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29 de outubro de 2017

TROVA # 140

O EROTISMO SEGUNDO MADONNA
(EROTICA: 25 ANOS DEPOIS)




When you know the notes to sing
You can sing most anything
That’s what my mama told me
(Madonna, 1992)



O mundo andava bastante conturbado em 1992. Vivíamos o auge da 1ª Era Bush com direito a conflitos armados de toda espécie. O Brasil vivia a deposição do primeiro presidente eleito pelo voto através de um impeachment. A AIDS tinha tragado alguns nomes do entretenimento em todo o planeta: enquanto chorávamos a morte de Cazuza, o resto do mundo amargava a partida precoce de Freddie Mercury. Tempos conservadores aqueles. Falar de sexo se restringia apenas à prevenção para que a tal síndrome (que nunca escolheu cor, sexo ou sexualidade) não viesse bater à sua porta. Mencionar prazer sexual ainda era um tabu e tanto no início da década de 1990.



Em outubro de 1992, uma das vozes mais controversas e revolucionárias do mundo do entretenimento resolveu acender o pavio eterno de toda e qualquer discussão em torno de sexo. Madonna já comprara uma quantidade sem tamanho de brigas ao beijar um Cristo negro e tinha dançado freneticamente na frente de cruzes em chamas. Já tinha simulado sexo oral e masturbação durante a turnê Blond Ambition anos antes. Em outras palavras, Madge não precisava de muito pretexto para arranjar confusão, pois seu nome constava no topo da lista negra dos conservadores mais ferrenhos e radicais. Mesmo assim, ela resolveu dobrar a sua artilharia contra a caretice.




Em 20 de outubro de 1992, Madonna deu uma cartada e tanto contra os conservadores e o medo de se falar sobre sexo: Erotica, seu quinto álbum de estúdio, foi lançado simultaneamente com Sex, um coffee table book com fotos artísticas de Steven Meisel no qual o mundo conheceu todos os ângulos possíveis e imagináveis da Rainha do Pop em colorido e em preto e branco. Foi o primeiro empreendimento da artista através do selo multimídia Maverick, ligado à Warner Records. O livro trata de vários tipos de fantasias sexuais com a Pop Star nua ao lado de anônimos e famosos - sexo grupal, relações em locais públicos, ménage a trois, sadomasoquismo e sexo oral são alguns dos temas abordados pela obra. O álbum, por sua vez, trata dos mesmos temas do livro, de maneira bastante França e explícita. Na pele do alter-ego “Dita”, Madonna apresenta uma síntese da importância do prazer durante o sexo em “Erotica”, sua canção-manifesto, uma anti-canção pregando a sacanagem com todas as letras. A missão de Dita era a de ensinar as pessoas a terem uma vida com menos inibição e mais prazer, desmistificando o sadomasoquismo e o sexo oral. E some a este caldeirão fumegante canções sobre obsessão sexual, promiscuidade, confissões de amor e ódio e duas odes contra o preconceito.






Quando a Rainha do Pop se vestiu de Dita, lançou este compêndio sobre o sexo (CD e livro), eu tinha um pouco de mais de 11 anos de idade e estava descobrindo os prazeres da música naquele momento de minha vida. Lembro com clareza do linchamento público sofrido por Madonna e da excitação pública que os fãs sentiam com cada clipe, cada escândalo e com a turnê The Girlie Show, que passou pelo Brasil em novembro de 1993 – até hoje eu me lembro do choque de D. Magaly, minha avó ao ver o número de abertura do espetáculo, no qual uma das bailarinas descia seminua fazendo pole dancing. Apesar do álbum e do show terem recebido críticas favoráveis, os conservadores de plantão não perdoaram Madge por ter tocado em tabus sexuais tão controversos de uma tacada só e a partir de uma perspectiva tão pessoal. Querendo ou não, os anos 1992-1993 foram muito difíceis para a Pop Star por terem lhe imposto uma imagem de degenerada e irresponsável, o que fez com que Erotica fosse o primeiro álbum de Madonna a não atingir o topo das paradas da Billboard.




