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31 de dezembro de 2013

2013 | 2014



    Em 2013 tivemos mais de 4500 visualizações, 30 textos publicados e muito som por aqui. Que em 2014 possamos ouvir muito mais música de qualidade com Paz, Amor, Suce$$o, Saúde e Harmonia. Muito obrigado a todos que curtiram o Trovas de Vinil!!!


Feliz 2014!!!

Com o forte abraço do
Vinil

29 de dezembro de 2013

TROVA # 29

OS SINAIS ATENTOS DE
NEY MATOGROSSO*


“Peço aos céus para me proteger
Eu não hei de ceder ao vazio desses dias iguais

Mal em mim nunca há de fincar
Mel em mim nunca há de findar
Olhos nus e atento aos sinais

Faço fé pra poder ver
A vida há de ser sempre mais.”

(“Oração”, de Dani Black, na interpretação de Ney Matogrosso)


          Gosto muito de uma fala de um filme de Bruce Willis no qual o herói da trama dizia algo como: “Quando Sinatra está na cidade, meu coração está com ele!”. O mesmo se aplica a mim quando sei que Ney Matogrosso vem a São Paulo para mais uma temporada de shows. Sempre faço o possível (e, por vezes, o impossível) para ver o belo astro em ação no esplendor de sua forma e energia.


Por mais que um show de Ney não seja “inédito” para os meus olhos e ouvidos, a emoção de sentir e presenciar a voz, o corpo e a alma que ele dedica a cada canção que ele interpreta ao vivo é renovável a cada espetáculo. Daí a necessidade de sempre retomarmos este encontro. Ele do palco, eu da plateia. Um detalhe importante: Ney já passou dos 70 anos e tem mais energia que muitos homens de 30! Além de termos uma aula imperdível de interpretação e voz no contexto da música brasileira, ele não deixa de ser uma inspiração para nós que tentamos insistir na magia da juventude.


Consagrado no Brasil e respeitado pelo mundo afora há pouco mais de quatro décadas, Ney Matogrosso podia se ancorar em velhas fórmulas e/ou repertório consagrados para retornar aos palcos. No entanto, os olhos de farol buscaram novos paradigmas para serem quebrados ao escolher um setlist praticamente inédito para o grande público. Nada de hits ou clássicos de Chico Buarque ou Luhli & Lucina desta vez: o show e CD Atento aos Sinais privilegiam a produção musical de nomes não tão recorrentes nos ouvidos do mainstream, como Itamar Assumpção, Pedro Luís, Vitor Ramil, Dan Nakagawa, Alzira Espíndola, Vitor Pirralho e alguns outros. Dos baluartes da MPB, Ney escolheu apenas dois lados B de Paulinho da Viola (compositor bissexto na voz do experiente Matogrosso) e Caetano Veloso.




Enquanto muitos artistas preferem subir no palco depois de lançar um CD de canções inéditas, Ney Matogrosso prefere apostar em uma estratégia incomum na indústria musical de hoje: investe primeiramente em shows para depois gravar e lançar um álbum com material inédito. Este processo chega a levar alguns meses para se completar, para estranhamento e encantamento do público que o acompanha há algum tempo. Quando assisti minha primeira apresentação de Atento aos Sinais, confesso que achei o show um tanto indie demais para o meu gosto. A partir do segundo show que vi, passei a gostar muito mais de tudo que presenciei, afinal de contas, é um tanto difícil gostar de coisas que não (necessariamente) conhecemos tão bem. A interpretação irreconhecível de Ney deste repertório teve um papel central neste processo – fazer com que Itamar Assumpção, Vitor Pirralho, Dan Nakagawa e Pedro Luís ficassem na ponta da minha língua é um digno trabalho de Hércules!



Além de desbravar novos horizontes nos palcos e no disco, o ano de 2013 trouxe novas empreitadas e parcerias para Ney Matogrosso. A mais importante destas, o documentário Olho Nu, que teve a direção de Joel Pizzini, refaz não apenas a trajetória de um dos cantores mais importantes da música brasileira, como também expande o olhar do homem e do artista em relação à vida, à arte e ao contexto no qual vive e atua com brilhantismo. Além disto, o espectador é brindado com um número sem fim de imagens de arquivo, vídeos antigos e recentes, locações inusitadas e depoimentos reveladores sobre o artista documentado.



