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7 de fevereiro de 2018

TROVA # 145

BREVE MANUAL DE ETIQUETA PARA PLATEIAS DE SHOWS


         Um dia eu ainda irei escrever um livro para satisfazer as demandas do mercado. Quem sabe um desses manuais de moda e etiqueta ao estilo da Glória Kalil só que aplicado aos eventos musicais, porém com muita ironia e o deboche que me cabem neste latifúndio cibernético.
         Os principais eventos de um artista que se aventura pelo universo da música são os shows. Neste momento, o público possui a tão esperada oportunidade de ver a banda, o cantor ou a cantora de que tanto gosta no exercício de sua arte em carne e osso. Se existe a chance de ouro de ir até o camarim e estar com o seu ídolo face-to-face, você ainda pode trocar algumas palavrinhas com ele, tirar uma foto e pegar um autógrafo.
         Com o advento dos smart phones e das redes sociais, uma parcela do público de shows literalmente perdeu algumas noções básicas de bons modos e civilidade enquanto o artista faz o seu trabalho perante a plateia. Por isso, aproveito esta chance para fazer um TOP 10 dos comportamentos mais desagradáveis em shows:

    1) CHECAR REDES SOCIAIS DURANTE A APRESENTAÇÃO – É simplesmente inacreditável que os detentores de ingressos dediquem o seu tempo e dinheiro enquanto plateia para checar os chats do WhatsApp, os likes e DMs do Instagram, as transmissões ao vivo do Snapchat, Instastories e do Facebook. Além do fato de que o olho humano se desloca para lente da câmera e/ou para o visor do celular e de que a luminosidade e os ruídos dos telefones incomodam a concentração dos demais.

        2) TIRAR FOTOS E FILMAR O SHOW INTEIRO COM CÂMERAS, TABLETS E CELULARES – Não há coisa mais tosca, cafona do que posar para uma lente fotográfica com a cara mais feliz do planeta enquanto um músico se apresenta para uma plateia. Selfies em shows são o que há de mais brega em matéria de comportamento humano: dois ou mais animadinhos sempre incomodam aqueles que estão dispostos a desfrutar de uma boa música ao vivo.
Lembro, certa vez, de um surto que tive com uma louca que queria porque queria que eu interrompesse todas as atividades para tirar uma foto comigo e com meus amigos durante um show de Zélia Duncan. Em outra ocasião, tive que disputar terreno em uma plateia do SESC Itaquera para não derrubar um tripé de filmadora que estava estrategicamente posicionada para a filmagem de um show inteiro: não era a TV SESC, era um fã obcecado que achou mais importante ter que filmar tudo...
Deixar os outros em posição desconfortável por causa de um capricho tão egoísta – tirar fotos e filmar – é de uma insensibilidade sem tamanho. Restringir a liberdade alheia por um desejo seu é o cúmulo do ridículo...

3) CONVERSAR COM QUEM ESTÁ AO LADO DURANTE O SHOW – Certas pessoas se comportam em locais de show como se estivessem em estádios de futebol. Apenas se esquecem de que os músicos estão longe de serem craques da bola e de que cada número do setlist não é um lance futebolístico digno de análise ou comentário. Por isso, para que raios agem como se fossem o Neto ou o Galvão Bueno?!
Não me esqueço de um show de Angela Rô Rô no Teatro FECAP no qual um casal sentado atrás de mim comentava as piadas e canções daquele dia como se estivéssemos em uma final de Copa do Mundo. Por isso, amiguinho: não comente nada durante o espetáculo, sinta a música. Deixe para fazer isso durante a pizza após o evento...

4) RECLAMAR EM VOZ ALTA PORQUE NÃO OCARAM A SUA CANÇÃO PREFERIDA DURANTE O SHOW – Há comentários que são infinitamente desagradáveis. Principalmente quando são feitos durante uma apresentação que está agradando a maioria do público. Não estrague a alegria dos outros e não atrapalhe o trabalho de quem está no palco: Robert Plant não vai tocar “Stairway to Heaven”, Marisa Monte não é obrigada a tocar “Bem Que Se Quis”, Ney Matogrosso não canta “Telma Eu Não Sou Gay” nem por um decreto! O artista não tem a obrigação de tocar o que o público exige e nós, pagantes, não somos obrigados a encarar as lamentações dos outros.