Apesar de ser um disco adorado pelos fãs, Erotica é, infelizmente, um dos trabalhos mais subestimados de Madonna – creio que foi o primeiro disco com aquele selo “Parental Advisory Label” que eu me lembro de ter visto. Foi um álbum bem menos vendido comparado a True Blue, Like a Prayer e Like a Virgin, porém é o único disco em que a Rainha do Pop trata de sexo, vida, morte, agonia, desejo, liberdade e prazer sexual com tamanha contundência. Para um menino suburbano que estava entrando na adolescência, descobrindo os prazeres da música (e os sexuais também!), as 14 gravações daquele CD se tornaram em um desejo incontrolável de libertação, contestação e de pensar do lado de fora da caixinha que nos impõem para que possamos viver harmoniosamente em sociedade.



Musicalmente falando, Erotica também é uma aula de diversidade musical: seduzida pela Dance Music do início dos anos 1990, como também pela da década de 1970, Madonna se aliou aos produtores Shep Pettibone (com quem fez “Vogue”) e André Betts para a realização de um trabalho que reúne baladas e canções dançantes em ritmo de R & B, Hip Hop, Soul, Jazz, House e uma guitarra flamenca sensacional em “Deeper and Deeper”. Enquanto eu me encantava cada vez mais pela Rainha do Pop, seu som, suas imagens e mutações mil através da extinta MTV Brasil, aprendi algumas lições básicas de como se faz música popular, sem deixar a peteca da qualidade cair.






Além disto, Madonna me ensinou a importância de não temos que depender de ninguém para termos a liberdade de pensar e existir da maneira que for mais conveniente para cada um de nós, sem se prender a quaisquer espécies de amarras morais ou ideológicas. E como ela mesma já nos disse, pobre é aquele que depende do outro para encontrar o seu próprio prazer. Em uma época na qual não podíamos falar de sexo tranquilamente por causa de uma epidemia que varria as pessoas para o vale da morte indistintamente, a Rainha do Pop reinventou a noção de erotismo na música. Graças a sua coragem e ao nosso desejo de liberdade, Erotica não ficará no limbo do esquecimento que os conservadores criaram para nos queimar vivos. Afinal de contas, as genuínas obras de arte não merecem e não podem ser esquecidas...  


10 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 37

JONI MITCHELL – COURT AND SPARK (1974)


1969 foi o ano que colocou Joni Micthell no mapa da música do planeta ao gravar seu segundo disco solo, o minimalista Clouds. Dois anos depois, Blue dava à autora de “Both Sides, Now!” o reconhecimento perante a crítica especializada. Dois anos depois, a bela loura de cabelos longos era uma cantora e compositora famosa, aclamada e reconhecida pela crítica e, apesar de cult, não era absurdamente popular.
No decorrer de 1973, Joni Mitchell estava em busca de novos rumos para a sua música: cansada das amarras da Folk Music, decidiu buscar no Rock, no Jazz e no próprio Folk a gênese para o seu sexto projeto fonográfico. Decidiu ouvir músicos de Jazz de primeira linha – em uma noite foi ouvir o conjunto LA Express ao vivo e se encantou com a sonoridade do baterista John Guerin e seus companheiros de palco. Guerin, um purista do Jazz, chegou a torcer o nariz para Joni em um primeiro momento para logo reconhecer o talento indiscutível da mocinha, de quem se enamorou tempos depois.

John Guerin & Joni Mitchell

Em Janeiro de 1974, Joni lançou o disco mais importante de toda a sua obra: Court and Spark não só agradou a crítica, como também foi seu o disco mais vendido de toda a sua carreira e considerado um dos melhores álbuns daquele ano. “Help Me” e “Free Man in Paris” se tornaram em sucessos radiofônicos instantâneos. A mistura bem dosada de estilos musicais foi o grande fator que fez com que a obra de Joni Mitchell fosse de encontro com o grande público. Logo em seguida, a canadense saiu em turnê com os músicos do LA Express, o que resultou em Miles of Aisles, um belo registro da passagem da tour por Los Angeles.



No entanto, enganam-se aqueles que acreditaram que os versos de Joni se tornaram açucarados para conquistar o apreço da crítica e do público. Na verdade, sua poética de nunca estivera tão ácida e crítica como naqueles tempos. Na faixa-título, ao falar sobre o amor e à impossibilidade de escapar das tentações do mundo material (Los Angeles), dizia Joni: “His eyes were the color of the sand / And the sea / And the more he talked to me / The more he reached me / But I couldn’t let go of L.A. / City of the fallen angels”.