Lembro-me de um episódio inusitado quando estive na estreia do filme em São Paulo: 1) Estava comentando com alguém a respeito da possível presença de Ney na projeção da fita e afirmando piamente que era impossível que o “home” desse as caras no Espaço Itaú de Cinema quando me deparo com Ney Matogrosso em carne e osso ao meu lado; 2) Estava ansiosamente sentado em uma cadeira no fundo da sala de cinema quando vejo Ney se sentando em uma cadeira na fileira da frente para ver o filme. Assistir a um documentário sobre meu artista preferido com ele sentado bem à frente de mim foi realmente um evento memorável...


Os passos tomados por Ney Matogrosso recentemente indicam que estamos diante de um artista que não olha para trás de forma alguma. Poderia aproveitar o momento de retrospectiva (documentário, 40 anos de carreira musical) para fazer um flashback de seu trabalho artístico. No entanto, sua decisão é projetar o seu olhar para o futuro e fazer uma crônica musical do tempo em que vivemos. Atento aos Sinais é um trabalho que reflete injustiças sociais (“Rua da Passagem [Trânsito]”, “Incêndio”), detalhes da intimidade em meio à selva urbana (“Noite Torta”, “Freguês da Meia-Noite”, “Beijos de Ímã”, “Não Consigo”) e críticas às firulas da modernidade (“Samba do Blackberry” e “Todo o Mundo o Tempo Todo”).


É bom saber que existem artistas que estão atentos aos sinais dos tempos atuais. Ney Matogrosso, esboçando uma jovialidade e energia típicas de um iniciante não é apenas fonte de inspiração para seus admiradores, é um exemplo que muitos artistas deveriam seguir para se manterem conectados com a cena musical que pulsa intensamente por aí. É por estas e muitas outras que desejamos vida longa ao nosso querido artista e que ele se mantenha atento e forte sempre!
  


* Este post vai com todo o meu carinho por Rosana Barbosa, para quem eu sempre escrevi relatos de shows do Ney.


26 de dezembro de 2013

TROVA # 28

“QUANDO EU ESTOU AQUI...”

40 anos de tradição, bicho...

Não sei se existem coisas novas.
Existem formas novas de fazer coisas antigas.
(Roberto Carlos)


No momento em que a frase do título ressoa na tela da TV, meus ouvidos já tremem de pânico e tédio! Programa especial de Roberto Carlos na TV Globo nunca foi exatamente um “momento lindo” para mim... E eles quase sempre vão ao ar na ressaca do dia 25 de dezembro!

Pretinho básico, nada disso! Branquinho básico, meu bem!

Roberto Carlos se tornou sinônimo de peru de Natal e rabanada. Não é o Menino Jesus, mas chega todo mês de Dezembro no plim-plim mais perto de você. E sempre cantando “Emoções” pela enésima vez, com o mesmo arranjo da gravação original (?!), sempre atirando rosas brancas e vermelhas para o palco ao som de “Jesus Cristo”, “Nossa Senhora”, "Jesus Salvador" ou outro hino religioso (ganhar dinheiro em cima de entidades do Catolicismo em um país que possui hordas e mais hordas de católicos é retorno financeiro garantido!)... Sempre tem uma participação do “meu amiiiigo” Erasmo Carlos (ok, o Gigante Gentil é sempre welcome!) e closes de câmera nas estrelas do cast da Globo na plateia e, lóóóógico, sempre tem terninhos brancos e/ou azuis para adornar aquele velho mullet horroroso!
Ah, claro: sempre tem aquele convidado que sempre está na crista da onda das playlists dos brasileiros no ano do especial em questão: nomes como Ângela Maria, Roberta Miranda, Maria Bethânia, Titãs, Gal Costa, Tim Maia, Cássia Eller, Alcione, Caetano Veloso, Rita Lee constam na mesma galeria na qual Chitãozinho & Xororó, Ivete Sangalo, Arlindo Cruz, Lulu Santos, Kátia Cega, Ana Carolina, Christian & Ralf, Simone, MC Leozinho, Sérgio Reis & Almir Sater, Cláudia Leitte, Angélica, Fagner, Calcinha Preta, Jota Quest, Michel Teló, Xuxa e Anitta também figuram, o que é um sinal claríssimo de que o gosto musical do Rei (um tanto duvidoso, às vezes!) para esconder os convidados de seu programa vai de acordo com o que está fazendo sucesso no momento... Para o especial de 2013 só faltou Lady Laura e Maria Rita (a esposa falecida de Roberto, não a irritante filha de Elis) para fechar o séquito do eterno filho e marido Roberto Carlos.