5) GRITAR PEDIDOS DURANTE O SHOW – Teatros e casas de shows não são bares ou restaurantes com música ao vivo, onde basta enviar um bilhetinho pedindo “Flor de Lis”, “Oceano”, “Sozinho” e outros clássicos das FMs. E não existe nada mais deprimente do que ouvir um “TOCA RAUL!” em meio a uma apresentação. Deixem o espírito do Mestre Raul Seixas em paz...

6) BEBER MUITO DURANTE O SHOW – Se bêbados já são pessoas desagradáveis em bares, imaginem em eventos musicais com open bar? São representantes do que há de mais inconveniente no pedaço: ter que se deparar com poças de vômito, com o péssimo comportamento provocado pelo álcool e outras situações horrorosas é o cúmulo da falta de elegância! Além da alta possibilidade de barracos, provocações e brigas...

7) JOGAR O CORPO PARA FRENTE DO PALCO DURANTE O SHOW – O direito mínimo das pessoas que enfrentam horas e horas de fila para conseguir um lugar privilegiado na frente do palco, é ter o seu espaço garantido durante o evento. Por isso, é muita falta de educação e de ética chegar poucos minutos antes do show e ficar empurrando os demais para conseguir um lugarzinho bacaninha para ver a estrela da noite. Se queres conforto, chegue mais cedo!

8) LEVANTAR DO ASSENTO DURANTE O SHOW – Em certas ocasiões, precisamos fazer uma passagem pelo banheiro durante uma apresentação musical. Quando isso acontece comigo, me levanto de onde eu estou repleto de vergonha e vou discretamente ao destino tão desejado. Venhamos e convenhamos, há pessoas que extrapolam os limites do bom senso. Exemplo: estava eu em um show de Gal Costa numa renomada casa de show de São Paulo quando notei o burburinho de duas mesas de lados opostos da Pista VIP, onde eu, por acaso, estava. Uma moça da mesa do lado esquerdo se locomovia freneticamente para o lado direito (e vice-versa) enquanto Gal cantava o repertório de Recanto para ficar conversando com os amiguinhos durante o show. Nenhum problema em relação à hiperatividade da criatura se não fosse o fato de que ela estava EM PÉ ao lado direito da casa bem na frente deste que vos escreve para fofocar. Meu surto foi inevitável: expulsei a cidadã do meu campo de vista com meia dúzia de patadas e grosserias e voltei ao show de Gal com uma raiva imensa do tempo perdido. É muita petulância alheia com alguém que pagou ingresso caro para assistir uma das artistas que você mais gosta.

9) GRITAR DECLARAÇÕES DE AMOR PARA QUEM ESTÁ NO PALCO DURANTE O SHOW – Deixemos algo bem claro: você pode gritar e berrar o quando você quiser para o artista que ele é amado, desejado ou que ele é “lindo, tesão, bonito e gostosão” ou até que deseja fazer coisas impublicáveis com ele ou ela. (In)felizmente, quem está no palco geralmente não poderá ouvir os anseios da plateia. Shows de Maria Bethânia, Ney Matogrosso e Ana Carolina reúnem uma quantidade sem fim de frases que eu tenho vergonha que reproduzir aqui. Show de Chico Buarque então é um festival eterno de correio para o monstro de olhos azuis que me faz entender o fato dele raramente sair em turnê. No entanto, tem uma passagem hilária ocorrida comigo: em uma área VIP de um show de Paul McCartney em São Paulo, um rapaz de 20 e poucos anos não cansava de gritar “I love you, Paul!” para o ex-Beatle, inerte aos desejos histéricos individuais de 2 ou 3 e empenhado com um show de quase 180 minutos pela frente. Já uma amiga minha me contou que quase espancou uma quarentona louca que berrava na pista (500m de distância do palco!) de um show dos Rolling Stones de que Mick Jagger TINHA que fazer um filho com ela a todo custo.