Em “Free Man in Paris”, ao criar um personagem-narrador baseado no executivo da indústria fonográfica David Geffen, Joni Mitchell filosofava, sarcasticamente: “The way I see it he said / You just can’t win it / Everybody’s in it for their own gain / You can’t please ’em all / There’s always somebody calling you down / I do my best / And I do good business / There’s a lot of people asking for my time / They’re trying to get ahead / They’re trying to be a good friend of mine”.


Por fim, em “Trouble Child”, Mitchell dispara, sem a menor dó: “Well some are going to knock you / And some’ll try to clock you / You know it’s really hard / To talk sense to you / Trouble child /Breaking like the waves at Malibu”. O universo que se desvela através de cada uma das 11 canções do disco (10 de autoria de Joni, 1 cover) é composto de um certo pessimismo, de certeira desilusão perante as pessoas e o mundo e de a única solução restante é rir diante dos problemas e das adversidades – o cover de “Twisted” e a interpretação esquizofrênica de Joni para a composição de Annie Ross, Dave Lambert e Jon Hendricks dá a impressão de que a única coisa que nos resta é dar uma boa risada diante do caos iminente. Afinal, é melhor optar pelo riso sarcástico e crítico do que pelo choro desesperado que não acrescentaria nada ao nosso sofrer…


O lendário grupo L.A. Express, que acompanhou Joni em sua turnê de 1974

Vale um parágrafo com uma menção honrosa para o time de músicos primorosos reunidos por Joni Mitchell neste disco: além do talento indiscutível de John Guerin à frente da bateria e da percussão, Tom Scott ficou responsável por todos os sopros, Wilton Felder tocou baixo, Larry Carlton ficou com a guitarra elétrica, Joe Sample tocou o piano elétrico em “Raised on Robbery”, David Crosby fez backing vocais em “Free Man in Paris” e “Down to You”, Graham Nash também fez os seus backing vocais em “Free Man in Paris”, os guitarristas Wayne Perkins e Robbie Robertson fizeram participações especiais em “Car on a Hill” e “Raised on Robbery” e a própria Joni Mitchell fez boa parte das vozes, tocou violão, piano e o clavinet da faixa “Down to You”, além de outros músicos. Além disto, Mitchell dividiu a produção do disco com o engenheiro de som Henry Lewy, seu parceiro em vários de seus projetos no decorrer da década de 1970.


Graças a Court and Spark, Joni Mitchell finalmente se tornou uma unanimidade de toda a crítica especializada e da maioria do público. Dentre os famosos que se tornaram fãs incondicionais de seu trabalho está o guitarrista Jimmy Page, que disse, certa vez, que se emocionava ao ouvir o trabalho de Joni. No entanto, a própria artista contou um fato interessantíssimo que resolvemos compartilhar por aqui: quando resolveu tocar o disco recém-finalizado para ninguém menos que Bob Dylan, o autor de “Like a Rolling Stone” literalmente caiu no sono durante a audição do álbum, o que deve ter deixado David Geffen enfurecido.



O velho ranheta Dylan não deve ter achado o álbum uma obra-prima, mas o apreço do público e da crítica pelo disco fizeram de Court and Spark um dos discos essenciais em qualquer coleção de discos em língua inglesa…


28 de dezembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 13

JONI MITCHELL – THE HISSING OF SUMMER LAWNS (1975)


Joni Mitchell produzia intensamente durante a década de 1970 – oito álbuns em um espaço de 10 anos e que apresentam o que houve de melhor em toda a sua obra musical. Entre o reconhecimento pleno do público e a aclamação da crítica com o irretocável Court and Spark (1974) e o conceitual-existencial Hejira (1976), está um dos trabalhos mais belos, enigmáticos e profundos de Mitchell, o denso e ousado The Hissing of Summer Lawns. Lançado em novembro de 1975, este álbum completou quatro décadas de surgimento em 2015 sem muito alarde e ainda oferecendo um grande desafio para todos os que decidem ouvir e desvendar este verdadeiro clássico de Ms. Mitchell, pouquíssimo comentado por aí.