E vamos vestir um azul para variar um pouquinho...

Outra coisa que não podemos deixar de mencionar aqui: as superstições reais! E o que seria dos especiais de Roberto Carlos mais recentes sem elas? Vamos citar algumas: nenhum artista convidado pode usar preto ou marrom no palco ao lado de El Rey; cantar canções que falem do “mal”, “inferno” ou outras coisas menos cristãs nem pensar – afinal, Robertinho é um cara de família! –, não se pode sair pela mesma porta pela qual entrou e outras demonstrações de TOC que a Glória Maria acha lindo e a Hebe acharia que é uma GRA-CI-NHA! Para o especial deste ano, o artista quis um clima de Oscar e exigiu um blue carpet ao invés de um red carpet tradicional para que as estrelinhas da Globo desfilassem em noite de gala. Alguns dos convidados da noite tiveram que vestir azul e branco (ou as duas cores, why not?) para combinar com o Rei. Enquanto isso, vamos ouvindo os velhos hits que todo mundo já está cansado de ouvir: “Como É Grande O Meu Amor Por Você”, “Olha”, “Força Estranha”, “Esse Cara Sou Eu”, “Se Você Pensa”, “Jesus Cristo”, "Cavalgada", "Proposta", "Parei na Contramão", “Detalhes”, “Emoções”... E a mania (que ele acha de uma originalidaaaaaaade gigantesca!) de sempre querer entrar com um velho calhambeque no palco no início de cada apresentação?!?!?! São tantas emoções que vem desde os tempos da Jovem Guarda, bicho. O problema é que tem muita gente que já não atura mais ter que ver e ouvir a velha cantilena de sempre todo ano...

Xiiii.... Esse marrom aí da capa pode, Arnaldo?

(Um mea culpa antes de continuar: eu adoro assistir os especiais do Roberto Carlos na TV, pois sempre terei algo para dar umas boas risadas e, evidentemente, para fazer parte daquele grupo que desafina o coro das senhorinhas contentes, hehehehehehe! Até porque sintonizar a Globo para ver o Rei, seus ternos ridículos e seus súditos, fãs daquelas canções de amor "desde criancinha" é sempre fonte de gargalhadas garantidas!)...
Infelizmente o velho Roberto não conseguiu realizar suas taras e manias em seu especial de 2013. Não conseguiu entrar com o velho carrão no palco, pois era impossível chegar com o calhambeque no segundo andar de onde seria o seu show. Implicou com o nome do complexo “Cidade das Artes” por causa do cacófato inevitável que alude ao vocábulo “azar” (pecado mortal no reino da Urca, bicho!), implicou com o casaco preto de couro do amigo e parceiro Erasmo, que, tadinho, só tinha aquele figurino para vestir naquela noite... Não deve ter implicado com a cor e/ou tamanho do vestido da Anitta, provavelmente - ela estava dentro do Dress Code real. Em 2012, o especial de Roberto Carlos marcou míseros 10 pontos no Ibope. Para quem já marcou mais de 40 em tempos de vacas gordas, trata-se decadência a olhos vistos a cada Natal!
Remixar para requentar  aquela coisa sempre igual...

