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23 de março de 2017

DISCOS DE VINIL # 24

GAL COSTA – ESTRATOSFÉRICA (2015)


Os anos 2000 não foram lá muito significativos para a carreira musical de Gal Costa.  Seus álbuns da primeira metade da década, Gal de Tantos Amores (2001), Bossa Tropical (2002) e Todas As Coisas e Eu (2003) não lembram nem um pouco a cantora e intérprete inquieta, provocante e inspirada de álbuns antológicos como Gal (1969), Índia (1973), Cantar (1974), Gal Canta Caymmi (1976), Aquarela do Brasil (1980), Profana (1984) e Plural (1990). As declarações feitas por Gracinha no início da década de 2000, nas quais reclamava abertamente que a MPB carecia de jovens compositores não apenas enfureceu o público, como também trouxe um consequente ostracismo para a eterna porta-estandarte do movimento tropicalista.


No afã de recuperar o diálogo com a produção musical brasileira do século XXI, Gal Costa se associou a João Marcello Bôscoli e sua gravadora Trama e gravou Hoje (2005), um dos trabalhos mais belos de sua discografia. O CD contou com os arranjos e a produção musical de César Camargo Mariano (segundo marido e ex-diretor musical dos discos de Elis Regina no decorrer da década de 1970 e início dos 1980) e agrupou canções de compositores menos conhecidos Carlos Rennó, Junio Barreto, Péri, Lokua Kanza e inéditas de medalhões da MPB como Caetano Veloso, Chico Buarque e José Miguel Wisnik. No entanto, a direção musical de César e o timbre forte de Gal nos dão a sensação de que algumas faixas soam como o créme de la créme da Pimentinha ou de algumas criações das lendárias boates do Beco das Garrafas. Em outras palavras, Hoje, apesar de reunir o melhor da juventude musical dos anos 2000, soa irremediavelmente retrô – ou vintage, como diríamos nos dias de hoje.


A primeira década do terceiro milênio ainda nos levou mais dois discos ao vivo de Gal Costa: o insípido Gal Ao Vivo (2006), um registro em CD e DVD da turnê Hoje, além do burocrático Gal Costa Live At The Blue Note (2006), álbum no qual ela reinterpreta os clássicos da Bossa Nova para Inglês ver. Depois do lançamento destes trabalhos, pouquíssimo se ouviu da cantora mais moderna de todo o Brasil durante a segunda metade dos 2000. Alguns diziam que Gracinha tinha desistido de cantar e queria apenas se dedicar à família, outros diziam que era apenas um breve intervalo. O fato é que ficamos sem ouvir Gal lançar álbuns de canções inéditas por mais de cinco anos – uma eternidade para uma artista que sempre produziu com alta frequência.


E quando ainda havia boatos de que Gracinha ainda estava na pior, ela ressurgiu para os olhos de todo o Brasil com um CD que literalmente sacudiu o meio musical no final de 2011. Recanto contou com 11 canções de seu parceiro musical mais recorrente, Caetano Veloso, e fez com que Gal refizesse as pazes com o público e fosse definitivamente louvada pela crítica especializada. Enganaram-se os tolos que achavam que este disco seria mais um disco de MPB easy-listening, com arranjos que remetiam aos discos clássicos que ambos faziam para a Philips nos anos 1970 ou com a musa tropicalista à frente da Banda Cê (power trio que acompanha Caê em shows e discos desde 2006) cantando temas alegres e fáceis de batucar. Recanto era uma viagem ousada de Caetano e Gal conduzida por Moreno Veloso, Kassin e cia. e por sonoridades eletrônicas, de cunho extremamente radical, com letras bastante fortes para serem ditas por aí.


A partir de 2011, Gal Costa passou a desfrutar de um privilégio que pouquíssimos artistas de sua geração conseguiram vivenciar: sua música não apenas rejuvenesceu, como também seu público se renovou. A quantidade de jovens que se somavam aos fãs mais antigos de Gracinha nos shows aumentou em escalas assustadoramente exponenciais. Gal passou a ser uma cantora da maior importância para, nada mais, nada menos do que CINCO gerações. Depois de alguns de ostracismo, a coisa mais linda que existia era simplesmente, brincando com a bela canção de Torquato e Gil, tê-la perto de nós no disco e, melhor de tudo, no palco. Recanto Ao Vivo (2013) é o testemunho audiovisual da paixão e glória de uma das cantoras mais influentes de todo o Brasil, evidenciando uma artista com uma forma vocal simplesmente invejável e com um repertório irrepreensível.


Com o fim da turnê de Recanto, Gal Costa começou a arquitetar as bases do repertório para um novo show. Seguindo às orientações do jornalista Marcus Preto em relação à direção artística e de repertório, Gal reuniu alguns lados B de seus discos (“Caras e Bocas”, “Tuareg”, “Passarinho”) e algumas inéditas para o recital Espelho D’Água, no qual era acompanhada somente por Guilherme Monteiro na guitarra e no violão. As apresentações, que ocorreram entre meados de 2014 e o início de 2015, foram não apenas uma oportunidade para que público e artista revisitassem um legado de décadas, como também serviu para que Gal e Preto arquitetassem o CD Estratosférica ao lado da produção de Kassin e Moreno Veloso.