10) ARRANJAR CONFUSÃO NO CAMARIM APÓS O SHOW – Se existe a oportunidade de outro de ir até o camarim e estar, por breves instantes, com o seu ídolo face to face após um show, já é um motivo e tanto para se sentir nas nuvens: trocar algumas palavrinhas, tirar uma foto e ainda pegar um autógrafo são ingredientes perfeitos para a plenitude da sua felicidade musical. Entretanto, há pessoas que desconhecem noções básicas de respeito e civilidade em situações assim. A admiração se transforma em histeria. As vozes histéricas se convertem em um desrespeito pessoal à figura do artista: ninguém é obrigado a tirar um milhão de selfies ou a autografar uma série sem fim de capas de disco ou de quinquilharias e ainda ter que sorrir freneticamente depois de horas extenuantes de ensaios, passagens de som e dos shows em si. O camarim não é a Ilha de Caras! Além disso, sempre há aqueles fãs que se acham mais dignos do que outros e adoram menosprezar os demais fãs e sugam o artista como um vampiro sedento por sua presa inocente. Diante do caos típico de toda porta de camarim, lembro-me sempre de uma frase muito sábia dita por minha fada madrinha: “O ingresso te dá direito ao show e não a uma ida ao camarim!”.  Quando não estamos no meio daquelas rodadas bregas de meet and greet, vale levar em conta que o artista não é propriedade particular do fã. Por isso e por muito mais, respeito e privacidade sempre fazem bem em uma hora dessas.  
Eis 10 dicas de etiqueta para que você possa se comportar adequadamente em eventos musicais. Se você seguir estas recomendações à risca, cada show será uma oportunidade e tanto de ser um acontecimento inesquecível. Nem a Glorinha Kalil ou essas blogueirinhas de plantão teriam te dado dicas tão bacanas como essas...

22 de dezembro de 2014

TROVA # 42

O Último Sopro de Bobby Keys

Bobby Keys (1943-2014)

 “If you believe in the magic of Rock & Roll, which I devoulty do, it isn’t in the individual. I’ve played in bands with A-team players around. But unless they can play together, it doesn’t do any good. And you can take guys who may not stand on their own up against a bunch of individuals they might be compared to, but you put’em together man, and they are unique unto themselves in a way that no one else can touch. You can get the finest A-team musicians in the world, put’em together, and there’s no guarantee it’s gonna swing.”
(Bobby Keys, 2012)
  
         De todos os riffs de guitarra que fizeram a história do Rock, nenhum me traz tamanha excitação quanto de “Brown Sugar”, dos Rolling Stones. Quando vejo Keith Richards empunhando sua guitarra heroicamente entre suas duas pernas para tocar este clássico, sei que um dos maiores espetáculos do planeta está chegando ao fim e o que o meu nível de adrenalina se aproxima do ápice. Em que momento atingimos o auge da excitação? No segundo em que Bobby Keys inicia o seu solo de sax tenor e deflagra a festa, a orgia e a celebração da liberdade e do corpo e do espírito em meio a uma sociedade que insiste em cercear os limites da alucinação e da sexualidade.

Bobby Keys ao lado de Mick Jagger e do guitarrista Mick Taylor durante a lendária STP (Stones' Touring Party), turnê do álbum Exile on Main St., que varreu o Hemisfério Norte durante o verão de 1972. Ao fundo: Charlie Watts, o baterista dos Rolling Stones.


         Bobby Keys não foi apenas um músico convidado pelos Rolling Stones: ele foi um dos autores das marcas registradas mais queridas pelos fãs do grupo inglês. O solo de “Brown Sugar” é apenas um mero exemplo da extensa e significativa contribuição que Bobby deu para a música dos Stones. Sua participação nos discos gravados durante o período de ouro da banda (1969-1974), além de outras gravações avulsas, ajudou Jagger & Richards a definirem as novas direções a serem seguidas pelo som da banda. Exile on Main St. (1972) não seria a obra-prima que é sem os metais capitaneados por Bobby e Jim Price.
         É por isso tudo que os membros e fãs dos Rolling Stones receberam com imensa tristeza a notícia de que Bobby Keys tinha morrido por consequência de uma cirrose aos 70 anos de idade no dia 2 de Dezembro de 2014. O impacto da perda de Bobby é tão profundo quanto a morte de Ian Stewart em meados dos anos 1980, visto que, além da amizade e da parceria, trata-se de um músico que definiu uma bela parte da identidade do som dos Stones.

Bobby ao lado de John Lennon durante as gravações do álbum Walls & Bridges (1974), do ex-Beatle.