Um acontecimento que gostaria de compartilhar antes de começar a trazer algumas análises sobre o disco foi de que este foi o título de Joni que me deu mais trabalho para encontrar e adquirir. Minha coleção ficou incompleta por um bom tempo graças a este raro The Hissing of Summer Lawns, que deixou de ser uma raridade inalcançável para mim há cerca de uns dois anos graças a um santo vendedor de uma loja de discos da Galeria do Rock que conhecia a obra de Mitchell e me ajudou a ir em busca do clássico perdido. Se não fosse por aquele santo (e raro!) vendedor de discos – profissão que deve estar prestes a inexistir nos dias de hoje –, minha discografia de Joni Mitchell jamais estaria completa!


O álbum que Mitchell lançou em 1975 era, definitivamente, estranho e perde disparado em matéria de estranheza para Don Juan’s Reckless Daughter (1977) – a tradução livre do título The Hissing of Summer Lawns para o português seria algo como “O Sussurrar das Gramas Verdejantes do Verão”. Porém, as escolhas incomuns da artista não repercutem na falta de beleza das suas obras: é um disco belíssimo e que tem o poder de encantar o ouvinte já na primeira audição. Joni manteve a parceria com o baterista de Jazz John Guerin (seu namorado, na época), que já tinha dado certo não apenas em Court and Spark, como também no ótimo disco ao vivo Miles of Aisles, retrato sonoro da turnê que a autora de “Both Sides, Now!” fez com o grupo L.A. Express (grupo do qual Guerin fazia parte) no decorrer de 1974.


Além disto, Joni Mitchell contou com as valiosas colaborações de James Taylor (violão e backing vocais), da dupla Graham Nash – David Crosby (backing vocais), Robben Ford, Jeff Baxter e Larry Carlton (guitarras e violões), Victor Feldman e Joe Sample (teclados, piano Rhodes e piano acústico), dos baixistas Max Bennett e Wilton Felder, dos sopros de Chuck Findley e Bud Shank e da especialíssima aparição dos Drummers of Burundi. A produção, mais uma vez, foi fruto de mais uma colaboração entre a artista canadense e o engenheiro de som Henry Lewy, parceiro de trabalhos anteriores.


Sonoramente, Hissing manteve a equilibrada e ousadíssima fusão entre FolkJazzWorld Music e Rock que rendeu popularidade e respeito a uma das artistas femininas mais importantes da história da música. As 10 canções do disco não apenas revelam uma artista que estava no auge da forma enquanto cantora, compositora e instrumentista, mas também apontam o olhar sagaz e atento de Mitchell em relação ao mundo que ela via em 1975: o  tom mais confessional e várias referências pessoais, ostensivamente marcantes em álbuns como Clouds (1969), Blue (1971) e For the Roses (1972) saía de cena paulatinamente para dar espaço a uma poética marcada pelo que se convencionou como “filosofia social” e o sarcasmo explícito, já presente em algumas canções de Court and Spark (1974). No entanto, as mudanças musicais e líricas surgidas na obra de Joni Mitchell em meados dos anos 1970 não deixaram de lado a sensibilidade e a complexidade de seus versos, característica que sempre encantou e intrigou os críticos de música dos mais progressistas aos mais conservadores.


A penúltima faixa do disco, “Sweet Bird” ainda possui alguns traços de confissão e algumas referências extramusicais (no caso, a peça Sweet Bird of Youth, do dramaturgo norte-americano Tennesse Williams), porém os versos que Joni escrevia a partir de meados dos anos 1970 foram contagiados pelo seu olhar de uma cronista a fim de fazer uma filosofia dos costumes através do prisma da pintura:


“Sweet Bird you are
Briefer than a falling star
All these vain promises on beauty jars
Somewhere with your wings on time
You must be laughing
Behind our eyes”

A quarta faixa do álbum, “Don’t Interrupt the Sorrow”, também aponta a visão cáustica de uma habitante de Bel-Air através das rimas arquitetadas por Joni Mitchell com extremo apuro e riqueza:


“Truth goes up in vapors
The steeples lean
Winds of change patriarchs
Snug in your bible belt dreams
God goes up the chimney
Like childhood Santa Claus
The good slaves love the good book
A rebel loves a cause”

Entretanto, é em “Shades Of Scarlett Conquering” que observamos com mais atenção a influência das artes plásticas e do cinema na música de Joni Mitchell. Ao descrever a personagem Scarlett (uma referência direta a Gone with the Wind?) entre cores e alusões à sétima arte em meio a um arranjo de cordas melancólico, a artista tenta traçar um retrato detalhado da alma feminina dos tempos de outrora, com suas ambições e desejos em um mundo dominado por homens:


“Out of the fire like Catholic saints
Comes Scarlett and her deep complaint
Mimicking tenderness she sees
In sentimental movies
A celluloid rider comes to town
Cinematic lovers sway
Plantations and sweeping ballroom gowns
Take her breath away”

Sempre engajada em relação a cada detalhe relativo às suas obras, Joni Mitchell se responsabilizou também pela capa deste disco, baseada em mais uma de suas notáveis ilustrações e pinturas. Suas canções deste período sempre refletiram o olhar criativo de uma pintora que traça um retrato paisagístico, não necessariamente de uma poetisa que descreve estados de sentido. A faixa de abertura do disco, o rock-jazz matador “In France They Kiss on Main Street”, traça um olhar sobre os amores, paixões e os clichês da juventude dos anos 1950 de maneira muito afetiva e bem-humorada:

“Downtown
In the pinball arcade
With his head full of pool hall pitches
And songs from the hit parade
He’d be singing “Bye, Bye, Love”
While he’s snacking up the free play
Let those Rock ‘n’ Roll choir boys
Come and carry us away”

“In France They Kiss on Main Street” foi o único hit single de The Hissing of Summer Lawns. A canção chegou a desfrutar um relativo sucesso entre o final de 1975 e o início de 1976, teve um vídeo exibido no programa inglês Old Grey Whistle Test (com direito a uma apresentação elogiosa do host, Bob Harris) que deixa bem claro para o fã de Mitchell que sua música havia mudado para melhor:


Em meados da década de 1970, Joni se mudou para uma bela casa em Bel-Air, bairro chique de Los Angeles no qual já viviam várias celebridades do momento. A sagacidade de Mitchell se alimentava justamente dos clichês e da superficialidade das relações humanas que permeavam o high society de Beverly Hills. Os versos de “The Boho Dance”, por exemplo, salientam o não-lugar de uma artista sensível em meio ao universo frívolo dos ricos e famosos:


“Like a priest with a pornographic watch
Looking and longing on the sly
Sure it is stricken from your uniform
But you can’t get it out of your eyes
Nothing is capsulized in me
On either side of town
The streets were never really mine
Not mine these glamour gowns”

Já a segunda faixa do disco, “The Jungle Line”, é uma homenagem ao pintor Henri Rousseau, um dos ícones do pós-impressionismo. Mitchell descreve o work in progress de um artista com inquietações tão genuínas quanto as dela e conta com a participação dos percussionistas Drummers of Burundi. A presença das batidas tão marcantes, semelhantes a um ritual tribal, deve ser fruto da influência sofrida por Joni e John Guerin ao Brasil durante o Carnaval de 1975 – o casal passou pelo Rio de Janeiro e pela Bahia e ficaram encantados com a cultura local. Os versos da canção refletem a agressividade do tribalismo de povos remotos, não muito diferente das selvas urbanas com as quais a artista também mantinha contato:

“In a low-cut blouse she brings the beer
Rousseau paints a jungle flower behind her ear
Those cannibals – of shock and jive
They’ll eat a working girl like her alive”

As canções de Hissing falam bastante de opressão feminina, de casos amorosos insólitos e malfadados, geralmente escondidos para debaixo do tapete ou passíveis de serem desvelados em meio à beleza verdejante da grama em pleno verão. “Edith and the Kingpin”, terceira faixa do álbum, tornou-se uma das canções mais conhecidas do repertório de Joni Mitchell, descreve a relação improvável de uma jovem, bela e inocente com um mafioso perigoso. Os opostos se atraem com tanta volatilidade que chega até a surpreender a descrição da própria Joni, cujos versos dizem, com precisão cinematográfica:


“Edith and the Kingpin
Each with charm to sway
Are staring eye to eye
They dare not look away”

A oitava faixa do disco, o medley que une “Harry’s House” (de Joni) a “Centerpiece”, canção de Jazz escrita por Harry Edison e Jon Hendricks em 1958, também revela um relacionamento tenso. A canção de Mitchell expõe o distanciamento entre os dois amantes, para que, logo em seguida, os versos do standard jazzístico adquiram uma acidez mortal na voz de uma cantora que sempre expôs suas paixões em forma de versos e sons. Embalada pelos solos de piano incandescente de Joe Sample, pelos sopros e pela bateria de Guerin, Joni Mitchell destila suas emoções sem o menor traço de censura:


“Yellow checkers for the kitchen
Climbing ivy for the bath
She lost in House and Gardens
He’s caught up in Chief of Staff
He drifts off into the memory
Of the way she looked in school
With her body oiled and shining
At the public swimming pool”
(Harry’s House)

“The more I’m with you pretty baby
The more I feel my love increase
I’m building all my dreams around you
Our happiness will never cease
Cause nothing’s any good without you
Baby, you’re my centerpiece”
(Centerpiece)

A crueldade maior operada pelo olhar sagaz de Joni Mitchell está registrada na faixa-título de seu álbum de 1975. “The Hissing of Summer Lawns” é uma parceria dela com John Guerin que versa sobre sexismo, luxúria, solidão obtidos através da dominação mantida pelo poder financeiro. O luxo e a riqueza podem garantir conforto e status (ou uma mulher-objeto, tal qual apontam os versos da canção), mas não necessariamente nos garantem um amor verdadeiro:


“He bought her a Diamond for her throat
He put her in a ranch house on a hill
She could see the valley barbeques
From her window sill
See the blue pools in the squinting sun
And hear the hissing of summer lawns”

A faixa que encerra The Hissing of Summer Lawns resume com a precisão desesperadora de um chiaroscuro a fúria do olhar panorâmico de Joni Mitchell sobre as relações humanas descritas por ela neste álbum tão complexo. “Shadows and Light” chega a soar como uma criação litúrgica, na qual as vozes que se ouvem são as da própria cantora e compositora multiplicadas com o intuito de simular um coro acompanhado por um órgão Fafisa. A canção chegou a dar nome a um de seus álbuns mais aclamados cinco anos depois, baseado na turnê do disco Mingus (1979). De certa maneira, os versos que encerram Hissing dão um bom resumo das dualidades que permeiam as 10 canções que se alternam em 40 e poucos minutos de duração ao álbum:


“Every picture has its shadows
And it has some source of light
Blindness blindness and sight
The perils of benefactors
The blessings of parasites
Blindness blindness and sight
Threatened by all things
Devil of cruelty
Drawn to all things
Devil of delight
Mythical devil of the ever-present laws
Governing blindness blindness and sight”


A crítica especializada não poupou críticas negativas a The Hissing of Summer Lawns na ocasião de seu lançamento, o que chegou a enfurecer Joni na época. Dentre os pontos negativos que chamaram a minha atenção, foi a espinafrada do renomado jornalista e escritor Stephen Holden que disse que este era um disco que deveria ser “lido” para que depois fosse finalmente “ouvido”. Se levarmos em consideração as considerações de Holden para um mero disco de música Pop, seu argumento estaria irrefutavelmente correto; porém, ao se tratar de uma artista extremamente inteligente e provocadora como Joni Mitchell, que nunca fez música para mero deleite e/ou entretenimento passageiro ou momentâneo – o que faz com que as afirmações do crítico caírem literalmente por água abaixo… Apesar da má recepção da crítica, Hissing chegou a ser indicado ao Grammy do ano seguinte por Melhor Perfomance Vocal Feminina.
Ao completar 40 anos de surgimento, The Hissing of Summer Lawns merecia um relançamento com versões remasterizadas ou uma edição especial com sobras de estúdio e/ou faixas demo, que, inclusive, estão disponíveis pelo YouTube para quem quiser ouvir. Seria interessante ouvir a própria Joni Mitchell dar um depoimento sobre um de seus discos mais estranhos e mais simbólicos de sua obra musical, no entanto o estado de saúde precário da artista (sabe-se que Joni teve um aneurisma cerebral e ficou entre a vida e morte no decorrer do primeiro trimestre de 2015 e é só!). Porém, como este é um genuíno Lado B de Ms. Mitchell, resolvemos resgatá-lo para que você, leitor, possa ouvi-lo e ficar tão intrigado quanto eu ao reouvir este disco para escrever estas tão suadas linhas.


Se você ainda não conhece este álbum, clique no link abaixo e faça uma boa viagem pelos recantos verdejantes e inquietos de Ms. Roberta Joan Anderson…