O que é mais incômodo em cada especial de Roberto Carlos que vai ao ar no final de cada ano é que existe pouquíssima (para não dizer NENHUMA) vontade de El Rey em se “modernizar” ou fazer diferente aquela coisa sempre igual. É a vitrine anual das excentricidades e idiossincrasias de um artista contraditório e polêmico que é o inimigo número 1 das biografias não-autorizadas e da liberdade de pensamento neste país. Isto vindo de uma pessoa que sempre expôs sua vida em praça pública via revistas de fofoca e a própria TV Globo. Chamar DJs para requentar os sucessos antigos via remixes para atrair o público jovem?! Isto era tendência na década de 1990, Sr. Roberto!  Chamar a funkeira Anitta ou o talentosíssimo Tiago Abravanel, que estão no auge do sucesso, para cantar ao seu lado?! Oportunismo barato, Sr. Roberto! Além disto, seu colega e ex-amigo Tim Maia teria ficado muito “P” da vida com tamanho oportunismo através da vida e obra do velho soulman brasileiro! Chamar Lulu Santos – eterno supra-sumo da chatice e da arrogância graças à escola de “Anas Gritolinas” chamado The Voice Brasil – para cantar “As Curvas da Estrada de Santos” com direito a firulas e surtos de bichice que fariam Clodovil Hernandez revirar no túmulo com tanta cafonice e viadagem?!?!?! Pagação de mico histórica, Meu Rei! Foi-se o tempo de que tudo que você gostava era “Imoral, Ilegal ou Engorda” e você contava tantas histórias sobre os botões daquela blusa... Isto deve ter sido em 1976, ou em 1979, ou em 1981, quando você ainda era referência de música de qualidade ou quando você era jovem...

Pô, bicho! Libera aí...

É, Roberto... você até tenta ser jovem, pena que há um oportunismo tradicional que corrói  a sua vida e a sua obra há mais de 20 anos. Antônio Fagundes desejou em rede nacional que você faça especiais de TV por mais 40 anos. Sinceramente, nós não queremos mais isto tudo, El Rey. Por isso, desejo de coração, através deste humilde texto, que você pare de fazer especiais na Rede Globo enquanto você tiver nada de genuinamente novo para dizer (um disco de inéditas, quem sabe?) e, principalmente, que você libere aquela biografia monumental que o Paulo César de Araújo escreveu sobre você... Assim, velho Rei, você pode envelhecer mais dignamente, manter a sua velha e empoeirada coroa, além de entrar para a história da música brasileira como um artista que, um dia, foi Inimitável.

Leia alguns textos sobre as “Taras & Manias” do Rei:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/145044-hoje-e-dia-de-mania.shtml
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-especial-de-roberto-carlos-e-o-simbolo-da-ressaca-do-natal-e-da-irrelevancia-hoje-dele-e-da-globo/

E para quem quiser ler a biografia que Paulo César de Araújo escreveu e publicou, mas o Rei proibiu:
http://www.mediafire.com/download/ht29j0do6zdb450/RC+LIVRO.rar

1 de novembro de 2013

TROVA # 24

UM E-MAIL PARA O POETINHA



Vinícius de Moraes (1913-1980)

 
Vinícius de Moraes: Meu Caro Poetinha,

 
Perdoe-me esta correspondência atrasada e improvisada, mas não pude deixar de te escrever nesta ocasião tão especial. Se você estivesse vivo, teríamos comemorado seu 100.º Aniversário no último dia 19 de Outubro com direito a muita música, poesia e whisky!


Sinceramente, Vinícius, o mês de Outubro deveria ser considerado como "O Mês do Poeta". Não apenas por tudo que você escreveu, mas principalmente por tudo que você viveu. Carlos Drummond de Andrade, seu colega de gauche profissão, disse, certa vez, que você não viveu como um homem, e sim como um verdadeiro Poeta. Frank Sinatra, em outra ocasião, disse que viver a vida do jeito que ele viveu já bastava. O mesmo podemos dizer de ti, pois os 67 anos que você viveu foram de tremenda intensidade.
 
 

 
Quando eu, este reles blogueiro que te escreve, era criança, sempre tive milhares de conflitos em torno do nome que recebemos. Não gostava de meu nome, achava-o feio. Talvez por ser incomum para meninos da minha época, ou por ser difícil para uma criança o pronunciar, provavelmente porque não conhecia ninguém que tivesse um nome tão diferente. E te confesso que a primeira aula sobre Diversidade que a vida me deu foi em relação ao nome Vinícius. Só na idade adulta entendi que nós, incautos de nome Vinícius somos privilegiados por sermos plurais. Afinal, você mesmo afirmou que se não foste tantos em um só, seu nome seria Vinício de Moral.

