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7 de fevereiro de 2021

TROVA # 161

A CORRENTE QUE NUNCA QUEBRA

Algumas coisinhas sobre o Fleetwood Mac...

Listen to the wind blow

down comes the night

 Running in the shadows

damn your love, damn the lies

Break the silence

damn the dark, damn the light

(Mick Fleetwood, John McVie, Christine McVie,

Lindsey Buckingham & Stevie Nicks, 1977)



            As novelas de TV deixaram de ser meu programa preferido quando entrei no final da adolescência, já no final da década de 1990. Com a desculpa da vida adulta e dos compromissos que já tinha por conta dos meus primeiros anos de faculdade, deixei de prestar atenção nos folhetins de televisão, com suas tramas e estereótipos repetitivos. Nada contra mestres do gênero como Silvio de Abreu, João Emanuel Carneiro ou Aguinaldo Silva, mas, em tempos de hormônios e paixões em estado de efervescência, só prestava atenção nas aberturas das novelas e olhe lá...

            Eis que, anos depois, já imerso nos prazeres e desprazeres da vida adulta, estava com a TV ligada esperando o início de mais uma novela de Aguinaldo Silva no horário nobre da TV Globo quando ouço algo bastante familiar: as batidas de um bumbo e um riff de violão, compondo algo quase hipnótico. Em questão de segundos, reconheci a introdução de “The Chain” (1977), uma das canções mais importantes de todo o repertório do Fleetwood Mac, tema escolhido para a abertura da novela O Sétimo Guardião (2018), última novela de Aguinaldo na Globo. A trama em si, aparentemente interessante, misturava realismo mágico e algumas tintas de mistério, mas se perdeu em milhares de enganos, mas tinha uma trilha de abertura cativante.


            Foi em meados dos anos 1990 que eu descobri um vício irremediável: o de ser completamente diferente dos meus companheiros de geração. Com 16 anos de idade, ao invés de prestar atenção no que havia de mais comum nas tendências musicais, eu ouvia a Antena 1 Rádio FM, mesma estação de rádio que meus pais e avós ouviam. Graças à programação daquela rádio vintage, descobri o Fleetwood Mac entre uma canção empoeirada e outra não tão antiga assim. Enquanto o mundo queria ouvir Puffy Daddy, “Barbie Girl” ou o último sucesso das Spice Girls, eu queria ouvir o significado por trás dos versos de canções como “Dreams” ou “You Make Loving Fun”.


            Aos poucos descobri que as canções do Fleetwood Mac que eu ouvia por aí foram gravadas pela sua formação clássica (a banda teve algumas outras antes de ser um fenômeno de vendas) – Mick Fleetwood: bateria; John McVie: baixo; Christine McVie: piano, teclados e vocais; Lindsey Buckingham: guitarras; Stevie Nicks: vocais. Induzido pelo gosto musical dos adultos da família, encontrei um CD de sucessos da banda em uma loja de discos perto de casa e fui reconhecendo cada uma das melodias que ouvíamos em casa, no carro, na casa dos meus avós, nos passeios de carro etc. No final da década de 1990, a banda preferida do ex-presidente norte-americano Bill Clinton gravou um especial de TV para a MTV norte-americana, reunindo Fleetwood, Buckingham, Nicks e os McVie depois de uma década, despertando ainda mais meu interesse, já que a banda passou a ser uma presença (ainda que bissexta) na programação da MTV Brasil.



 

            Não creio na existência de outra banda na história do Rock que possua tantas brigas e disputas internas como o Fleetwood Mac. Perto deles, Mick Jagger e Keith Richards seriam apenas duas velhas comadres que brigavam de vez em quando, enquanto os Beatles seriam quatro rapazes fofinhos e bem-comportados de Liverpool. Nem o talento indiscutível de Fleetwood, Bukingham, Nicks e dos McVie conseguiu combater os excessos do uso de drogas, os egos imensos dos músicos, além das separações dos casais (Stevie Nicks e Lindsey Buckingham, antes de integrarem o grupo, tinham uma tórrida relação de amor; John e Christine McVie, como indicam o sobrenome em comum, eram casados até meados da década de 1970). Pelo contrário: os cinco músicos aproveitaram as separações, as frustrações e as juras de amor e ódio que havia entre eles para dar vida ao que existia de mais revigorante em matéria de repertório. Além disso, a banda tinha o diferencial inigualável de ter duas mulheres cantoras e compositoras à frente do grupo, fazendo de Stevie Nicks e Christine McVie duas estrelas de primeiríssima grandeza.