Gal Costa queria que seu mais recente CD tivesse a mesma sonoridade juvenil de seu antecessor, porém menos radical do que a experiência musical de Recanto. A banda-base que foi reunida para as gravações consiste de Guilherme Monteiro (Guitarra), Kassin (Baixo), Pupillo (Bateria) e André Lima (Órgão e Teclados) e ainda contou com a participação especial em algumas faixas de Davi Moraes (Guitarra), Moreno Veloso (Cello, Piano, Violão, Coro, etc.), João Donato (Fender Rhodes), Armando Marçal (Percussão), Donatinho (Teclados) e o recém-falecido Lincoln Olivetti (Arranjo de Metais). O grande trunfo de Estratosférica não apenas consegue realizar as intenções previstas por seu time criador, como também consegue estabelecer um diálogo com todas as fases da carreira de Gal: “Sem Medo Nem Esperança”, rock de Antonio Cícero e Artur Nogueira que abre o disco, lembra “Vaca Profana”, “Quando Você Olha Pra Ela”, de Mallu Magalhães, nos remete a “Que Pena” (Ela já não gosta mais de mim) e a outros sambas do bom e velho Jorge Ben (quando este ainda não incluído o sufixo -Jor ao seu nome artístico), “Ecstasy”, parceria de Thalma de Freitas e João Donato, parece surgida de Cantar e “Você Me Deu”, parceria de Zeca e Caetano Veloso, dialoga com o universo pop-eletrônico de Recanto.


Ao contrário de alguns de seus colegas de MPB que chegaram à faixa dos 70 anos de idade e dos 50 anos de carreira – a artista em questão atingiu os dois marcos em setembro de 2015! -, Gal Costa decidiu embarcar em uma nave estratosférica com 15 canções inéditas (além de uma faixa bônus), sem olhar para glórias do passado ou homenagens revisionistas. Já na primeira faixa de seu novo CD, Gracinha lança mão de um tom tão ousado quanto na época em que berrava a plenos pulmões que o Brasil precisava estar atento e forte: “Não sou mais tola / Não mais me queixo / Não tenho medo / Nem esperança / Nada do que fiz / Por mais feliz / Está à altura do que há por fazer”. Em outras palavras, Gal Costa chega aos 70 anos dizendo claramente que o essencial é olhar para frente, pois ela ainda sabe que ainda há muito o que ser feito. Permite-se levar pela batida soul de “Jabitacá”, que parece saída de um dos discos da série Racional, de Tim Maia: “Mas não me deixe navegar / Se já não crê no encanto deste mar / Se nossas manhãs se perderam nas ruas sem jardins / Enfeitou a nossa casa / Com a rosa da mais bela cor / Encontrada nas montanhas do Jabitacá”. Além disso, não tem o menor pudor de entoar as libidinosas palavras do velho amigo Tom Zé, que escreveu uma das melhores faixas do disco, “Por Baixo”: “Por baixo do vestido: a timidez / Baixo da timidez: a seda fina / Baixo dela: uma nuvem de calor / Baixo desse calor: um perfume da China”.


Estratosférica traz algumas parcerias inéditas. “Dez Anjos” marca a primeira parceria entre Milton Nascimento e o incensado rapper pop-star Criolo e traz a voz de Gal Costa entoando um lamento urbano pontuado pela bateria de Pupillo e pelo cello de Moreno Veloso: “Seis almas pra tentar / Sete almas dizem não / Oito almas pra sofrer / Nove almas narrarão / Que dez anjos vão morrer / Todos sem arma na mão”. Já a filosófica “Espelho D’Água” é o fruto do primeiro encontro musical entre os irmãos Marcelo e Thiago Camelo: “Eu vi a revoada / O mar, estrela e o nada / Os olhos da morena / E o nosso espelho d’água”. Já a sensual “Ecstasy” surgiu de uma colaboração entre a cantora e atriz Thalma de Freitas com João Donato, que tocou o piano Fender Rhodes na faixa: “Diga que deseja ter pra si / A maravilha de um pleno existir / Um amor assim / Para chamar de Ecstasy / Adorado amor, tão elegante / Multicolor, fascinante / Viver com você / É alcançar o Ecstasy”. Além disto, Gal gravou pela primeira vez uma canção escrita por Marisa Monte – “Amor Se Acalme” foi uma canção escrita especialmente para a eterna musa do Tropicalismo e reproduz com exatidão o universo de amores e paixões intensas tão comuns ao universo de Memórias, Crônicas e Declarações de Amor: “Amor se acalme / Que a noite já vai dormir / A alma passeia / E o nosso corpo fica aqui / Se isto é sonhar, não sei / Parece viver, só eu e você”.