Vinícius & Baden Powell


Poeta camarada, sua obra continua sendo reverenciada como nunca nos dias de hoje. A Companhia das Letras reeditou seus livros com muito apuro e elegância. Seus discos foram remasterizados e reeditados em uma bela caixa com encartes riquíssimos em informação. Miguel Faria Jr. fez um documentário belíssimo sobre ti. José Castello escreveu uma biografia essencial sobre sua vida. Suas filhas Georgiana e Maria ficaram responsáveis pela divulgação de seu legado através da VM Cultural. O respeito pela sua poesia cresce cada vez mais. Por outro lado, o Brasil continua numa caretice sem tamanho, você acredita? Ainda existem pessoas que ficam escandalizadas com o fato de você ter se casado nove vezes. Alguns colegas seus de Música Popular acham que biografias não devem ser escritas se não houver "prévia autorização". Enfim, você precisaria de uns dois cachorros engarrafados para ter que suportar tanta cafonice. Ou, quem sabe, passar muitas tardes em Itapuã enquanto esta onda bizarra passa...


Vinícius & Tom Jobim


Sua família tem agido como guardiã sensata de seu trabalho. Graças a eles, novas gerações tem tido a oportunidade de ler e ouvir tudo o que você produziu. Apesar de seus livros constarem na lista dos vestibulares mais importantes e concorridos do país, não encontro pessoas no mundo acadêmico que estudam (ou queiram estudar) a sua obra. Muitos integrantes da dita "Academia" demonstram preconceito (velado) ao fato de você ter deixado de escrever poemas que figuravam nos livros para a elite letrada e ter se "debandado" para a turma do Samba e da Bossa Nova. É uma lástima que não possamos debater seu ofício até a exaustão em aulas, seminários, congressos, mesas de bar.

Vinícius & Toquinho


Poeta da pesada, não poderia existir um dia da semana mais perfeito para o seu 1.º Centenário do que um sábado. Isto quer dizer que aos sábados podemos celebrar casamentos e divórcios, renovar esperanças, brindar o "bom funcionamento" dos maridos perante suas esposas e por aí vai e, acima de tudo, propor um brinde à sua memória. Que nas noites de 19 de Outubro, os copos possam tilintar em sua homenagem, que sonetos de amor sejam lidos e escritos com ardor, que amores façam e se desfaçam para dar prosseguimento a este enorme ciclo que chamamos de vida. Que a sua Arca de Noé possa ser lida e ouvida por muitas crianças e adultos que já se apaixonaram ou ainda irão se apaixonar por sua poesia!


Saravá, Poetinha! Feliz Aniversário!
São os votos muito carinho do xará




Vinícius

28 de outubro de 2013

TROVA # 23

A ÚLTIMA TRANSFORMAÇÃO
DE LOU REED

Lou Reed em foto de Andy Warhol
Just a perfect day
you made me forget myself
 I thought I was someone else
 someone good
(“Perfect Day” – Lou Reed)


A partir do ano de 2013, o dia 27 de Outubro será conhecido como mais uma data na qual a música morreu mais um pouco. Foi um choque gigantesco para mim quando soube que Lou Reed deixou de estar entre nós. Uma perda irreparável para o Rock, para o Pop, para a música, para a Arte. Uma influência indiscutível para artistas do mundo inteiro. Um gênio e um chato de marca maior. Este foi Lewis Allan Reed durante 71 anos.

The Velvet Underground & Nico (1967)

         Lou não precisou de muita coisa para garantir o seu lugar dentre os grandes do Rock ‘n’ Roll. Seu disco de estreia à frente do Velvet Underground, o icônico The Velvet Underground & Nico (1967), é tão genial, mas tão genial, que se ouvirmos este disco em 2031, ele ainda vai estar milhares de anos à frente de seu tempo! Já seu segundo trabalho solo, Transformer (1972), é de uma perfeição tão absurda que não existem palavras para descrever esta obra-prima do Rock! Enquanto muitos precisaram de uma carreira sólida e extensa para garantir o seu lugar dentre os grandes do Rock ‘n’ Roll Hall of Fame, por exemplo, Lou Reed conseguiu isto com apenas DOIS álbuns!