             A pedra fundamental da obra do Fleetwood Mac é Rumours, álbum lançado em 1977 que basicamente retrata os prazeres, as dores, as loucuras e as separações dos membros da banda. Lançado após Fleetwood Mac (1975) e antecessor do ambicioso Tusk (1979), as onze canções do disco reúnem clássicos do grupo como “Dreams” (Nicks), “Go Your Own Way” (Buckingham) e “You Make Your Loving Fun” (C. McVie). Cada verso retrata um tesão reprimido, uma frustração evidente, um ódio declarado, um amor desavergonhado: já que nada deu certo, o jeito é seguir o seu próprio caminho e descobrir que esse tal de amor pode ser até um sonho divertido. Em “Silver Springs”, canção de Stevie Nicks que não foi incluída em Rumours, há um tom de ameaça: a mulher amada vai perseguir e aterrorizar o seu amado até o momento de receber uma segunda chance – sim, o sentimento amoroso pode ser profundamente bélico, às vezes. Se quisermos entender a segunda metade da década de 1970 no Rock, basta ouvir os clássicos do Fleetwood Mac e Hotel California (1976), dos Eagles, para compreender a essência de uma filosofia de vida que estava de acordo com o hedonismo e o individualismo que se tornaram a regra das relações de tantos músicos desde então.


            O Fleetwood Mac, apesar das mil tempestades que sempre temperaram sua música, conseguiu sobreviver com o passar das décadas de 1970, 1980 e 1990, mantendo-se como uma das maiores atrações internacionais de todos os tempos. O vai e vem de alguns integrantes chegou a comprometer a magia da banda – Lindsey Buckingham chegou a deixar a banda em 1987 e retornou 10 anos depois; Christine McVie deixou o grupo no final dos anos 1990 e voltou quase 20 anos depois –, mas não apagou o mito em torno da obra. Após uma bem-sucedida turnê entre os anos de 2016 e 2017, o guitarrista entrou em uma série de embates com seus colegas de banda e abandonou os companheiros mais uma vez em meados de 2018 – as más línguas dizem que o lendário guitarrista foi demitido pelo telefone por causa da eterna disputa de egos com Stevie Nicks, sua ex-mulher e ex-companheira de banda, que não quer vê-lo nem pintado de ouro. Tempos depois, soube-se que Buckingham teve um ataque cardíaco quase fatal, talvez por conta do desgosto...


            Com o passar do tempo, novas e velhas confusões continuam surgindo em torno do Fleetwood Mac. Juntos ou separados, brigando ou se amando, os membros da banda sempre farão parte da velha corrente que os mantém unidos, a corrente musical que, mesmo diante das intempéries mais avassaladoras, não quebra jamais. Mesmo quando os eventos no entorno exigem a sua desintegração, a música os une...



29 de outubro de 2017

TROVA # 140

O EROTISMO SEGUNDO MADONNA
(EROTICA: 25 ANOS DEPOIS)




When you know the notes to sing
You can sing most anything
That’s what my mama told me
(Madonna, 1992)



O mundo andava bastante conturbado em 1992. Vivíamos o auge da 1ª Era Bush com direito a conflitos armados de toda espécie. O Brasil vivia a deposição do primeiro presidente eleito pelo voto através de um impeachment. A AIDS tinha tragado alguns nomes do entretenimento em todo o planeta: enquanto chorávamos a morte de Cazuza, o resto do mundo amargava a partida precoce de Freddie Mercury. Tempos conservadores aqueles. Falar de sexo se restringia apenas à prevenção para que a tal síndrome (que nunca escolheu cor, sexo ou sexualidade) não viesse bater à sua porta. Mencionar prazer sexual ainda era um tabu e tanto no início da década de 1990.



Em outubro de 1992, uma das vozes mais controversas e revolucionárias do mundo do entretenimento resolveu acender o pavio eterno de toda e qualquer discussão em torno de sexo. Madonna já comprara uma quantidade sem tamanho de brigas ao beijar um Cristo negro e tinha dançado freneticamente na frente de cruzes em chamas. Já tinha simulado sexo oral e masturbação durante a turnê Blond Ambition anos antes. Em outras palavras, Madge não precisava de muito pretexto para arranjar confusão, pois seu nome constava no topo da lista negra dos conservadores mais ferrenhos e radicais. Mesmo assim, ela resolveu dobrar a sua artilharia contra a caretice.