Este CD de Gal Costa mereceria nota 10 se não fosse por um único detalhe sórdido. Não nos referimos ao repertório, que é irrepreensivelmente belo e moderno. Não é pela capa com a foto de Bob Wolfenson, que conseguiu produzir mais uma imagem fantástica e icônica de Gracinha. Não é pela produção e direção artística impecáveis de Moreno Veloso, Kassin e Marcus Preto. É por causa das faixas-bônus deste trabalho. Estratosférica ganhou três edições: uma em LP, uma em CD e outra digital. Por uma estratégia de marketing errônea da Sony Music, gravadora da artista, o LP não ganhou nenhuma faixa bônus, o CD ficou com apenas uma (uma releitura belíssima de Gal para “Ilusão à Toa”, de Johnny Alf – originalmente gravada para a trilha sonora da novela Babilônia, da Rede Globo) e edição digital concentrou duas gravações que são praticamente inéditas do grande público: “Átimo de Som”, parceria de Arnaldo Antunes e José Miguel Wisnik e “Vou Buscar Você Pra Mim”, canção que Guilherme Arantes compôs especialmente para a intérprete que, por sinal, nunca tinha gravado nada do autor de “Meu Mundo e Nada Mais”.



Estratosférica é o testemunho definitivo que a cantora mais moderna deste país responde pelo nome artístico de Gal Costa. Muitas cantoras tentam imitar, outras tentam copiar, algumas tentam posar de “moderninha”, mas o fato é que gravações como “Muita Sorte”, “Casca” e “Anuviar” fazem com que se torne ainda mais difícil chegar aos pés do Gracinha já fez e ainda irá fazer. Enquanto a concorrência e os haters chegam de circular, Gal voa por um céu de brigadeiro em sua nave estratosférica zumbindo eternamente por nossos ouvidos...

16 de fevereiro de 2017

DISCOS DE VINIL # 20

TULIPA RUIZ – DANCÊ (2015)


Desde que ouvimos os anúncios de que o terceiro álbum de Tulipa Ruiz já estava a caminho, criou-se um tremendo frisson nas redes sociais em torno da questão da velha e batida questão “será que este álbum vai superar o anterior?” que estamos enfastiados em ter que ler e responder.
Para os ouvintes que agiram como abelhas atentas do pólen musical deixado por Tulipa após os cultuados álbuns Efêmera (2010) e Tudo Tanto (2012), não ficaram muito surpresos com os rumos musicais que a cantora decidiu trilhar em seu terceiro CD. O single “Megalomania” e o EP Tulipa Ruiz Remixes já eram pistas claríssimas de que a flor cantante iria fazer como David Bowie fez conosco em 1983 e iria literalmente colocar a gente para dançar…
Sejamos diretos ao assunto: Dancê (2015), como diz o título, é um CD para o ouvinte bater o pé, tirá-lo do chão, mexer a cabeça de um lado para o outro e sair dançando, embarcando na levada loucamente musical (Sorry, Ivete!) para a qual Tulipa nos convida, sem deixar de nos fazer refletir em uma série de coisas, tal qual em “Prumo”, faixa de abertura do disco, assinada por ela em parceria com Gustavo Ruiz:


Começou
Agora você vai tomar conta de si

Das tuas minhocas, caraminholas,
das encucações, dos teus pepinos
Das pérolas, das abobrinhas,
dos abacaxis, dos nós, dos faniquitos.

Se você está na dúvida se ouvir o CD realmente vale a pena ou não, Dona Tulipa e banda enviam um recado muito claro para os indecisos em “Reclame” (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz, Caio Lopes, Marcio Arantes e Luiz Chagas):


Trato azedume, mau-olhado, ‘quebrante’, vício
Trato treta de trabalho
Trabalho com amarração
Resolvo o seu problema com baralho, com pôquer, bingo
Pra bituca de cigarro eu tenho a solução
Trago seu amor de volta se me fizer uma visita
A gente faz uma combinação, você acerta e acredita
No duro, dá certo
Nunca houve reclame.

Enquanto bailamos entre sons de metais e brasa e acordes de guitarra capitaneados por Luiz Chagas e Gustavo Ruiz, Tulipa segue disparando seu arsenal de provocações aos ouvintes de Dancê. “Jogo do Contente”, outra parceria dela com Gustavo, traz uma sequência interessante de cutucadas àqueles que insistem em viver dentro de uma determinada zona de conforto:


Todo motivo te leva a querer
Todo querer te faz ter vontade
Toda vontade te faz ter impulso
Todo impulso sempre me estimula

Toda sequência tem uma rotina
Toda rotina te causa estrago
Todo estrago merece um conserto
Todo conserto te modifica.


“Proporcional” questiona, com bom humor, as diferenças entre as medidas das pessoas e aponta que não existem (ou deveriam existir) obstáculos entre as diferenças:


Cada um tem seu formato
Apertado, colado, justo
Largo, folgado, amplo, vasto
Cheio, graúdo, forte, farto
Esguio, fino, compacto.

Visto GG, você P
Você P, eu GG
Visto GG, você P
Você P, eu GG.