Transformer (1972)

        

Mr. Reed on the stage



            Seus demais trabalhos nunca foram considerados “acessíveis” para o grande público, tal qual o incensado Transformer, produzido pela dupla dinâmica David Bowie – Mick Ronson. Discos como este figuram na lista interminável dos clássicos (Exile On Main Street, Talking Book, Harvest, The Rise And Fall of Ziggy Stardust & The Spiders From Mars...) que fizeram de 1972 um dos anos mais importantes da História do Rock. As 11 faixas, influenciadas diretamente pela magia glam de Bowie (mas sem deixar de ter o toque ácido do estilo poético de Reed), se tornaram parte das minhas relíquias musicais há anos. Guardo minha cópia da edição comemorativa deste disco ao lado de meus discos mais queridos em meu quarto. Ao pegar o disco e ter a certeza de que Lou Reed não está mais entre os terráqueos me dá uma tristeza sem tamanho.

“Satellite's gone up to the skies
 Things like that drive me out of my mind
 I watched it for a little while
 I love to watch things on TV”
Satellite of Love

Lou Reed, Mick Jagger e David Bowie em 1973


         Gênio para alguns e chato para outros, Lou Reed nunca se preocupou em ser uma unanimidade, herói, salvador da pátria musical ou qualquer coisa do tipo. Seus colegas de Velvet Underground viviam às turras com o vocalista excêntrico. Bowie - um admirador e parceiro de Reed - ficou anos sem falar com Lou por causa do ego gigantesco do autor de Transformer. Cometeu uma gafe enorme com Susan Boyle, quando esta gravou "Perfect Day", ao dizer que o trabalho de Boyle era um tremendo lixo (Susan foi às lágrimas e não foi por causa da beleza dos versos do clássico de 1972). Cancelou sua vinda à FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty), em 2010, sem nenhum motivo aparente. No mesmo ano, fez uma apresentação controvertida de seu álbum mais insólito, Metal Machine Music (1975), no SESC Pinheiros (SP). Apesar de muitos não esperarem que ele tocasse “Vicious” ou a antológica “Walk On The Wild Side” no Bis, os ingressos se esgotaram em menos de UMA HORA! Infelizmente, não tive a honra de estar no Teatro Paulo Autran para ver Mestre Reed em ação, mesmo sabendo que teria sido uma verdadeira chatice...

“Vicious, you hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby you're so vicious
Vicious, you want me to hit you with a stick
But all I've got is a guitar pick
Oh baby, you're so vicious”
Vicious

         
Lou Reed & David Bowie em 2008
         
          Outro exemplo de como Lou Reed não era algo de fácil apreensão para o grande público se deu na minha vida profissional. Certa vez, resolvi fazer uma atividade de Língua Inglesa baseada em “Perfect Day”, uma das baladas mais fantásticas de todos os tempos, para uma turma de alunos que cursavam o nível básico. Ser Professor de Inglês tem, dentre várias outras vantagens, a possibilidade de trabalharmos com o tipo de música que a gente gosta. Tudo transcorreu muito bem (Pre-Listening Task, While Listening Tasks, etc.) até a hora em que eu acabei de tocar a canção mais perfeita do Songbook de Reed. Meus alunos ficaram insatisfeitos (ou chocados, ou entediados, sei lá...) com a acidez dos versos do velho Lou (afinal, existe mais beleza do que tristeza em versos como "You're going to reap just what you sow", não é verdade?). Meus ex-pupilos se sentiram tão insatisfeitos que, na aula seguinte, uma aluna me deu uma sugestão de uma canção de LeAnn Rimes para uma próxima atividade... rsrsrsrsrs De meu herói musical, Lou Reed foi promovido a vilão das minhas aulas de Inglês!

“Yes I am mother nature's son
And I'm the only one
I do what I want and I want what I see
Could only happen to me”
I’m So Free

          A tarde de hoje ficou mais cinzenta por causa da última transformação de Lou Reed neste mundo. Que sua obra seja sempre relembrada e que sua influência sempre se dê entre nós, músicos ou não, roqueiros ou não, falantes de Inglês ou não, chatos ou não, gênios ou não. O autor de Transformer infelizmente nos fará falta, mas sua música é o passaporte para que possamos matar as saudades de mais uma Estrela que passou a brilhar em outros palcos...