Em 20 de outubro de 1992, Madonna deu uma cartada e tanto contra os conservadores e o medo de se falar sobre sexo: Erotica, seu quinto álbum de estúdio, foi lançado simultaneamente com Sex, um coffee table book com fotos artísticas de Steven Meisel no qual o mundo conheceu todos os ângulos possíveis e imagináveis da Rainha do Pop em colorido e em preto e branco. Foi o primeiro empreendimento da artista através do selo multimídia Maverick, ligado à Warner Records. O livro trata de vários tipos de fantasias sexuais com a Pop Star nua ao lado de anônimos e famosos - sexo grupal, relações em locais públicos, ménage a trois, sadomasoquismo e sexo oral são alguns dos temas abordados pela obra. O álbum, por sua vez, trata dos mesmos temas do livro, de maneira bastante França e explícita. Na pele do alter-ego “Dita”, Madonna apresenta uma síntese da importância do prazer durante o sexo em “Erotica”, sua canção-manifesto, uma anti-canção pregando a sacanagem com todas as letras. A missão de Dita era a de ensinar as pessoas a terem uma vida com menos inibição e mais prazer, desmistificando o sadomasoquismo e o sexo oral. E some a este caldeirão fumegante canções sobre obsessão sexual, promiscuidade, confissões de amor e ódio e duas odes contra o preconceito.






Quando a Rainha do Pop se vestiu de Dita, lançou este compêndio sobre o sexo (CD e livro), eu tinha um pouco de mais de 11 anos de idade e estava descobrindo os prazeres da música naquele momento de minha vida. Lembro com clareza do linchamento público sofrido por Madonna e da excitação pública que os fãs sentiam com cada clipe, cada escândalo e com a turnê The Girlie Show, que passou pelo Brasil em novembro de 1993 – até hoje eu me lembro do choque de D. Magaly, minha avó ao ver o número de abertura do espetáculo, no qual uma das bailarinas descia seminua fazendo pole dancing. Apesar do álbum e do show terem recebido críticas favoráveis, os conservadores de plantão não perdoaram Madge por ter tocado em tabus sexuais tão controversos de uma tacada só e a partir de uma perspectiva tão pessoal. Querendo ou não, os anos 1992-1993 foram muito difíceis para a Pop Star por terem lhe imposto uma imagem de degenerada e irresponsável, o que fez com que Erotica fosse o primeiro álbum de Madonna a não atingir o topo das paradas da Billboard.




Apesar de ser um disco adorado pelos fãs, Erotica é, infelizmente, um dos trabalhos mais subestimados de Madonna – creio que foi o primeiro disco com aquele selo “Parental Advisory Label” que eu me lembro de ter visto. Foi um álbum bem menos vendido comparado a True Blue, Like a Prayer e Like a Virgin, porém é o único disco em que a Rainha do Pop trata de sexo, vida, morte, agonia, desejo, liberdade e prazer sexual com tamanha contundência. Para um menino suburbano que estava entrando na adolescência, descobrindo os prazeres da música (e os sexuais também!), as 14 gravações daquele CD se tornaram em um desejo incontrolável de libertação, contestação e de pensar do lado de fora da caixinha que nos impõem para que possamos viver harmoniosamente em sociedade.



Musicalmente falando, Erotica também é uma aula de diversidade musical: seduzida pela Dance Music do início dos anos 1990, como também pela da década de 1970, Madonna se aliou aos produtores Shep Pettibone (com quem fez “Vogue”) e André Betts para a realização de um trabalho que reúne baladas e canções dançantes em ritmo de R & B, Hip Hop, Soul, Jazz, House e uma guitarra flamenca sensacional em “Deeper and Deeper”. Enquanto eu me encantava cada vez mais pela Rainha do Pop, seu som, suas imagens e mutações mil através da extinta MTV Brasil, aprendi algumas lições básicas de como se faz música popular, sem deixar a peteca da qualidade cair.