Keith & Bobby nos anos 1970
         Nascido no Estado do Texas em 18 de Dezembro de 1943 – na mesmíssima data em que nascera seu melhor amigo, Keith Richards –, Robert Henry Keys foi um músico profissional por mais de 50 anos. Tocou com outros mestres do Rock & Roll como John Lennon, Elton John, George Harrison, Eric Clapton, Joe Cocker, Lynyrd Skynyrd, Buddy Holly, Ringo Starr, B. B. King, além de ter participado de discos de Keith Moon, Sheryl Crow, Carly Simon, Dr. John, Yoko Ono, Donovan, Barbra Streisand, dentre outros. No entanto, sua passagem para a posteridade foi garantida pela sólida parceria que manteve com os Rolling Stones desde 1969.

Keith & Bobby nos anos 1980
Keith & Bobby nos anos 2000

Nota escrita por Keith Richards 

na ocasião do falecimento de seu melhor amigo.


         Para que não nos esqueçamos da importância de seu legado, fizemos um Top 10 com as melhores que Bobby gravou com Mick Jagger, Keith Richards e cia...

10) “Dance, Pt. I” (1980)  
         A faixa que abre o álbum que os Rolling Stones lançaram em 1980, Emotional Rescue, é uma das parcerias bissextas entre Mick, Keith e o guitarrista Ron Wood. Enquanto Richards ainda vivia os percalços das prisões e das audiências na justiça por conta do vício e posse de heroína, Jagger passou a dar as cartas em relação aos rumos que as pedras deveriam rolar. Seguindo o embalo do sucesso de Some Girls (1978), o frontman dos Stones busca repetir a experiência de “Miss You”, sem conseguir o retorno esperado. Os metais de “Dance, Pt. 1”, que se destacam no minuto final desta faixa, tornam esta composição ainda mais dançante.


9) “Loving Cup” (1972) 
         A nona faixa da obra-prima dos Stones, Exile on Main St., é um dos lados B mais cultuados da discografia da banda – em 2006, uma regravação deste clássico foi feita com a participação do cantor e guitarrista Jack White. A versão original de “Loving Cup”, de 1971, não possuía o arranjo de metais de Bobby e Jim Price, ao contrário da versão que figura no disco lançado no ano seguinte. A “Loving Cup” de Exile..., graças a Bobby e Price, é muito mais Soul (portanto, mais dramática!) e permitiu que Mick Jagger, Keith Richards, Bill Wyman, Mick Taylor e Charlie Watts alçassem voos inesperados em relação ao som que a banda estava produzindo naquela época...


8) “Rocks Off” (1972) 
         A faixa que abre Exile... relata experiências típicas do universo dos Rolling Stones: tesão, atração, fissura, obsessão sexual... Os riffs e acordes desconcertantes das guitarras de Richards e Taylor, a argamassa de Wyman e Watts e o piano de Nicky Hopkins que compõem a argamassa da batida dos Stones se juntam à brass section encorpada de Bobby Keys e Jim Price para que os vocais indefectíveis de Jagger conseguissem alcançar a estridência suficiente para pegar o ouvinte da obra-prima da banda a partir do primeiro minuto. Em suma: “Rocks Off” foi o primeiro capítulo de um álbum se transformou em um item obrigatório na coleção de qualquer amante do Rock & Roll!



7) “Rip this Joint” (1972) 
         A segunda faixa de Exile on Main St... é um dos petardos mais indigestos de toda a obra dos Rolling Stones. A batida e os riffs de “Rip this Joint” são diluídos através dos gritos de Mick Jagger e entrecortados por dois solos demolidores de Bobby Keys. Um detalhe relevante sobre esta canção: os próprios Stones tocaram esta em poucas turnês – até onde sabemos, “Joint” só foi apresentada nas turnês Exile... e Voodoo Lounge.



6) “All About You” (1980) 
         Canção que encerra o controvertido álbum Emotional Rescue e pertence à lavra de Keith Richards. Uma das baladas mais marcantes do grupo, “All About You” é um lamento sofrido de Keith ao amigo Mick Jagger, cuja egolatria se espraiava por limites que levariam os Rolling Stones a uma crise sem precedentes no decorrer de toda a década de 1980. A participação de Bobby Keys nesta faixa oferece um tom mais jazzístico para esta bela criação: seu sax tenor se acentua no decorrer dos 4 minutos desta gravação antológica!