Lou Reed (1942-2013) - R.I.P.

"Sunday morning
Wild side walking
Satellite of loving
All tomorrow's mournings"
(Alex Otaola)

30 de setembro de 2013

TROVA # 21


A MÁGICA MTV BRASIL

 



 

“Every little thing she does is magic

Everything she do she turns me on

Even though my life before was tragic

Now I know my love for her goes on …”

(Sting, à frente do The Police – 1981)

 

No início da década de 1990, briguei com unhas e dentes pelo que Sting, em férias do The Police, pedia no início do famoso hit do Dire Straits: “I want my MTV!”. A partir de outubro de 2013, serei mais um dentre vários órfãos da MTV Brasil. A Music Television brasileira foi mais do que um mero canal de TV ou puro entretenimento para este que vos escreve. Ela teve um papel decisivo na minha educação musical e na minha formação cultural. Graças a ela, tive a oportunidade de fugir do marasmo medíocre e fatal da TV aberta e ter a oportunidade de ver os integrantes do Olimpo musical nacional e internacional em plena atividade.
 

Por outro lado, é também preciso deixar a hipocrisia e o saudosismo para trás: a MTV Brasil dos últimos tempos estava profundamente decadente, cambaleava morbidamente em praça pública, tal qual um Michael Jackson de This Is It ou um Elvis Presley com vários quilos acima do peso. Sua programação não tinha mais o brilhantismo e a inteligência do que víamos nos anos 1990/2000. Os VJs que estavam a cargo da programação não possuíam o mesmo carisma daqueles que um dia revolucionaram a maneira de se fazer TV neste país. Além disto, a propagação viral da Internet, das redes sociais e do You Tube fez com que a nossa Music Television deixasse de ser um celeiro que revelava novos talentos e que consolidava a imagem e o som dos grandes astros nas retinas e ouvidos do grande público jovem brasileiro.
 

Também não podemos nos esquecer da presença sadia do canal no comportamento dos jovens que a assistiam com programas e vinhetas de cunho informativo e educativo – as campanhas de combate à AIDS, as campanhas de conscientização política e a memorável campanha “Desligue a TV e vá ler um livro!” foram alguns dos pontos marcantes da minha memória televisiva emetivesca. E quem não se lembra de programas bárbaros como o Barraco MTV, o Disk MTV, o Top 20 Brasil, o MTV Non Stop, o MTV No Ar, o Supernova, o TVLeeZão, Os Piores Clipes do Mundo, o Furo MTV, o Pé na Cozinha e as cerimônias do Video Music Brasil? Ou do programa que Thunderbird (entre as suas milhares de idas e vindas) comandou em 2003, no qual DOIS novos VJs foram escolhidos? Meus dedos da mão direita também terão uma enorme dificuldade de esquecer o número "25" no dial do controle remoto...
 

Não me esqueço do primeiro videoclipe que assisti quando sintonizava (com muita dificuldade) o canal 24 UHF da TV do meu antigo quarto: “Every Little Thing She Does Is Magic”, do The Police. Enquanto Sting, Andy Summers e Stewart Copeland dançavam como três patetas enlouquecidos, eu tive a oportunidade descobrir que a mágica de cada clipe, de cada vinheta, de cada VJ estava nas pequenas coisinhas. Coisinhas estas que me livraram da solidão típica de qualquer adolescente excêntrico. Não, Xuxa não foi minha babá eletrônica. Sim, a MTV (parcialmente) me educou e me moldou no decorrer dos meus “anos de formação”.
 
