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17 de agosto de 2017

DISCOS DE VINIL # 38

MARISA MONTE – MM (1989)


         Marisa de Azevedo Monte era uma menina graciosa de 21 anos quando desistiu de ser cantora lírica em Roma para se aventurar pelos territórios da música popular. A infância e a adolescência sempre foram marcadas pela música: seu pai, o engenheiro Carlos Saboia Monte foi um dos diretores da Portela, uma das escolas de samba mais tradicionais do Rio de Janeiro. Além disso, Marisa estudou piano, canto e bateria. Aos 12 anos, participou de uma montagem de Rocky Horror Show dirigida por Miguel Falabella.
         Ao retornar de Roma para a Cidade Maravilhosa, Marisa Monte procurou o produtor e compositor Nelson Motta para montar o seu primeiro espetáculo solo. O repertório escolhido pelos dois era bastante abrangente – de Mutantes a Carmen Miranda, passando por Peninha, Luiz Gonzaga, Kurt Weill, Candeia e Waldick Soriano. A turnê, batizada de Veludo Azul, fez com que Marisa cantasse por várias cidades do Brasil durante o ano de 1988, com direito a aparição na mídia da época e o respeito da crítica. Inclassificável, os meios de comunicação a tacharam como uma artista “eclética”, por ter dificuldade em assimilar a diversidade que sempre foi a marca do trabalho da filha de Carlos e Sylvia Monte.


         Os convites das gravadoras para a realização do disco de estreia não faltaram. Depois de várias propostas rejeitadas, Marisa Monte decidiu assinar com a EMI. Com exceção de uma faixa, MM foi gravado ao vivo durante uma apresentação ao vivo em maio de 1988, sem retoques ou recursos de retoques na voz. Uma medida bastante incomum em termos de marketing estratégico de lançamentos de novos artistas, diga-se de passagem.


      MM é composto de 12 canções – 11 regravações e uma adaptação de um sucesso italiano para o português: Nelson Motta adaptou a letra de “E Po' Che Fa”, do italiano Pino Daniele, para o português. “Bem Que Se Quis” se tornou o primeiro sucesso de Marisa Monte e foi uma das mais tocadas nas rádios brasileiras do ano de 1989 e foi tema da personagem de Lúcia Veríssimo na novela O Salvador da Pátria, da TV Globo. A faixa de abertura é uma versão pungente de “Comida”, de Arnaldo Antunes, Sérgio Britto e Marcelo Frommer, uma das canções mais emblemáticas do repertório dos Titãs. Do universo do Rock nacional, Marisa regravou “Ando Meio Desligado”, de Rita Lee e dos irmãos Sérgio e Arnaldo Dias Baptista, um dos números mais importantes do repertório dos Mutantes.


         A terceira faixa do disco é uma regravação de “Chocolate”, uma das canções mais interessantes do repertório de Tim Maia, por quem Marisa Monte sempre considerou como uma de suas principais influências. O jingle de Tim, uma declaração de amor a um dos doces mais adorados pelos seres humanos, foi uma oportunidade e tanto para que Marisa fizesse um protesto a favor da liberação das drogas através dos versos, inclusos por ela:

“Não quero pó
Não quero rapé
Não quero cocaína
Eu só quero chocolate
Só quero chocolate
(Legalize marijuana!)
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber”


         Do mundo do samba, Marisa Monte resgatou três clássicos do gênero: “Preciso Me Encontrar”, uma das criações mais célebres de Candeia, foi um enorme sucesso na voz de Cartola. “Lenda das Sereias, Rainha do Mar” foi um dos temas de samba-enredo mais populares da história do Carnaval carioca. Por fim, “South American Way” (Al Dublin & Jimmy McHugh) é um dos números mais significativos do repertório que fez de Carmen Miranda uma das maiores lendas do showbiz internacional.
         O trunfo principal de MM é a diversidade de ritmos (Rock, Soul, Samba...). A regravação do Forró “O Xote das Meninas”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, em ritmo de Reggae e a versão espetacular de “Negro Gato” (Getúlio Côrtes) em uma levada Blues com pitadas de Samba evidenciam o quanto Marisa Monte é uma cantora versátil, ousada e marcante. Já as três faixas finais do disco são releituras de clássicos da canção em língua inglesa: “I Heard It Through The Grapevine” (Barrett Strong & Norman Whitfield), um dos números mais importantes do repertório de Marvin Gaye; “Bess, You Is My Woman Now”, um dos números mais belos da ária Porgy & Bess, dos irmãos Gershwin, contou com a participação especial do grupo Nouvelle Cuisine; “Speak Low” (Kurt Weill & Ogden Nash), a única faixa gravada em estúdio, é uma homenagem ao estilo de cantar de João Gilberto.


         O disco de estreia de Marisa Monte é o retrato fiel do talento de uma das artistas mais talentosas da música brasileira. Um trabalho que merece ser reouvido para que sempre possamos nos lembrar da beleza do canto de uma das sereias mais belas do Brasil...   


26 de outubro de 2016

DISCOS DE VINIL # 5

MADONNA – LIKE A PRAYER (1989)


O final da década de 1980 prometia uma série de mudanças para a música do planeta. Madonna, uma das protagonistas da música e dos costumes que revolucionaram conceitos e definiram uma era, não estava incólume a tais ventos de renovação.