5) “Casino Boogie” (1972) 
         O solo de Bobby Keys para a quarta faixa de Exile... é o diferencial desta gravação. Em meio a lances de dados e as amarras impostas pelo tempo anunciados por Mick Jagger, as guitarras de Keith Richards e Mick Taylor dialogam com o baixo de Bill Wyman e batida jazzística de Charlie Watts e o sax tenor de Bobby com dinamismo de uma partida de Poker.


4) “Sweet Virginia” (1972) 
         Este country composto por Jagger & Richards para Exile on Main St... é uma das faixas mais belas da história da música. A balada percorre territórios desérticos, perpassa episódios de tristeza e solidão e possui um dos solos mais brilhantes da carreira de Bobby Keys.




3) “Live with Me” (1969)
         A longa parceria de Bobby Keys com os Rolling Stones se iniciou com esta faixa, incluída no icônico álbum Let it Bleed (1969). “Live with Me” é um dos cartões-visita dos Stones: defende um estilo de vida anárquico, completamente distinto dos pilares da tradição inglesa – beber o chá das cinco ás três da tarde, enfileirar-se para utilizar o banheiro às 7h35 em uma casa que necessitaria desesperadamente de um “toque feminino” para recobrar os valores da moral e dos bons costumes, são alguns dos vários manifestos de libertação que as pedras rolantes defendiam em face ao conservadorismo da Inglaterra do final da década de 1960.a participação de Bobby anuncia, através de seus acordes dissonantes e com um volume estridente, um caos reinante defendido por Mick, Keith e cia.



2) “Can’t You Hear Me Knocking?(1971) 
         A quarta canção de Sticky Fingers (1971) ocupa pouco mais de sete minutos do álbum e, originalmente, não era para ter sido a jam session na qual se tornou se Mick Taylor e Bobby Keys não tivessem contribuído com seus improvisos para esta gravação. O solo de Bobby, juntamente com o de Taylor, propõe uma atmosfera hipnótica a partir da bateria de Charlie Watts e das congas de Rocky Dijon após Jagger ter literalmente berrado suas obsessões em forma de canção e de Keith ter criado mais um de seus riffs antológicos.



1) “Brown Sugar” (1971) 
         Nenhum show dos Rolling Stones pode ser dado por completo se a banda não tocou “Brown Sugar” em algum momento do espetáculo. Este clássico é uma ode à liberdade do corpo e do espírito através da tríplice aliança entre Sexo, Drogas e Rock & Roll. Quando Mick Jagger acabava de cantar o segundo refrão e anunciava: “Bobby!” para que o músico do Texas fizesse seu solo era um momento de verdadeira de verdadeira excitação, pois o solo de sax para esta canção é tão marcante a ponto da mesma sequência de acordes ter que ser repetida à risca em toda apresentação dos Stones desde 1971.




         A contribuição de Bobby Keys para diversas gravações dos Rolling Stones lhe deu um lugar permanente no panteão dos músicos mais importantes de toda a história do Rock & Roll. Seu desaparecimento é um dos golpes mais duros para a banda e para a comunidade musical como um todo. Este texto é uma singela homenagem ao legado de um senhor de 70 anos que nutria uma enorme paixão pela arte que fazia. Que seu corpo possa descansar em paz e sua música faça do nome de Robert Henry Keys uma das referências principais do sax tenor.

Thank you, Bob!


DUAS PARTICIPAÇÕES DE BOBBY KEYS EM DISCOS DE OUTROS ARTISTAS QUE VOCÊ PRECISA OUVIR:

* John Lennon - Whatever Gets You Thru The Night (1974)


* Sheryl Crow - There Goes the Neighborhood (1998)



UMA ENTREVISTA PERDIDA DE BOBBY KEYS À REVISTA ROLLING STONE, DE 2012:
http://www.rollingstone.com/music/features/bobby-keys-the-lost-rolling-stone-interview-20141202 

KEITH RICHARDS RELEMBRA O VELHO AMIGO PARA A REVISTA ROLLING STONE:
http://www.rollingstone.com/music/features/keith-richards-rolling-stones-bobby-keys-20141204?page=2 

5 de dezembro de 2014

TROVA # 41

A LEVEZA E A GRANDEZA DE UM GIGANTE GENTIL


A música e o orgasmo são as duas coisas que mais aproximam a gente de Deus.
Erasmo Carlos

            Erasmo Carlos é uma das figuras que mais admiro na música do Brasil. Parceiro de, Roberto Carlos, uma das figuras mais carismáticas e controversas de todos os tempos, o Gigante Gentil conseguiu trilhar uma trajetória adversa ao mundo de mulheres, rosas, ternos brancos e azuis. Erasmo é o Keith Richards de Bob Charles: despojado, avesso às convenções, um anárquico adorável...