Além disto, Madonna me ensinou a importância de não temos que depender de ninguém para termos a liberdade de pensar e existir da maneira que for mais conveniente para cada um de nós, sem se prender a quaisquer espécies de amarras morais ou ideológicas. E como ela mesma já nos disse, pobre é aquele que depende do outro para encontrar o seu próprio prazer. Em uma época na qual não podíamos falar de sexo tranquilamente por causa de uma epidemia que varria as pessoas para o vale da morte indistintamente, a Rainha do Pop reinventou a noção de erotismo na música. Graças a sua coragem e ao nosso desejo de liberdade, Erotica não ficará no limbo do esquecimento que os conservadores criaram para nos queimar vivos. Afinal de contas, as genuínas obras de arte não merecem e não podem ser esquecidas...  


30 de setembro de 2013

TROVA # 21


A MÁGICA MTV BRASIL

 



 

“Every little thing she does is magic

Everything she do she turns me on

Even though my life before was tragic

Now I know my love for her goes on …”

(Sting, à frente do The Police – 1981)

 

No início da década de 1990, briguei com unhas e dentes pelo que Sting, em férias do The Police, pedia no início do famoso hit do Dire Straits: “I want my MTV!”. A partir de outubro de 2013, serei mais um dentre vários órfãos da MTV Brasil. A Music Television brasileira foi mais do que um mero canal de TV ou puro entretenimento para este que vos escreve. Ela teve um papel decisivo na minha educação musical e na minha formação cultural. Graças a ela, tive a oportunidade de fugir do marasmo medíocre e fatal da TV aberta e ter a oportunidade de ver os integrantes do Olimpo musical nacional e internacional em plena atividade.
 

Por outro lado, é também preciso deixar a hipocrisia e o saudosismo para trás: a MTV Brasil dos últimos tempos estava profundamente decadente, cambaleava morbidamente em praça pública, tal qual um Michael Jackson de This Is It ou um Elvis Presley com vários quilos acima do peso. Sua programação não tinha mais o brilhantismo e a inteligência do que víamos nos anos 1990/2000. Os VJs que estavam a cargo da programação não possuíam o mesmo carisma daqueles que um dia revolucionaram a maneira de se fazer TV neste país. Além disto, a propagação viral da Internet, das redes sociais e do You Tube fez com que a nossa Music Television deixasse de ser um celeiro que revelava novos talentos e que consolidava a imagem e o som dos grandes astros nas retinas e ouvidos do grande público jovem brasileiro.
 

Também não podemos nos esquecer da presença sadia do canal no comportamento dos jovens que a assistiam com programas e vinhetas de cunho informativo e educativo – as campanhas de combate à AIDS, as campanhas de conscientização política e a memorável campanha “Desligue a TV e vá ler um livro!” foram alguns dos pontos marcantes da minha memória televisiva emetivesca. E quem não se lembra de programas bárbaros como o Barraco MTV, o Disk MTV, o Top 20 Brasil, o MTV Non Stop, o MTV No Ar, o Supernova, o TVLeeZão, Os Piores Clipes do Mundo, o Furo MTV, o Pé na Cozinha e as cerimônias do Video Music Brasil? Ou do programa que Thunderbird (entre as suas milhares de idas e vindas) comandou em 2003, no qual DOIS novos VJs foram escolhidos? Meus dedos da mão direita também terão uma enorme dificuldade de esquecer o número "25" no dial do controle remoto...
 

Não me esqueço do primeiro videoclipe que assisti quando sintonizava (com muita dificuldade) o canal 24 UHF da TV do meu antigo quarto: “Every Little Thing She Does Is Magic”, do The Police. Enquanto Sting, Andy Summers e Stewart Copeland dançavam como três patetas enlouquecidos, eu tive a oportunidade descobrir que a mágica de cada clipe, de cada vinheta, de cada VJ estava nas pequenas coisinhas. Coisinhas estas que me livraram da solidão típica de qualquer adolescente excêntrico. Não, Xuxa não foi minha babá eletrônica. Sim, a MTV (parcialmente) me educou e me moldou no decorrer dos meus “anos de formação”.
 