“Expirou”, mais uma parceria dos irmãos Tulipa e Gustavo Ruiz, traz a nostalgia de eventos dos quais não tivemos a oportunidade de participar pelo simples fato de que ainda não vivíamos por estas bandas. Alguns exemplos: os barulhentos festivais da canção brasileira nos anos 1960 e 1970, São Francisco, Woodstock e a Swinging London, “Carcará”, “Aquele Abraço” e “Divino Maravilhoso”, os Novos Baianos, as Dunas da Gal, FA-TAL e Cantar, Itamar Assumpção e a Isca de Polícia, Grupo Rumo, Madame Satã são apenas alguns exemplos de coisas que nós, nascidos após 1975, faríamos de um tudo para ter ouvido e vivido na época de seu surgimento. Embalada pela guitarra mítica de Lanny Gordin (que acompanhou Gal Costa em sua também mítica turnê de 1971-72), Tulipa Ruiz saúda a alquimia dos mestres com o devido respeito:


Sinto falta de um tempo que ouvi dos amigos
Tava escrito num livro
Tocou numa vitrola
Foi dançado, cantado, recitado, falado
Publicado, sentido, decupado, contado
Mas eu não tava ali

Quando é que a saudade daquilo que a gente não viveu passa?
Se passa, parece que já foi, mas quando você vê volta
Volta porque tem a sua cara, tem a ver com a sua história.


“Elixir”, quarta faixa do disco, é um petardo para uma sociedade que acorda com Prozac e dorme com Rivotril e acredita que vive um fluxo extremamente natural de sua existência. Fruto de uma noite em claro da própria Tulipa, a canção nos indica o sonho dourado de muitos notívagos angustiados por aí:


Apaga, filtra, manera
Massageia o esqueleto
A cuca, a cabeça, a traqueia
Cotovelo do esqueleto
A lombriga, clavícula, pé e a costela do esqueleto

Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir
Dormir é o meu sonho principal
Legado aos olhos como se fosse elixir

Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
Zero reflexão, zero
E entra no estado zen.

Uma das faixas mais divertidas de Dancê é “Físico”, mais uma parceria de Tulipa e Gustavo assumidamente inspirada no hit “Physical”, eternizado por Olivia Newton-John em 1981. Para resgatar a sonoridade disco do início dos anos 1980, a trupe contou com a participação especial de Kassin, que tocou baixo, guitarras e sintetizadores. O desejo de Tulipa Ruiz, ao contrário do que sugere a tendência apontada pela estrela de Grease e por pessoas obcecadas em viver relações baseadas somente em atributos físicos, descreve alguém que vai além do que é obviamente esperado nas típicas atrações sexuais:


Tudo que eu gosto tá em você
É puramente físico
(…)

O formato do nariz
Osso pontudo do pescoço
Lóbulo da orelha
Desenho da sobrancelha
Pintas pela pele
Pelos, tornozelo
Dedo, nuca, calcanhar, cabelo
Da boca pra fora
Fora de fora pra dentro
(…)
Você veio assim sem defeito.


“Old Boy”, décima faixa do disco, fala sutilmente sobre a importância do viver com a certeza de que teremos um aprendizado em relação ao que foi vivido. Em outras palavras: uma bela canção sobre a morte, com versos singelos e uma interpretação sóbria de Tulipa:


Vai ter tempo de sobra
Mesmo sendo velho, sabe sobre tudo
Sempre pra valer
Volta e meia, cê volta
Nunca é tarde, pelas tantas recomeça
Vence em convencer
Não tem fim, nem começo
O agora é agora, voa
Já passou, olha, passou
E fica também na sua memória
Sempre você
O tempo e você.


O brilho de Dancê também está nos convidados especiais que participam do disco. A elegância e a jovialidade de João Donato fazem de “Tafetá” um dos momentos mais belos do disco. Balada ao estilo do balancê inconfundível do criador de “A Rã” sem deixar de incorporar o balancê frenético das produções musicais da flor cantante, a faixa é uma ode à beleza masculina capitaneada pelos vocais em canto e contracanto Donato e Tulipa, pontuados pelos metais, violão, percussão e pelo piano fender rhodes em menos de 4 minutos de duração:


Fino
Só você
Elegante
Sabe bem
Muito trato
Combinar
Na lapela
Tem o dom
Tem um padrão
Já que tem
Desenhado
Sabe usar
Tem casaco
Dégradé
Engomado
Tafetá


“Virou”, parceria de Tulipa Ruiz com Felipe Cordeiro, Gustavo Ruiz, Manoel Cordeiro e Luiz Chagas, é uma colaboração que contou com a participação de Felipe Cordeiro, dividindo os vocais com Tulipa e de Manoel Cordeiro (pai de Felipe) que tocou guitarra na faixa. Os versos do refrão já garantem a memorização do ouvinte já a partir das primeiras audições de uma das faixas mais alegres de Dancê:


Era pra ficar no chão
Deu pé, decolou
Era pra ter sido em vão
Como é que durou?
Era pra ficar ali e por aí caminhou

Era pra ser menos sério
Mais cara-de-pau
Era para ser só nuvem e precipitou
Podia não ter dado em nada
Então como é que virou?