            Sou fã de biografias não-autorizadas, mas confesso que leio as biografias “autorizadas” e os livros de memórias com um sabor diferente. Quando o livro é bem escrito, eu embarco na ligeira ilusão de que os fatos aconteceram exatamente do jeito que os autores de suas “memórias” o descrevem. Na época em que a polêmica que envolvia Roberto Carlos e seu biógrafo Paulo César de Araújo ainda ganhava as manchetes nos jornais, revistas e na Internet, Erasmo Carlos lançou Minha Fama de Mau, um delicioso relato de passagens de sua vida e carreira.


            Em tempos nos quais integridade, coerência e vergonha na cara não se encontram em qualquer esquina, resolvi vasculhar os meus arquivos nas redes sociais (neste caso, minha intrépida conta no Twitter) para te dar alguns motivos para dar mais bola para o nosso “amigo de fé” e “irmão camarada” Erasmo Carlos:



10 MOTIVOS PARA VOCÊ LER O LIVRO DE MEMÓRIAS DE ERASMO CARLOS
(em ordem decrescente):

10) As passagens de Erasmo ao lado de nomes sagrados da MPB como Tim Maia, Carlos Imperial, a turma lendária do jornal O Pasquim, Wanderléa e Roberto Carlos são ótimas;


9) Saber que o Erasmo levou uma GOLEADA de Chico Buarque em uma aguerrida disputa de Pebolim!




8) Saber um pouco mais dos bastidores do Rock in Rio a partir das impressões de um de seus protagonistas!


7) A decepção com a Timbolina e as epopeias tijucanas me deu uma baita saudade dos momentos em que eu andava pela Tijuca no início dos anos 2000;


6) Saber um pouco mais do processo de criação de vários clássicos do cancioneiro de Roberto & Erasmo! Além de vários relatos bem-humorados de shows e otras cositas más...


5) Ter a chance de conhecer o seu intrépido secretário pessoal, o Alcides! O episódio hi-lá-rio dos espelhos do quarto de um hotel é um exemplo clássico das peripécias daquele cidadão;


4) A saga do arroz doce para a saudosa Narinha parece algo saído de um programa de comédia! E o comovente episódio dos coelhinhos na piscina?


3) O episódio da água da Alcione é praticamente uma passagem cinematográfica!


2) A passagem do aniversário de Maria Bethânia é de chorar de rir! Rolei de dar risada quando li a gracinha de Erasmo com a colega...



1) Ter a oportunidade de conhecer o mundo de um dos maiores hitmakers de nosso país!


          

25 de novembro de 2013

TROVA # 26


 LUZES & SONS DA INSPIRAÇÃO


“New York
Concrete jungle where dreams are made of
There’s nothing you can’t do
Now you’re in New York
These streets will make you feel brand new
Big lights will inspire you
Hear it for New York
New York, New York…”
(Alicia Keys)


Ao Nilton e à Aninha, que aguentaram
as minhas crises de cansaço por toda Manhattan.


         A Paris deram o nome de “Cidade das Luzes”. No entanto, quando se coloca os pés em Nova York pela primeira vez, a impressão que temos é a de que todas as luzes do planeta migraram para o Atlântico Norte. A quantidade de apelos visuais feéricos e intermitentes de todos os tipos simplesmente não tem mais fim.

Em meio a tudo isto, somemos uma quantidade generosa de línguas e culturas distintas, uma bela constelação de teatros com astros e estrelas de todos os gostos, egos e tamanhos, uma variedade de lojas e outlets de todos os tipos e museus para todas (repetindo: todas!) as formas de Arte. E, lógico: para tudo isto há sons e versos que embalam a experiência inesquecível de passar pela Big Apple, a maçã proibida que provamos com gosto e prazer, por mais letal que o seu veneno possa lhes parecer.

Se você ainda não conhece esta grande metrópole, as canções que escolhemos para este TOP 10 afetivo vão te ajudar a compreender esta loucura um pouquinho melhor. Se você já conhece a cidade, escolha uma canção com a qual você se identificar ainda mais e embarque no navio da memória musical e resgate as suas melhores lembranças.


