazz escrita
por Harry Edison e Jon Hendricks em 1958, também revela um relacionamento
tenso. A canção de Mitchell expõe o distanciamento entre os dois amantes, para
que, logo em seguida, os versos do standard
jazzístico adquiram uma acidez mortal na voz de uma cantora que sempre
expôs suas paixões em forma de versos e sons. Embalada pelos solos de piano
incandescente de Joe Sample, pelos sopros e pela bateria de Guerin, Joni
Mitchell destila suas emoções sem o menor traço de censura:
“Yellow checkers
for the kitchen
Climbing ivy for the bath
She lost in House and Gardens
He’s caught up in Chief of Staff
He drifts off into the memory
Of the way she looked in school
With her body oiled and shining
At the public swimming pool”
(Harry’s House)
“The more I’m
with you pretty baby
The more I feel my love increase
I’m building all my dreams around you
Our happiness will never cease
Cause nothing’s any good without you
Baby, you’re my centerpiece”
(Centerpiece)
A crueldade maior operada pelo olhar
sagaz de Joni Mitchell está registrada na faixa-título de seu álbum de 1975.
“The Hissing of Summer Lawns” é uma parceria dela com John Guerin que versa
sobre sexismo, luxúria, solidão obtidos através da dominação mantida pelo poder
financeiro. O luxo e a riqueza podem garantir conforto e status (ou uma
mulher-objeto, tal qual apontam os versos da canção), mas não necessariamente
nos garantem um amor verdadeiro:
“He bought
her a Diamond for her throat
He put her in a ranch house on a hill
She could see the valley barbeques
From her window sill
See the blue pools in the squinting sun
And hear the hissing of summer lawns”
A faixa que encerra The Hissing of Summer Lawnsresume
com a precisão desesperadora de um chiaroscuro a fúria do olhar
panorâmico de Joni Mitchell sobre as relações humanas descritas por ela neste
álbum tão complexo. “Shadows and Light” chega a soar como uma criação
litúrgica, na qual as vozes que se ouvem são as da própria cantora e
compositora multiplicadas com o intuito de simular um coro acompanhado por um
órgão Fafisa. A canção chegou a dar nome a um de seus álbuns mais aclamados
cinco anos depois, baseado na turnê do disco Mingus (1979). De certa maneira, os versos que encerram Hissing dão um bom resumo das dualidades que permeiam as 10 canções que se
alternam em 40 e poucos minutos de duração ao álbum:
“Every
picture has its shadows
And it has some source of light
Blindness blindness and sight
The perils of benefactors
The blessings of parasites
Blindness blindness and sight
Threatened by all things
Devil of cruelty
Drawn to all things
Devil of delight
Mythical devil of the ever-present laws
Governing blindness blindness and sight”
A crítica especializada não poupou
críticas negativas a The Hissing of Summer Lawns na ocasião de seu lançamento, o que chegou a enfurecer Joni na
época. Dentre os pontos negativos que chamaram a minha atenção, foi a
espinafrada do renomado jornalista e escritor Stephen Holden que disse que este
era um disco que deveria ser “lido” para que depois fosse finalmente “ouvido”.
Se levarmos em consideração as considerações de Holden para um mero disco de
música Pop, seu argumento estaria irrefutavelmente correto; porém, ao se tratar
de uma artista extremamente inteligente e provocadora como Joni Mitchell, que
nunca fez música para mero deleite e/ou entretenimento passageiro ou momentâneo
– o que faz com que as afirmações do crítico caírem literalmente por água
abaixo… Apesar da má recepção da crítica, Hissingchegou
a ser indicado ao Grammy do ano seguinte por Melhor Perfomance Vocal Feminina.
Ao completar 40 anos de
surgimento, The Hissing of Summer Lawns merecia um relançamento com versões remasterizadas ou uma edição
especial com sobras de estúdio e/ou faixas demo, que, inclusive, estão
disponíveis pelo YouTube para quem
quiser ouvir. Seria interessante ouvir a própria Joni Mitchell dar um
depoimento sobre um de seus discos mais estranhos e mais simbólicos de sua obra
musical, no entanto o estado de saúde precário da artista (sabe-se que Joni
teve um aneurisma cerebral e ficou entre a vida e morte no decorrer do primeiro
trimestre de 2015 e é só!). Porém, como este é um genuíno Lado B de Ms.
Mitchell, resolvemos resgatá-lo para que você, leitor, possa ouvi-lo e ficar
tão intrigado quanto eu ao reouvir este disco para escrever estas tão suadas
linhas.
Se você ainda não conhece este álbum,
clique no link abaixo e faça uma boa viagem pelos recantos verdejantes e
inquietos de Ms. Roberta Joan Anderson…