 
Modéstia a parte, posso afirmar sem a menor vergonha e com muito orgulho que se não fosse pela MTV Brasil eu jamais teria conhecido os integrantes do The Police (que habitavam minha imaginação desde a tenra infância) em plena atividade, ou não teria vivido o retorno triunfal de Madonna ao mundo Pop com o incensado Ray of Light (1998), os Rolling Stones convertidos em gigantes e dominando uma Nova York com som e luxúria no vídeo de “Love Is Strong” (do antológico Voodoo Lounge, de 1994) ou a reaparição do Blondie depois de quase duas décadas de inatividade com No Exit (1999). Bandas emblemáticas do BritPop e dos EUA como Blur, Oasis, Nirvana, Pearl Jam e Red Hot Chilli Peppers teriam passado incólumes por meus olhos e ouvidos. R.E.M. e 10,000 Maniacs, duas das referências musicais mais importantes para mim, foram apresentados a mim via Music Television. Mestres da música brasileira como Caetano Veloso, Rita Lee (com ou sem Os Mutantes e/ou Roberto de Carvalho), Tom Zé, Itamar Assumpção, Cazuza, Barão Vermelho, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Gilberto Gil, Marina Lima, Cássia Eller, Gal Costa, Nando Reis, Zélia Duncan, Pitty, Zeca Baleiro, Planet Hemp, Chico Science, Fernanda Abreu e tantos outros seriam destituídos de qualquer significado para mim se eu não tivesse brigado pela minha MTV. Gigantes do Rock ‘n’ Roll como os Beatles (juntos ou solo), Led Zeppelin, Janis Joplin, The Black Crowes, Bob Dylan, Queen, Deee-Lite, Talking Heads, Radiohead, Metallica, Bom Jovi, Deep Purple, Black Sabbath (com ou sem Ozzy Osbourne), Garbage, Portishead, Lou Reed, Iggy Pop, Peter Gabriel, Eric Clapton e tantos outros não teriam sequer tamanho de um Gulliver sem a presença de seus videoclipes na TV. O mesmo teria acontecido se artífices do Pop do porte de Alanis Morissette, kd Lang, Prince, Annie Lennox (à frente ou não do Eurythmics), Stevie Wonder, Sheryl Crow, Mariah Carey, Human League, Shakira, Whitney Houston, Janet e/ou Michael Jackson, George Michael, Paula Cole, Fiona Apple, Jamiroquai, Beyoncé e tantos outros não estivessem na programação da MTV um dia. O que teria sido de mim sem a elegância de David Bowie, Bryan Ferry e Natalie Merchant?


Se eu não tivesse tido contato com estes nomes via MTV Brasil, eu jamais saberia distinguir o luxo do lixo em matéria de música popular. Em meio a uma era na qual a Internet, os downloads, o Google e o YouTube não tinham popularidade ou sequer existiam, a Music Television brasileira desempenhou um papel cultural fundamental para pessoas que dependiam das antenas UHF, da TV a cabo e da agilidade do Video Cassette.

 

Astrid Fontenelle: a cara da MTV Brasil
Enquanto muitas pessoas do meu círculo de amizades e contatos profissionais assistiam avidamente as atrações que agitaram o Rock In Rio 2013, eu preferi ficar na solidão do meu quarto assistindo o canto do cisne da MTV Brasil desenterrar imagens de arquivo em sessões de retrospectiva enquanto antigos (ex-)VJs se revezavam na tarefa de relembrar 23 anos de trajetória televisiva. Ao rever pessoas como Astrid Fontenelle, Gastão Moreira, Cuca Lazarotto, Luiz Thunderbird, Sabrina Parlatore, Edgard Piccoli, Soninha Francine, Fábio Massari, Marina Person, João Gordo e Chris Couto no vídeo, foi inevitável sentir um gosto de decepção e saudade. Decepção porque a tentativa brasileira de fazer uma MTV à brasileira, no final das contas, deixou de dar certo. Saudade porque todos sabemos que, a partir de 01 de Outubro de 2013, a MTV feita no Brasil passa a ser uma mera sucursal da original norte-americana, para tristeza de muitos parceiros da minha geração (que viveu o ápice da MTV, no decorrer dos anos 1990).
 

Graças às fitas VHS (hoje mofadas, provavelmente!) que foram convertidas em arquivos do YouTube, podemos assistir a mágica da MTV Brasil na Internet. Assim, podemos resgatar um pedaço de um momento marcante daquela programação incomum, anárquica e (às vezes) bizarra, como também, retomar flashes da nossa própria juventude sem evitar o saudosismo inútil e a lembrança de uma era memorável da televisão brasileira que, por forças do destino, atingiu o estágio final do seu ciclo.

Cheers!