10 MOTIVOS MUSICAIS PARA VOCÊ
CARREGAR NYC NOS SEUS OUVIDOS 
E NO SEU CORAÇÃO:







10) M
adonna – “I Love New York






         Um dos momentos mais incendiários da Confessions Tour se dava quando a Rainha do Pop empunhava sua guitarra e tocava “I Love New York”. Ao bradar versos como “I don't like cities / But I like New York / Other places make me feel like a dork / Los Angeles is for people who sleep / Paris and London / Baby you can keep” ou o refrão-pop-chiclete “Other cities always make me mad / Other places always make me sad / No other city ever made me glad except New York / I love New York”, Madonna declara não apenas o seu amor pela Big Apple, como também fala de como esta cidade definiu suas ambições e seus anseios de conquistar o mundo com a sua verve Pop.

9) Sting – “Englishman in New York





         Este jazz composto por Sting na década de 1980 é um dos momentos mais significativos depois de sua saída do The Police. Nesta canção, o astro fala do choque cultural sofrido por um homem inglês na Big Apple (“I don't drink coffee I take tea my dear / I like my toast done on one side / And you can hear it in my accent when I talk / I'm an Englishman in New York”) e da importância de manter suas características mais marcantes de sua cultura, apesar de ter trocado a cinzenta Londres pela iluminada Nova York.

8) The Rolling Stones – “Shattered



 


         A partir da década de 1970, os EUA passaram a ter maior importância na vida e na obra dos Rolling Stones. Várias canções compostas pela dupla Mick Jagger – Keith Richards falavam de sexo, drogas, luxúria, amores partidos e outras desilusões... “Shattered”, última faixa de um dos maiores sucessos dos Stones, Some Girls (1978), traz um universo de “Love and hope and sex and dreams” e de “Pride and joy and greed and sex” em plena 7th Avenue. Além disso, Jagger canta o fato de que viver em uma cidade na qual a taxa de criminalidade crescia vertiginosamente no final dos anos 1970 não era tarefa das mais fáceis. “Shattered” é uma ode de amor à NYC às avessas, com todo o seu universo de desejo, cobiça e sedução – afinal, um dos versos finais deste clássico nos pede para “Go ahead, bite the big apple, don't mind the maggots”. Se Mick Jagger disse para que saboreemos a grade maçã sem se importar com os caroços, por que não fazê-lo?

7) Frank Sinatra – “(Theme From) New York, New York






         Se todos os clichês em torno de Nova York se resumissem uma canção, a gravação que Frank Sinatra fez para a composição de John Kander e Fred Ebb é o melhor caso, uma espécie de “Corcovado” para os nativos da Big Apple. E não havia melhor voz para cantar este standard do que o velho Sinatra: no início da década de 1980, os velhos olhos azuis eram a “Voz da América”, por isso acordar na cidade que nunca que dorme e fazer parte dela era mais do que natural para uma das vozes mais importantes do século XX. Apesar de ser um clássico “batido” nos ouvidos de muitos seres humanos, “(Theme From) New York, New York” ainda consegue despertar a emoção de todos aqueles que vão passar uma temporada em NYC.


6) R.E.M. – “Leaving New York





         Faixa de abertura de um dos trabalhos mais injustiçados do R.E.M., Around The Sun (2004), “Leaving New York” é uma ode apaixonada do vocalista Michael Stipe à cidade. A sensação inicial quando ouvimos os primeiros versos (“It's quiet now / And what it brings / Is everything // Comes calling back / A brilliant night / I'm still awake //I looked ahead / I'm sure I saw you there // You don't need me / To tell you now / That nothing can compare”) é de que Stipe canta ao pé do ouvido da cidade que o acolheu (e ainda deve acolher) por tanto tempo. A cidade das luzes, a cidade que ele tinha que abandonar toda vez que ele abandonava a cidade temporariamente para sair em turnê com os seus colegas de banda, a cidade que foi ferida e marcada profundamente pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001... A cidade que Stipe sempre amou e há de amar. Um retrato sentimental, poético, triste, mas de uma beleza irrepreensível.