No entanto, a participação especial mais intrigante de Dancê foi a do Metá Metá (Juçara Marcal – Voz, Kiko Dinucci – Guitarra, Marcelo Cabral – Baixo, Sergito Machado – Bateria, Thiago França – Sopros em “Algo Maior”, parceria de Tulipa Ruiz, com Gustavo Ruiz e Luiz Chagas. As vozes fortíssimas e distintas de Tulipa e Juçara resultam na sensação angustiante de uma tormenta que está a caminho, mas nunca chega – algo típico para uma interpretação de um grupo de balé contemporâneo, com coreografias típicas de Deborah Colker:


Tá pra nascer algo maior
que vá tirar do lugar as coisas que cismam em não andar
Tá pra nascer algo maior
que tudo o que você já viu, leu, sentiu, soube ou ouviu
Não sinta medo nem dó de ser feliz e se soltar,
de saber bem o que lhe convém
Tá pra nascer quem viva só,
pois de me, myself and I já basta eu, você e nada mais.

Ao ser encerrado com este épico de cinco minutos e trinta e nove segundos, Dancê deixa muito claro que Tulipa Ruiz não é uma cantora que segue os caminhos óbvios já traçados pelo Pop e pela MPB recentes. Também revela um grande disco, feito com inteligência acima do comum. E o melhor de tudo: ele consolida de vez a parceria Tulipa Ruiz – Gustavo Ruiz, que tem um potencial gigantesco para já constar no rol de parceiros célebres de nossa música como Marina Lima – Antonio Cícero (irmãos e parceiros, tal qual Tulipa e Gustavo), Roberto Carlos – Erasmo Carlos e tantas outras…



Enquanto isso, aproveite para afastar os móveis da sala, abrir um espaço bem amplo para que você dar o play e colocar Dancê para rodar na sua cabeça e sair bailando sem a menor vergonha de dançar alegremente. Se Tulipa nos diz que um bom estímulo pode nos trazer boas influências, deixe-se levar por este CD que, para nós, já nasceu clássico.


16 de novembro de 2016

DISCOS DE VINIL # 7

KARINA BUHR – SELVÁTICA (2015) 



“As mulheres tem servido por todos esses séculos como espelhos que possuem o poder mágico e delicioso de refletir a figura do homem com o dobro do seu tamanho natural.”
(Virginia Woolf – A Room of One’s Own)


Se realizarmos uma pesquisa a respeito de como a música brasileira tem retratado a figura da mulher no decorrer dos anos, vamos chegar à conclusão lógica, clara e evidente de que a fala feminina ela é, na verdade, uma extensão do pensamento masculino: a Amélia de Mário Lago sempre será querida pelo público por ser a fêmea “de verdade” que lava, passa e faz as vontades e desejos de seu macho; a Marina de Caymmi, coitadinha, nem poderia sequer utilizar uma maquiagem para se sentir mais bela, visto que a noção de beleza é definida pelo macho que canta.
Erasmo Carlos, em uma de suas mais belas canções, não apenas pediu inspiração, como também deu uma pequena voz àquelas que não podiam se expressar. Chico Buarque, travestido de mulher em versos, conseguiu traduzir uma parcela dos desejos e contradições da “alma feminina”. Rita Lee, quando era a mulher mais importante da música popular deste país, soube dar voz a uma série de questões que vivíamos na ordem do dia para aquelas que sempre foram reprimidas sumariamente por aqueles que amaram.