 
Modéstia a parte, posso afirmar sem a menor vergonha e com muito orgulho que se não fosse pela MTV Brasil eu jamais teria conhecido os integrantes do The Police (que habitavam minha imaginação desde a tenra infância) em plena atividade, ou não teria vivido o retorno triunfal de Madonna ao mundo Pop com o incensado Ray of Light (1998), os Rolling Stones convertidos em gigantes e dominando uma Nova York com som e luxúria no vídeo de “Love Is Strong” (do antológico Voodoo Lounge, de 1994) ou a reaparição do Blondie depois de quase duas décadas de inatividade com No Exit (1999). Bandas emblemáticas do BritPop e dos EUA como Blur, Oasis, Nirvana, Pearl Jam e Red Hot Chilli Peppers teriam passado incólumes por meus olhos e ouvidos. R.E.M. e 10,000 Maniacs, duas das referências musicais mais importantes para mim, foram apresentados a mim via Music Television. Mestres da música brasileira como Caetano Veloso, Rita Lee (com ou sem Os Mutantes e/ou Roberto de Carvalho), Tom Zé, Itamar Assumpção, Cazuza, Barão Vermelho, Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Gilberto Gil, Marina Lima, Cássia Eller, Gal Costa, Nando Reis, Zélia Duncan, Pitty, Zeca Baleiro, Planet Hemp, Chico Science, Fernanda Abreu e tantos outros seriam destituídos de qualquer significado para mim se eu não tivesse brigado pela minha MTV. Gigantes do Rock ‘n’ Roll como os Beatles (juntos ou solo), Led Zeppelin, Janis Joplin, The Black Crowes, Bob Dylan, Queen, Deee-Lite, Talking Heads, Radiohead, Metallica, Bom Jovi, Deep Purple, Black Sabbath (com ou sem Ozzy Osbourne), Garbage, Portishead, Lou Reed, Iggy Pop, Peter Gabriel, Eric Clapton e tantos outros não teriam sequer tamanho de um Gulliver sem a presença de seus videoclipes na TV. O mesmo teria acontecido se artífices do Pop do porte de Alanis Morissette, kd Lang, Prince, Annie Lennox (à frente ou não do Eurythmics), Stevie Wonder, Sheryl Crow, Mariah Carey, Human League, Shakira, Whitney Houston, Janet e/ou Michael Jackson, George Michael, Paula Cole, Fiona Apple, Jamiroquai, Beyoncé e tantos outros não estivessem na programação da MTV um dia. O que teria sido de mim sem a elegância de David Bowie, Bryan Ferry e Natalie Merchant?


Se eu não tivesse tido contato com estes nomes via MTV Brasil, eu jamais saberia distinguir o luxo do lixo em matéria de música popular. Em meio a uma era na qual a Internet, os downloads, o Google e o YouTube não tinham popularidade ou sequer existiam, a Music Television brasileira desempenhou um papel cultural fundamental para pessoas que dependiam das antenas UHF, da TV a cabo e da agilidade do Video Cassette.

 

Astrid Fontenelle: a cara da MTV Brasil
Enquanto muitas pessoas do meu círculo de amizades e contatos profissionais assistiam avidamente as atrações que agitaram o Rock In Rio 2013, eu preferi ficar na solidão do meu quarto assistindo o canto do cisne da MTV Brasil desenterrar imagens de arquivo em sessões de retrospectiva enquanto antigos (ex-)VJs se revezavam na tarefa de relembrar 23 anos de trajetória televisiva. Ao rever pessoas como Astrid Fontenelle, Gastão Moreira, Cuca Lazarotto, Luiz Thunderbird, Sabrina Parlatore, Edgard Piccoli, Soninha Francine, Fábio Massari, Marina Person, João Gordo e Chris Couto no vídeo, foi inevitável sentir um gosto de decepção e saudade. Decepção porque a tentativa brasileira de fazer uma MTV à brasileira, no final das contas, deixou de dar certo. Saudade porque todos sabemos que, a partir de 01 de Outubro de 2013, a MTV feita no Brasil passa a ser uma mera sucursal da original norte-americana, para tristeza de muitos parceiros da minha geração (que viveu o ápice da MTV, no decorrer dos anos 1990).
 

Graças às fitas VHS (hoje mofadas, provavelmente!) que foram convertidas em arquivos do YouTube, podemos assistir a mágica da MTV Brasil na Internet. Assim, podemos resgatar um pedaço de um momento marcante daquela programação incomum, anárquica e (às vezes) bizarra, como também, retomar flashes da nossa própria juventude sem evitar o saudosismo inútil e a lembrança de uma era memorável da televisão brasileira que, por forças do destino, atingiu o estágio final do seu ciclo.

Cheers!