5) Billy Joel – “New York State of Mind





         Composta por Billy Joel, “New York State of Mind” apareceu pela primeira vez em Turnstiles (álbum lançado por Joel em 1976). Apesar de nunca ter sido lançada em single, a canção se tornou em uma das (favoritas) mais populares do repertório de seu criador, além de ter sido regravada por nomes de peso da música norte-americana como Barbra Streisand, Diane Schuur e Tony Bennett.
Tomando como ponto de vista o ônibus Greyhound que segue a linha que cruza o rio Hudson (que corta a cidade), Billy Joel fala do seu amor pela cidade como se Nova York fosse mais do que isso: as luzes, avenidas, estrelas de cinema, limusines, os jornais, a música, a beleza de Manhattan, a bela feiura de Chinatown, tudo isto faz da cidade um estado de espírito! Daí a vontade de celebrar o legado e a beleza de um lugar sem comparação...

4) Natalie Merchant – “Carnival




        
         Depois de largar o 10,000 Maniacs, Natalie Merchant deixou de ser uma cantora “bonitinha e fofinha” que estava à frente de uma banda de sucesso para capitanear sua carreira solo com unhas, dentes e muita ousadia. Tigerlily (1995) teve como carro-chefe “Carnival”, esta ode às ruas da Big Apple. O palco virtual desenhado por Natalie revela atores sociais que compõem a cena citadina, multidões, riqueza e pobreza, o luxo da Tiffany’s e o lixo da miséria social do Queens (por exemplo). Não se trata de um carnaval, mas de um “parque de diversões” no qual as entranhas de uma cidade se abrem e revelam a beleza e a pobreza presente em cada uma das duas faces da moeda. E, no final de cada refrão, Natalie pergunta se o que os olhos veem refletem cegueira, perdição, perplexidade, paralisia? Várias perguntas sem respostas e outras perguntas a serem feitas...

3) Lou Reed – “Walk On The Wild Side





         Lou Reed foi um dos cronistas mais frequentes de Nova York. No entanto, a memória do grande público somente se lembra dos versos, dos acordes e dos repetitivos “Dooo-dooo-dooos” de “Walk On The Wild Side”. Reed fotografa com precisão espetacular o submundo de sexo, drogas sob uma perspectiva incomum – junkies, gays, travestis em meio a tranquilizantes e sexo oral. Caminhar pelo lado selvagem era viver intensamente pela Big Apple. O fundador do Velvet Underground soube bem o que foi tudo isso...


2) Norah Jones – “Back to Manhattan”  





         Norah Jones é uma das cantoras mais influentes de sua geração. Quando gravou seu disco The Fall (2009), esta nativa da Big Apple já era uma artista mundialmente premiada e respeitada por uma obra musical relevante, consistente e ousada.
Back to Manhattan” é um dos poucos episódios de The Fall no qual Norah se dedicou ao gênero musical que a colocou no mapa musical do planeta, o Jazz. A letra fala dos mundos diversos que existem em NYC: de um lado a rispidez do Brooklyn; do outro, as luzes de Manhattan. O eu-lírico de Norah se divide entre estes dois universos, ciente da impossibilidade de se desfazer de suas raízes – “But Brooklyn holds you / And holds my heart too / What a fool I was to think / I could live in both worlds”. Uma bela canção de amor que se utiliza das contradições da Big Apple para existir e falar da inexistência de explicações para este mistério que é o sentimento amoroso.

1) Rosemary Clooney – “Take Me Back to Manhattan





         Ao andar pelos corredores sem fim do Metropolitan Museum, achei um CD organizado pelos curadores do Met com o melhor das canções feitas sobre a Big Apple. Não resisti, obviamente, e levei o tal CD comigo. A surpresa mais agradável foi ouvir uma gravação belíssima para “Take Me Back To Manhattan” (Cole Porter), feita por Rosemary Clooney (tia de George e uma das maiores lendas da música norte-americana).

         Na gravação feita por Clooney em seu álbum de 1993, Still On The Road, Nova York é a cidade ideal para ela (e para todos nós que amamos abeleza da cena urbana). No entanto, ao se ausentar de sua adorada cidade, ela pede (sem muito pudor) que seu verdadeiro desejo é de voltar para o seu adorado ninho, para o seu apartamento no centésimo andar, afinal as saudades de North, South, West e East Manhattan são maiores do que a vontade de conhecer o mundo.  Ouça o Jazz, a voz inesquecível de Rosemary Clooney e mergulhe no mar de afetividade que Cole Porter dedicou à cidade mais charmosa das Américas.