Karina Buhr é uma das poucas artistas femininas dispostas a reescrever a história da figura feminina na música brasileira: seus discos, seus desenhos e seus poemas clamam pela defesa das mulheres em geral, em um mundo ideal no qual a igualdade de direitos deveria valer para ambos os sexos. No entanto, o Brasil ainda necessita de manifestos feministas em pleno século XXI para entender o quanto a luta por direitos iguais ainda é necessária e relevante. Selvática, terceiro álbum de Karina, é muito mais do que um simples disco: trata-se de um manifesto que afirma a necessidade do empoderamento da figura feminina em meio à cena contemporânea. A ideia em relação ao conceito deste trabalho surgiu a partir da leitura de uma passagem do livro do Gênesis, da Bíblia (um livro machista, deixemos bem claro), que fala a respeito da criação dos animais selváticos (cobras, insetos e outros bichos peçonhentos) – as mulheres em geral, por serem criaturas ligadas ao pecado e por serem supostamente traiçoeiras e dotadas de fragilidade, também deveriam ser consideradas como selváticas. A artista justifica que sua proposta reside no fato de que é preciso reescrever uma história pautada em silêncio e opressão, visto que os fatos históricos foram escritos e proclamados pelos homens.
A comoção em torno do álbum começou a tomar conta das redes sociais em setembro de 2015 quando a capa do disco foi divulgada na página mantida por Karina Buhr no Facebook. A imagem – que mostra a cantora sem camisa (o que implica os seios à mostra) é caracterizada como uma guerreira do Daomé, com colar, pulseiras e um punhal já demonstrando estar preparada para o combate – foi censurada com a alegação de nudez explícita. O que o Sr. Mark Zuckerberg – e a ala conservadora que tem tido voz e espaço neste país ignora solenemente – é o fato de que o adjetivo selvático significa algo próprio das selvas, que nasce e/ou se cria por lá. A postura, infelizmente, não surpreendeu Buhr, que afirmou ao portal G1 no auge da polêmica: “Achava que o Facebook poderia tirar a foto, bloquear meu perfil ou até a página, como já aconteceu outras vezes, por exemplo, com o fanzine digital ‘Sexo Ágil’, que faço desde 2012 e onde sempre tem peitos. Mas não deixaria de postar a capa do meu disco, nem méis desenhos, nem nada, por conta disso”.
Se Karina Buhr tivesse que atender às expectativas de seus censores (machos, machistas e feminazis exercendo o pior de seu patrulhismo ideológico, político e estético), como ela deveria retratar o conceito de um ser selvagem ou silvestre? Vestindo roupas de Christian Dior para agradar aos que teriam se sentido supostamente agredidos por um par de belos seios?! Enquanto a patrulha em torno dos corpos femininos tomava conta das redes em nome da tradição, dos bons costumes em prol de uma suposta vaidade da artista, outros decidiram repostar e recriar a controvertida foto em seus perfis como um ato de protesto, o que rendeu um efeito instantâneo: a curiosidade em torno do CD aumentou de maneira impressionante, apesar da onda hipócrita e reacionária constante…
Antes de tecermos quaisquer considerações acerca das canções do disco, é importante dizer que Karina Buhr contou com um time de músicos de primeiríssima categoria para as gravações de Selvática: Bruno Buarque (bateria, MPC e percussão), MAU (baixo), André Lima (teclados), Guizado (Trompete), Fernando Catatau e Edgard Scandurra (guitarras). O CD ainda contou com as participações especiais de Manoel Cordeiro (guitarra), Laura Lavieri (vocais), Victor Rice (violoncelo) e da aparição das vozes selváticas de Denise Assunção e Elke Maravilha. A produção do álbum ficou a cargo de Buarque, MAU, Lima e Rice, que gravaram as faixas entre os meses de junho e julho de 2015.

André Lima, Karina Buhr, Bruno Buarque, MAU e Victor Rice (sentido horário)


A faixa de abertura, “Dragão”, ajuda o ouvinte a ser inserido no contexto do disco. Como uma fera que chega sorrateiramente diante de sua presa, o discurso de Karina nos envolve em um belo reggae que nos diz que “a tristeza é amiga da onça, / que ensina a enfrentar leões”, dentre os milhares que devem ser combatidos pelo dia-a-dia. No entanto, a temporária calmaria era um passo em falso para o ouvinte menos avisado de Selvática, visto que a segunda faixa do álbum é o rock “Eu sou um Monstro”, fala de clichês femininos e da necessidade da mulher de abandonar o estado de apatia em um universo majoritariamente misógino e que consegue abalar as estruturas emocionais de qualquer indivíduo através dos versos diretos de Buhr e da guitarra incendiária de Edgard Scandurra:

Mulher, tua apatia te mata
Não queira de graça
O que você nem dá pra você, mulher
Hoje eu não quero falar de beleza
Ouvir você me chamar de princesa
Eu sou um monstro
(…)


O peso da agressividade do primeiro single de Selvática abre espaço para a terceira canção do disco, “Conta Gotas” (Karina Buhr & Guizado), que se destaca pelos solos lancinantes do trompete de Guizado, que interagem com a poesia cortante de Karina, que revela a típica tristeza proveniente de lágrimas derramadas, lástimas ditas de maneira veloz e imperdoável e pensamentos a voar livremente diante de uma relação amorosa supostamente marcada pela infelicidade constante. Já a faixa seguinte, a desaforada “Pic Nic” (com destaque para os riffs nervosos de guitarra de Fernando Catatau, integrante do grupo Cidadão Instigado), é uma nota raivosa, irreverente e debochada ao universo pequeno-burguês e suas mediocridades, com seus ímpetos de ganância (um cacoete masculino?) e seu elenco de indivíduos supostamente descartáveis. Eis os versos de Buhr, repletos de sarcasmo e deboche:


Não me importa de onde vem o dinheiro dele
Vai ter churrasco não sei onde botou o gelo ele
Tem pó de serra, cerveja em cima da mesa
Tem pés em baixo da minha mesa

Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic
Não tem graça, não tem graça, toalha de picnic

Não quero saber porque você veio
Nem de sua cerveja, seu gelo, sua ganância
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas
Eu também prefiro coisas

Seu filho ri enquanto o meu chora
Você chama o psicólogo
Eu jogo você fora

Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Chame o psicólogo!
Agora, chame o psicólogo!