No final de 1988, Madge tinha acabado de completar 30 anos, vivia um casamento em crise com Sean Penn, tentava uma carreira de atriz séria em Hollywood e na Broadway (sem a mesma repercussão de Desperately Seeking Susan, sua estreia na telona) e via a necessidade de renovar a sua imagem e som. Ou seja, a música Pop de Madonna, que lhe rendeu clássicos como “Everybody”, “Holiday”, “Material Girl” e “Dress You Up” necessitava se tornar mais adulta, menos voltada para as meninas adolescentes que imitavam os figurinos e trejeitos explorados por ela nas turnês dos álbuns Like a Virgin e True Blue. Abordar temáticas mais maduras e menos juvenis tornou-se prioridade para a Pop Star.


A Madonna que surgiu para os olhos do grande público em 1989 tinha sofrido a mutação camaleônica mais radical que aquele espécime poderia ter tido até então. Seus cabelos tinham abandonado a tintura loira platinada de Nikki Finn, sua personagem alter-ego do filme Who’s That Girl?, para assumirem um tom castanho escuro. Seu figurino era, surpreendentemente, mais recatado e discreto – justamente para despistar o mundo da música com a grande revolução que já estava em curso.


O casório com Penn chegava finalmente ao fim com a alegação de “diferenças irreconciliáveis” em janeiro de 1989 quando, na verdade, todos sabiam que Sean era dotado de um ciúme extremamente doentio e que chegava por vezes a bater em fotógrafos e submeter a então esposa em episódios de cárcere privado (isso quando Madonna não apanhava literalmente do então marido).


A chegada aos 30 anos de idade fez com que a perda precoce da mãe (levada pelo câncer pouco depois de ter completado 30 anos de idade) e a relação delicada com o pai se tornassem ainda mais doloridas e agudas e, com tudo isso, junte-se muita sexualidade reprimida pela religiosidade extrema de uma família católica. Eis a atmosfera que fez do álbum Like a Prayer a obra-prima de Lady Madonna até aquele momento.



A faixa-título abre o disco com uma guitarra distorcida, um coral de negros, um órgão Hammond B-3 e Madonna anunciando que a vida é um mistério e que todos nós deveríamos nos manter de pé sozinhos, porém ao ouvir um chamado especial, nos sentimos amparados como se estivéssemos em casa e livres de toda a solidão. A prece de Madonna (uma ode musical ao grupo Sly & The Family Stone) era muito simples, muito direta, porém ninguém tinha ideia do quão seria provocante até ver o vídeo dirigido pela diretora Mary Lambert, a mesma que dirigiu a Pop Star em “Like a Virgin”: Madge aparece como testemunha de um crime cometido por um rapaz negro, depois convertido em santo religioso.


Nenhum problema se Madonna não tivesse aparecido beijando lascivamente este símbolo religioso na boca e muito menos se ela não aparecesse dançando freneticamente à frente de cruzes em chamas proclamando que através da sua prece, sua voz me leva para onde você quiser que eu vá, blá blá blá…


A mídia ficou em estado de choque, as instituições religiosas ficaram revoltadas (o Papa João Paulo II liderou um boicote contra o videoclipe) e a Pepsi – que patrocinaria a próxima turnê mundial da Diva – decidiu cancelar o apoio financeiro milionário e Madonna foi eleita pela MTV americana e outros veículos de mídia da época como a artista da década. O escândalo, mais uma vez, rendeu imensa popularidade à uma das artistas que melhor souberam se utilizar da mídia e do marketing para promover sua imagem e som.


A produção do disco ficou dividida entre Madonna e seus parceiros produtores/compositores Patrick Leonard (geralmente responsável pelas baladas do álbum) e Stephen Bray (que ficou a cargo das faixas mais funky desta coleção) e ainda contou com a participação especial de Prince, que tocou vários instrumentos e ainda dividiu os vocais e os créditos de “Love Song”. Em linhas gerais, Like a Prayer é um marco que redefine os limites do Pop, com as letras mais confessionais que Madge escrevera até então. “Express Yourself” é um hino feminista, que aponta para que as mulheres jamais devem se satisfazer com a possibilidade de ficar em segundo plano. “Oh Father” e “Promise to Try” são duas baladas tristíssimas e respectivamente dedicadas ao seu pai e à sua mãe. Já “Keep it Together”, parceria dela com Bray, é uma ode à toda sua família (a Pop Star possui um total de sete irmãos e meio-irmãos).




Like a Prayer rendeu seis singles de sucesso para Madonna: “Like a Prayer”, “Express Yourself”, “Cherish” – que contou com um videoclipe antológico em preto e branco dirigido pelo fotógrafo de moda Herb Ritts), “Oh Father”, “Dear Jessie” (cantiga infantil dedicada à filha de Patrick Leonard) e “Keep it Together”. “Till Death Do Us Part” é uma mensagem clara e feroz ao já ex-marido Sean Penn, “Spanish Eyes” toca no ainda tema tabu da AIDS, que já tinha começado a dizimar milhares de pessoas ao redor do mundo e “Act of Contriction” mistura trechos da Bíblia Sagrada com monólogos de Madonna com a guitarra de Prince e lobos de vocalises do Andrae Crouch Choir (que cantou na faixa-título) em dois minutos e dezenove segundos de delírio religioso.






A partir de 1989, o mundo passou a olhar para Madonna não apenas como uma mulher que realmente tinha o poder de influenciar pessoas, mas principalmente como o de uma Pop Star que iria mudar o mundo. Like a Prayer foi a jogada fundamental para que Madge redefinisse as noções de imagem e entretenimento: quem quisesse fazer parte deste mundo, deveria seguir os rastilhos de pólvora deixados por esta baixinha saída de Bay City, Michigan, para invadir as casas de todo o planeta e rezar o seu credo.


Por isso, prepare os seus ouvidos e o seu coração e ouça/veja/sinta a Paixão segundo Madonna…