Corre, pega o gelo
Corre, frita a carne
Corre, não reclama
Corre, não faz drama

Corro pra minha vida
Acordo pra corrida
Corro pro salário
Seu esquema otário

(…)



A quinta e a sexta faixas de Selvática são os dois números mais fortes e ligeiros do disco. “Esôfago”, de Karina Buhr, fala da violência doméstica sofrida por milhares e milhares de mulheres que nunca tiveram a oportunidade de ter seus males reparados por uma sociedade misógina e injusta. “Cerca de Prédio”, parceria de Buhr com Cannibal (baixista e vocalista da banda punk Devotos), versa sobre a especulação imobiliária e do clima sufocante que tomou conta dos grandes centros urbanos. Os versos da canção refletem a impossibilidade do indivíduo de se reconhecer em meio à cidade que o reprime e não o acolhe:


Não te reconheço, minha cidade
Não deixe, não se abandone
Com promessa de felicidade
O asfalto quente consome

Carnaval eu volto
Me espera
Com tanto pé de planta
Você de primavera

Cidade ouve seu grito
Dia de hoje um corte bruto
Estúpido
Estúpido
Estúpido
Estúpido

Não te reconheço, minha cidade
Não deixe, não se abandone
Com promessa de felicidade
O asfalto quente consome

Quando der eu volto, me espera
Me leve pro seu mundo
Um poço de calma
Que alivia a alma
Entristece coração

O tempo faz isso com a gente
O tempo faz isso com a gente
Move montanhas diálogos
Muda o compasso com os passos

Planta dos pés no chão
queimando cansaço
Algumas coisas mudaram
Grades, janelas
Acho que a casa é aquela
Agora é amarela
Planto meus pés na cidade
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio
Cerca de prédio


Os três números seguintes do terceiro álbum de Karina Buhr são os momentos mais poéticos e reflexivos do disco. “Vela e Navalha” e “Rimã” vão da descrição hábil de uma bela guerreira ao momento de plena devoção à natureza que nos regenera é que merecia maior respeito por parte dos humanos.




No entanto, é a nona faixa de Selvática, “Alcunha de Ladrão”, que expõe o talento genuíno de Buhr para escrever versos. Ao relatar o cotidiano cruel de um ser marginalizado pelo chamado “avanço social”, a autora de Desperdiçando Rima consegue retratar com clareza algumas das principais mazelas do Brasil – a fome, a miséria, a desigualdade social, a repressão policial, o descaso das autoridades perante os excluídos:


Solução às vezes nenhuma
Ou vês alguma saída
Se não tem esperança sobra
Quando tem ela pede comida
Sofrida a boca esquece
Do barulho do estômago aflito
Que o bico seca sem água
Que exige e consegue viver
Que não quer mas precisa, de fome,
Pensar rápido, roubar e correr

Não era esse o seu ofício
Nem o que sonhava pra si
Mas a fome não mede o porvir
E exige na pança o peso
Se ileso consegue fugir
Não entende como passou
Só sabe que precisava
Não teme quase nada
Suas asas que seguem inteiras
Pairam na beira do perigo
Não tem vicio praticamente
não sente arrepio na vista
não tem quase medo de nada
mas teme ainda a polícia



“Desperdiço-te-me”, penúltima canção do disco, é um belo texto sobre paixão e desilusão amorosa. Tal qual uma Carolina buarqueana que vê algo de essencial passar diante de seus olhos tristes sem esboçar quaisquer reações, a Karina Buhr destes versos também se revela como uma mulher dominada pela apatia infeliz de um sentimento avassalador, que vence sua presa pelo cansaço:

Quando você botou o dedo
No meu coração
Abriu um rio
Abri meus olhos
Vi que a sala estava escura
Que brilhava a pele dura
De paixão

Hoje desperdiço-me
Sentada nesse jardim
vendo a vida passar por mim assim
Hoje desperdiço-me
Vendo um pedaço da vida
passar por mim e ir

E não faço nada pra conter
O desvio de poder sobre mim
Que passou de miim pra você
Quando te vi pela segunda vez

Então desperdiço-te-me
Nesse cansaço da vida
que passa por mim

Selvática chega ao fim com a canção-manifesto que dá nome a esta coleção de 11 canções irrepreensíveis. Karina Buhr se propõe a reescrever a história das mulheres a partir do momento presente, resgatando o instinto guerreiro contido em cada indivíduo do sexo feminino que tenha sido vítima de misoginia, de agressão ou de qualquer desmando gerado pelo sexo oposto, abrindo caminho para a liberdade de um sexo tido como inferior ou supostamente frágil:

Refaço! Rechaço!
Não lhe devemos nada
não nos verás na escuridão como capacho
nos temporais amargos
dias penumbrosos anoitecidas
Não moveras do corpo um pelo
a tempestade é vencida
Selváticas, por amor ensandecidas.
Não as tocarão manadas apedrejantes.
Selváticas, de vitórias surpreendentes munidas
cavalgam amazonas delirantes.
Guerreira que bebe sangue
arco e flecha do Daomé
viço do bicho, ebó de mangue
jurema da favela
óleo de palma pra ela
alma na planta do axé


A partir da primeira feitiçaria atirada por Karina aos seus ouvintes sem sinal de dó, surgem duas vozes selváticas que irão corroborar a história a ser reescrita. Denise Assunção (irmã do Nego Dito Itamar Assumpção) reencarna as guerreiras africanas selváticas e lança suas profecias em formas de versos, gritos e uivos desesperadores:


O eclipse perdurará
acharás palha no agulheiro e transmutarás
Perfurarás o mal seu e o alheio e o enforcarás
com o cipó da própria raiz segura
costura de árvores nas alturas
não espirrarás tua violência amanhecida
tantas vezes na aprovação da multidão
tua sanha virará só coração
sem arranhão, nem ferida
Choro trufado, pedregoso
umedece o olho arranhando
refinando a vista embargada
guerrilheira curda vitoriosa
nas curvas das serras teimosas
Mulheres, conforme a espécie na guerra
esbravejam a dor da Terra em uivos
lhes crescem pupilas ruivas
uvas bacantes semeadas
oliveiras palestinas suculentas
avisam: já não há quem possa

Denise Assunção e Karina Buhr na choperia do SESC Pompeia
Foto: Nilton Serra


Elke Maravilha, a segunda voz selvática a aparecer, relembra as mulheres que foram levadas às inquisições por feitiçaria ou qualquer outro tipo de pecado.  Ela nos avisa que os fatos históricos serão reescritos de forma que as cicatrizes indeléveis gravadas em vários corpos femininos sejam finalmente esquecidas – independentemente da aprovação dos homens:

Chifres de marfim nascem devagar
a empurrar entremeando os cabelos
Afiam-se dentes-pontas-de-diamantes
estraçalhadores fulminantes de pecadoras maçãs
Vãs as imagens delas
conforme a sua semelhança
bailarão lança e festança
extirparão o sumo da memória criminosa
refarão a história e a prosa
de tuas eternas inquisições de fogueiras
em beiras de abismos baderneiras flamejantes
ciganas a postos abafarão os berreiros constantes
em fogosas rosas gigantes
filhos meus, os seus e os nossos
Selváticas, elas não necessitam seu elogio
Ela transgride sua orientação

A profecia de Elke, concluída com uma gargalhada típica de uma bruxa horripilante, dá espaço para a conclusão do manifesto de Karina Buhr, que lança mão da prosódia religiosa e finalmente sentencia para concluir, no dizer da filósofa brasileira Márcia Tiburi, esse “heavy metal-macumba feminista, esse deboche bíblico-diabólico, tentando entender o teratológico gênero musical que só a Karina podia inventar para reunir bruxas, fadas, amazonas, iluminadas e guerreiras, perdidas e vitoriosas”:

Refeito o começo bíblico
não ferirás nenhum corpo por ser feminino
com faca, ou murro, ou graveto
eu te prometo
sedarás o mal, interceptarás no meio do caminho o espeto
Super heróis de tuas vítimas estancadas
agora és delas a espada e não o algoz
Selvática, ela come a selva de fora
ela vem da selva de dentro!
Selvática, ela pare a própria hora
ela bale em pensamento!
E no final ideal não terás domínio
algum sobre mulher alguma!
No final ideal não terás domínio
sobre mulher alguma!

Karina Buhr reescrevendo a história das mulheres na canção brasileira a partir do livro do Gênesis
Foto: Vinil

É importante acrescentar que este álbum possui um sem-número de simbolismos que não caberiam em nossa análise. No entanto, é importante citar uma aqui, a partir de um post feito na página de Karina Buhr no Facebook, poucos dias após o lançamento do CD: no caso, foi feita a lembrança em relação aos Bereber, um povo bárbaro e selvagem baseado em uma cultura essencialmente matriarcal, surgido há mais de dois mil anos. Estes indivíduos ocupam a região de Magreb, que fica entre a Argélia, a Tunísia e o Marrocos e preveem ser chamados de “Amazigh”, que significa em português, “pessoas livres”. As mulheres desse povo longínquo são caracterizadas pela beleza e pela força, além de sempre conseguirem manejar armas brancas com notável destreza e de estarem sempre vestidas com muitas pulseiras, colares e outros tipos de ornamento. Sua rainha mais importante viveu por volta do ano 600 e tinha o dom da profecia: foi batizada como Dihya, mulher-luz e rainha dos selvagens, conhecida por todos os seus como Kahina, nome utilizado para denominar todas as sacerdotisas e feiticeiras. Na língua de Camões, este nome ficou conhecido como Karina…
Se os reacionários de plantão tivessem ouvido o disco com atenção e fizessem um mínimo de pesquisa pelo próprio Google ou Facebook antes de julgar o conteúdo pela capa, teriam chegado à óbvia conclusão de que a imagem da capa de Selvática não é apenas um mero convite à afronta ou uma mera demonstração de egolatria, mas um manifesto corajoso muitíssimo bem fundamentado, algo que não se vê na música brasileira há muito tempo. 
Por isso, aproveite a chance e deixe-se enfeitiçar por este manifesto em prol da liberdade chamado Selvática, um disco que já nasce com a pecha de clássico – em nome das mulheres, em nome da igualdade, em nome da poesia e da música de boa qualidade!


ESTE TEXTO FOI ORIGINALMENTE PARA O SITE PEQUENOS CLÁSSICOS PERDIDOS!